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Casamento Trocado, Destino Reescrito
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Capítulo 4

A vida na casa dos meus sogros, onde ficamos temporariamente enquanto nosso apartamento terminava de ser preparado, era um bálsamo para minha alma ferida. Minha sogra, Dona Elvira, era uma mulher de coração grande e risada fácil. Meu sogro, Seu Alberto, era quieto, mas seus olhos mostravam uma bondade genuína. Eles me trataram não como uma nora, mas como a filha que nunca tiveram.

Pela primeira vez, eu comia refeições completas sem ter que esperar que todos se servissem primeiro. Recebia elogios pela minha comida, pela minha ajuda na casa. Coisas pequenas, mas que para mim, que cresci com migalhas de afeto, significavam o mundo.

Carlos me entregou a chave do nosso apartamento e a caderneta de propriedade em meu nome. "É nosso", ele disse, "mas quero que você se sinta segura. Isso é seu." Segurar aquele documento nas mãos foi uma sensação de poder e segurança que eu nunca havia experimentado.

Não perdi tempo. Com o dinheiro que arranquei de Lúcia e a máquina de costura, montei uma pequena oficina de costura na sala extra do nosso novo apartamento. Comecei fazendo roupas para bebês. Naquela época, as roupas de bebê prontas eram caras e de qualidade duvidosa. Eu comprava os melhores tecidos de algodão que podia encontrar e criava modelos simples, mas confortáveis e bonitos.

No começo, foi difícil. As pessoas desconfiavam de uma "novata" no ramo. Mas eu não desisti. Lavei cada peça de roupa com sabão neutro antes de vender, garantindo que estivessem macias e sem cheiro de tecido novo. Colocava-as em embalagens bonitas, com um pequeno laço. A qualidade do meu trabalho falava por si.

Logo, as mães do bairro começaram a encomendar. A notícia se espalhou. "As roupas da Maria são as melhores", diziam. Em poucos meses, eu mal dava conta dos pedidos. Tinha que trabalhar até tarde da noite, mas o cansaço era doce. Era o cansaço do sucesso.

Um dia, Carlos chegou em casa com uma notícia.

"O diretor da fábrica me disse que há uma vaga no setor administrativo. Um emprego estável, com todos os benefícios. Ele disse que, por ser minha esposa, você teria preferência."

Naquela época, um emprego em uma fábrica estatal era o sonho de consumo de qualquer um. Era segurança para a vida toda. Meus sogros ficaram animados com a ideia.

Mas eu recusei.

"Agradeço a oferta, Carlos, mas eu não quero", eu disse, durante o jantar.

"Mas por quê, filha?", perguntou Dona Elvira. "É uma oportunidade de ouro!"

"Porque eu acredito no meu negócio", expliquei. "Os tempos estão mudando. Logo, as pessoas vão querer mais do que apenas o básico. Elas vão querer coisas bonitas, de qualidade. O comércio individual vai crescer muito. Ser dona do meu próprio negócio me dá liberdade. Um emprego na fábrica me daria um salário fixo, mas também um teto. No meu negócio, o céu é o limite."

Eles não entenderam completamente minha lógica, que vinha da minha experiência de uma vida futura, da era da abertura econômica. Mas Carlos, como sempre, me apoiou.

"Se é isso que você quer, Maria, então é o certo a se fazer."

Minha sogra, Dona Elvira, acabou se tornando minha maior aliada nos negócios. Ela tinha uma rede de contatos incrível na cidade.

"Maria," ela me disse um dia, "você só faz roupas de bebê. Mas as crianças crescem. E as mães? Elas também precisam de roupas. E os maridos? Por que não fazer uniformes de trabalho? As fábricas sempre precisam."

Ela também me deu uma ideia genial. Naquela época, muitas coisas eram compradas com cupons de racionamento, os "tíquetes".

"Muitas pessoas têm tíquetes de tecido que não usam", ela disse. "Você poderia comprar esses tíquetes deles por um preço baixo, ou trocar por roupas prontas. Assim, você consegue matéria-prima barata."

Segui o conselho dela. Comecei a diversificar. Passei a fazer vestidos para mulheres, camisas para homens. O negócio explodiu. Contratei duas vizinhas para me ajudar com a costura. O som das máquinas de costura trabalhando no nosso apartamento era música para os meus ouvidos.

Um domingo, decidimos ir visitar minha família. Era a primeira vez desde o casamento. Eu queria mostrar a eles que estava bem, que estava feliz. Carlos insistiu em ir comigo, um pressentimento talvez.

Quando chegamos, a casa estava silenciosa. Lúcia nos recebeu com um sorriso forçado. Joana apareceu logo depois, a barriga de grávida já proeminente. Seu rosto se contorceu de ódio ao me ver. Ela olhou para minhas roupas novas, para o meu semblante sereno, e a inveja a consumiu.

Eu tinha trazido alguns presentes, roupas de bebê que eu mesma fiz. Quando entreguei o pacote para Joana, ela o jogou no chão.

"Não preciso da sua caridade!", ela cuspiu. "Guarde essas coisas para você! Se bem que... duvido que você vá precisar. Ouvi dizer que o Carlos teve um 'pequeno' acidente na fábrica. Que pena."

O veneno em sua voz era palpável. Ela estava insinuando sobre o acidente da vida passada, tentando me atingir.

Carlos, que estava ao meu lado, deu um passo à frente. Sua calma habitual deu lugar a uma fúria fria.

"Joana," ele disse, com a voz grave, "nunca mais fale com a minha esposa nesse tom. E se você tem algo a dizer sobre mim, diga na minha cara."

Joana recuou, surpresa com a reação dele. Antes que a situação piorasse, eu peguei a mão de Carlos.

"Vamos embora, Carlos. Não vale a pena."

Saímos de lá, deixando para trás o veneno e o ódio. No caminho de volta, Carlos segurou minha mão com força. Ele não disse nada, mas eu sabia o que ele estava pensando. Ele estava me protegendo. Naquele momento, nosso casamento de conveniência se tornou algo muito mais forte. Éramos um time. E eu sabia que, juntos, poderíamos enfrentar qualquer tempestade que Joana e Lúcia criassem.

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