"Sinto muito, senhora", sussurrou a enfermeira de meia-idade de antes, seus olhos cheios de uma compaixão que doía quase tanto quanto a crueldade de Cadu.
Na neblina da dor, me lembrei de outro tempo - anos atrás, quando Cadu me levou às pressas para o pronto-socorro por causa de uma febre banal. Ele havia aterrorizado a equipe inteira até que me atendessem, seu medo por mim tão palpável quanto real.
O homem que um dia fora meu protetor feroz era agora meu algoz deliberado e frio. Me perguntei, num instante de lucidez distante, se teria doído menos nunca ter conhecido aquele amor, porque a memória do calor tornava o frio insuportável.
Engoli outro comprimido do meu estoque escondido, o último, e o mundo escureceu antes que o bipe agudo da máquina cortasse o ar.
"Ela está em parada! Desfibrilador, rápido!"
"A frequência está caindo, estamos perdendo-a!"
O som de gritos, a correria, o cheiro áspero de antisséptico, depois um zumbido longo e contínuo, seguido do silêncio. "Hora da morte, 23h42."
Quando... recuperei a consciência, a família enlutada do corredor estava presente, me acusando da morte do patriarca, cujo coração falhara após o choque.
Eles me cercaram, os rostos distorcidos pela dor enquanto me chamavam de assassina. Uma mulher cuspiu em mim. Um homem agarrou meu cabelo e bateu minha cabeça contra o chão gelado, obrigando-me a me curvar diante de um fantasma.
Eu, rodeada por dedos apontados e olhos cheios de ódio, tentei falar e contar a verdade, mas minha voz não passava de um sussurro quebrado, tragado pela cacofonia.
Procurei por Cadu, e ele estava lá, parado à porta, observando sem mover um músculo, sem estender a mão, o rosto vazio como uma tela em branco.
Nesse instante, as últimas brasas de amor que eu ainda guardava por ele se extinguiram, restando apenas cinzas frias.
Arrastei meu corpo ferido até em casa, a mansão mergulhada em escuridão e silêncio.
Cadu estava na sala de estar, o olhar preso ao celular, e quando ergueu os olhos e me viu, a surpresa cruzou seu rosto antes de correr até mim, as mãos pairando sobre o meu rosto machucado. "Meu Deus, Joice, o que aconteceu com você?", ele perguntou, a voz escorrendo de falsa preocupação. "Não se preocupe, vou cassar as licenças daqueles médicos..."
Ele culpava outros... ele, que havia ficado parado e assistido...
"Me deixe ver seus ferimentos", ele disse, tentando me tocar.
Afastei-me como de uma chama ardente. "Não me toque."
Ele congelou, a mão suspensa no ar, genuinamente surpreso, então, tentou outra tática e surgiu com um buquê de rosas, claramente providenciado por seu assistente.
"Para você. Me desculpe. Prometo que vou me livrar da Camila. Está quase no fim", ele disse suavemente.
As mesmas mentiras, as mesmas promessas quebradas.
Peguei as flores em silêncio, e esse silêncio pareceu desconcertá-lo.
Mais tarde, vi a postagem de Camila no Instagram, uma foto dela sorrindo e exibindo um buquê idêntico, com a legenda: "Algumas pessoas ficam com as sobras. Eu fico com o original." A náusea me atingiu como uma onda, e a dor no peito era tão intensa que parecia rachar minhas costelas.
O mordomo surgiu na porta. "Senhor, o carro está pronto."
Cadu estava prestes a levar Camila para a gala anual do Grupo Almeida, um evento que, por anos, eu havia organizado como anfitriã oficial.
"Eu tenho que levá-la, é apenas por aparências, para finalizar o acordo que vai destruir a família dela ", ele explicou, sem encarar meus olhos.
Eu não disse nada.
"Joice", ele murmurou com a voz hesitante. "Você... vem comigo?"