Ela se aproximou da minha cama, o desprezo estampada em seu rosto. "Você é realmente patética, sabia?"
Se curvando sobre mim, ela prosseguiu: "Acha mesmo que ter o bebê dele vai fazê-lo te amar? Ele nunca vai te amar, você é só um tapa-buraco."
Sua mão alcançou o tubo do soro e o apertou com brutalidade, uma dor ardente subindo pelo meu braço.
"Pare com isso!", gemi, tentando recuar.
Num piscar de olhos, a expressão de Camila mudou, os olhos marejados, o lábio inferior tremendo ao exclamar: "Você me machucou! Por que você é tão má comigo?"
Ela então saiu correndo do quarto aos soluços, colidindo com uma enfermeira que trazia uma bandeja, e o estrondo do impacto fez cair um pequeno recipiente térmico que se abriu no chão - era a amostra coletada do meu aborto espontâneo, os restos do meu filho.
A enfermeira, uma mulher de meia-idade, levou a mão à boca, horrorizada. "Oh, meu Deus! A amostra!"
No corredor, Camila também se chocou contra uma família enlutada que aguardava as cinzas de seu ente querido, e na colisão a urna deles se espatifou.
Uma mulher gritou com ela, o rosto molhado pelas lágrimas: "Sua desgraçada! Você profanou as cinzas do meu pai!"
Encurralada, Camila apontou para mim, a voz trêmula mas firme em sua acusação: "Foi ela! Ela me empurrou! Eu vi quando ela falava com a enfermeira. Fez de propósito!"
A dor da família virou fúria e caiu sobre mim, e eles invadiram o quarto, os rostos contorcidos. Um homem agarrou meus ombros e me sacudiu com violência enquanto gritava: "Você fez isso! Vai pagar!"
Eu, fraca, tonta, afogada no próprio luto, não consegui reagir - eu era apenas uma boneca mole em mãos furiosas.
Em meio ao caos, vi Camila escapar, um sorriso rápido e vitorioso cruzando seus lábios.
Cadu chegou logo depois, atraído pela confusão. A família contou sua versão, as vozes embargadas, o desespero escorrendo em cada palavra, e o rosto dele se fechou.
Camila reapareceu, firme e desafiadora, e olhou para ele, um olhar que lhe exigia escolher um lado.
Nos olhos de Cadu, vi uma centelha de dúvida, uma breve hesitação, e a parte mais ingênua de mim ainda ousou esperar que ele enxergasse a verdade, mas logo seu olhar endureceu, e sua voz suave e autoritária selou minha condenação.
"Esta é uma tragédia terrível, mas foi culpa da minha esposa, ela não anda bem ultimamente. Assumirei a responsabilidade. Compensarei vocês pela perda", ele disse.
Minha dignidade havia sido trocada por um cheque. "Não, Cadu, ela está mentindo", sussurrei, quase sem voz.
O olhar que ele me lançou gelou meu sangue, fúria pura e cortante. "Fique quieta, Joice!"
Em seguida, ele apresentou sua solução: eu receberia alta imediatamente e pediria desculpas à família, e ele lhes daria uma quantia generosa em dinheiro.
Dois seguranças se aproximaram, suas mãos firmes em meus braços, prontos para me arrastar, e naquele instante percebi que não era mais esposa, mas prisioneira.
Enquanto me levavam pelo corredor, a cabeça girando, ouvi a voz de Cadu, macia e protetora, voltada inteiramente a Camila. "Você está bem? Eles te assustaram? Não se preocupe, eu cuido de tudo."
A resposta dela veio num murmúrio satisfeito, e o mundo à minha volta se dissolveu - luzes fluorescentes, rostos indignados, o corredor inteiro num turbilhão nauseante de dor.