Um lampejo de confusão cruzou seu rosto antes de ser substituído por uma simpatia ensaiada.
- Oh, querida. Sinto muito. Podemos ir visitar o túmulo dela amanhã, eu prometo.
Ele havia esquecido.
Ele havia esquecido que sua mãe tinha sido cremada e suas cinzas espalhadas no mar. Ele esteve lá com ela.
A dor foi um golpe físico, agudo e visceral. Ela cravou as unhas nas palmas das mãos, a ardência uma distração bem-vinda da agonia em seu peito.
Ele serviu o jantar para ela, seus movimentos cheios do cuidado praticado de um marido devotado. Ele até lavou a louça depois.
Ela observou suas costas enquanto ele estava na pia, e seu coração parecia estar sendo retalhado.
Este homem, este monstro, quase a enganou por uma vida inteira.
Seu olhar varreu o apartamento, um espaço cheio de três anos de memórias que agora estavam manchadas, envenenadas.
Ela pegou o celular e enviou uma mensagem para o corretor de imóveis.
*Confirme a venda. Quero que seja finalizada o mais rápido possível.*
- Com quem você está falando? - a voz de Guilherme veio de trás dela, fazendo-a pular.
Ela rapidamente bloqueou o celular.
- Apenas um antigo colega.
Ele veio por trás dela, envolvendo seus braços em sua cintura. Seu queixo repousou em seu ombro.
- Eu não gosto que você trabalhe aqui, Alícia. Volte para a Europa comigo. Podemos começar nossa família.
Ele mencionou ter um bebê.
As palavras enviaram um arrepio por sua espinha.
Ela se lembrou da conversa que ouvira. Ele queria um filho não com ela, mas como um recurso biológico para Helena.
Seus lábios percorreram seu pescoço. Seu toque fez sua pele se arrepiar.
- Vamos ter um bebê, Alícia - ele sussurrou, a voz rouca.
Ela lutou contra o impulso de empurrá-lo, de gritar em seu rosto. Ela não podia se expor. Ainda não.
- Estou com dor de cabeça, Guilherme - disse ela, a voz tensa. - Hoje não.
Foi a primeira vez que ela o recusou.
Ele parou, uma carranca vincando sua testa. O calor em seus olhos desapareceu, substituído por um lampejo de algo frio e sombrio.
- Tudo bem - disse ele, a voz seca. Ele se virou e foi para o banheiro, batendo a porta.
Ela soltou um suspiro que não percebeu que estava segurando.
O celular dele, deixado na mesa de centro, acendeu com uma notificação.
Era de Helena. A mensagem era enjoativamente doce. *Gui, sinto sua falta. Volta pra mim. :(*
Guilherme saiu do banheiro, viu a mensagem e imediatamente começou a se vestir.
- Surgiu algo urgente no escritório - disse ele, sem nem mesmo olhar para ela.
A mentira era tão fácil.
Quando ele alcançou a porta, um impulso desesperado e autodestrutivo a tomou.
- Não vá, Guilherme. Fique comigo.
Ele se virou, o rosto uma máscara de impaciência.
- Não seja tão infantil, Alícia. Eu tenho trabalho a fazer.
Ele saiu, batendo a porta atrás de si, deixando-a sozinha no apartamento silencioso.
O último fio de sua esperança se partiu.
Ela pegou o celular e confirmou a venda do apartamento, o ato final de cortar seu passado.