Rayra se aproximou dele cabisbaixa, com o corpo tremendo de nervosismo. Ela estava pálida, com a respiração desacertada e as mãos frias. Victor, com um gesto firme e gentil, pegou a mochila pesada de seus ombros, aliviando um pouco o peso que ela carregava. Ele a acompanhou devagar até o carro, e abriu a porta para ela.
- Entra, devagar - ele disse, com a voz suave.
Ao ajudá-la a sentar, ele notou a expressão de dor no rosto dela e a maneira cuidadosa como ela se ajeitou no banco. Victor deu a volta, entrou no carro, e dirigiu até sua casa. Ele não disse mais nada, e o silêncio no carro era um alívio para Rayra.
Quando chegaram, ele a ajudou a descer e a guiou até o sofá na sala. Ele a fez sentar com cuidado e se abaixou na frente dela. Rayra já estava mais calma, com a tensão se esvaindo.
- O que aconteceu? - ele perguntou, com um tom de preocupação genuína.
- Você está machucada.
Rayra, por sua vez, sorriu sutilmente e tentou esconder a verdade.
- Eu caí, enquanto fazia uma faxina.
Ele sentou-se ao lado dela no sofá.
- Isso é mentira - ele disse, com a voz firme, mas gentil.
- Por que você voltou aqui, tão desesperada para trabalhar?
Rayra olhava para as mãos, que tremiam.
- Eu... eu quero trabalhar para ter dinheiro para viajar. Sair da cidade e buscar novas oportunidades.
Victor afrouxou a gravata.
- Você não precisa limpar nada. Eu te dou o dinheiro. De quanto precisa?
Constrangida, ela respondeu.
- Cem reais. Seria um empréstimo, e eu devolvo tudo assim que possível.
Ele pegou o celular, fez um PIX e enviou duzentos reais.
- Te mandei o dinheiro. - Ele a olhou com seriedade.
- Para onde você vai? Já tem algum emprego em vista?
Ela o olhou desconcertada.
- Meu celular quebrou... Eu não... Deixa. É... você não consegue cancelar o PIX? E me dar em mãos? Mas se não der, tudo bem, eu acho um caixa eletrônico.
Victor balançou a cabeça.
- Esqueci disso. - Ele perguntou, com o olhar fixo no dela.
- O que aconteceu com o seu celular?
Rayra hesitou.
- Eu derrubei.
Victor se levantou, cruzando os braços, e a encarou com um misto de frustração e preocupação.
- Você está mentindo. E eu não vou insistir. Mas fica difícil te ajudar sem saber o que está acontecendo.
Ela se levantou do sofá, com um sorriso de agradecimento, mas ainda envergonhada.
- Você já está me ajudando muito.
- Muito obrigada pelo dinheiro, Victor. Eu vou devolver, prometo. - Ela se abaixou, pegando a mochila, mas Victor se aproximou, sutilmente a impedindo.
Ele olhou profundamente nos olhos dela.
- Você não vai sair sozinha. Eu te levo na rodoviária ou onde precisar.
Victor estendeu a mão e, com um gesto gentil de apoio, acariciou o braço dela.
- Rayra, eu quero saber o que aconteceu. Alguém te machucou? De quem ou do que você está fugindo?
Ela se encolheu com a dor no braço, desviando-se do toque dele.
- Não aconteceu nada. - ela disse, com a voz embargada.
Victor se aproximou ainda mais e, com firmeza, segurou o braço dela.
- Eu quero ver. Se nada aconteceu, então você não está com hematomas.
Ele começou a levantar a manga da blusa dela, e Rayra, começou a chorar, cabisbaixa e envergonhada. Logo ele encontrou os hematomas, e, com delicadeza, levantou a blusa na parte da barriga, vendo mais marcas feias e grandes. Victor ficou sério, com os olhos vermelhos de raiva, como se fosse chorar. Ele abaixou a roupa dela e a abraçou.
- Você não vai sair daqui sozinha.
Ela permaneceu quieta nos braços dele, com a sensação de proteção a envolvendo. Era a primeira vez em muito tempo que se sentia acolhida. Rayra se soltou do abraço, ainda com a respiração ofegante, e Victor pegou sua mão com delicadeza.
- Vem comigo. Eu vou ver se tenho alguns remédios pra dor.
Eles subiram as escadas lentamente. Ela, calada, o seguia, ainda absorvendo tudo que estava acontecendo. Ao chegarem ao corredor, Victor parou e olhou para ela com uma seriedade reconfortante.
- Você vai ficar aqui. - ele disse.
- Neste meu mausoléu. Pelo tempo que precisar, até melhorar e decidir o que vai fazer da sua vida.
Rayra, ainda em silêncio, apenas o olhou, com os olhos marejados de gratidão. Ele a amparou, levando-a para o quarto ao lado do dele. Abriu a porta.
- Deita aqui. - ele disse, indicando a cama.
- Você precisa descansar.
Ela tirou os tênis e sentou, ele perguntou, com a voz suave:
- Você está com fome?
Rayra, sentada na cama, com o olhar perdido, suspirou.
- Não.
- Você nem vai notar que eu estou aqui. Só preciso dormir em paz. Obrigada.
Victor sorriu, com um sorriso genuíno que iluminou seu rosto.
- Não vou te deixar em paz. Não é todo dia que tenho companhia.
Ele saiu do quarto, e Rayra, exausta, ficou encostada na cabeceira, com vergonha de deitar.
Pouco depois, Victor voltou, já sem o paletó do terno. Nas mãos, carregava uma caixa de remédios e uma garrafa de água. Ele se aproximou, abrindo a caixa.
- Você toma de tudo? Deu sorte, tem uma pomada do futebol. - Ele sentou na beirada da cama.
- Quer ir ao médico?
Rayra pegou a garrafa de água, balançando a cabeça.
- Não precisa.
Ele lhe entregou dois comprimidos diferentes. Enquanto ela tomava a água, ele pegou a pomada.
- Tira a blusa. Eu passo em você. Prometo não olhar seu decote. E eu já vi tanta mulher pelada que poderia ser médico. Ginecologista.
Rayra, distraída demais pela dor para se preocupar com a tatuagem, sorriu, desconcertada.
- É, posso imaginar. Não vou negar, o corpo humano em si me atrai. - Ela tirou a blusa, ficando apenas de sutiã, um simples preto sem detalhe algum.
- Gosto de olhar, mas não como uma pervertida.
Victor começou a passar a pomada nos braços dela, com delicadeza.
- A maioria das pessoas tem essa curiosidade. A maioria só não assume. Eu já acostumei. Posso te fazer uma pergunta?
Constrangida pelas marcas e a proximidade, ela assentiu. Ele parou o que estava fazendo, olhou para ela com seriedade e perguntou:
- Você denunciou? Já pediu uma medida protetiva?
Rayra sorriu sutilmente, um sorriso triste e resignado.
- Toda escolha tem consequências, né? Infelizmente, eu paguei muito caro pelas minhas.
Victor se moveu, sentando-se mais perto dela na cama.
- Vira para eu passar nas costas. O importante agora é você se libertar.
Rayra, confiando em suas palavras, virou-se. Foi então que Victor a viu, uma tatuagem pequena de ursinho, nas costas, perto da cintura. A tatuagem era simples, mas inconfundível. Seu coração disparou, e ele sentiu uma onda de choque e confusão. A mulher misteriosa da festa, a que o deixou completamente louco de desejo e o atormentou com a ausência, era simplesmente Rayra. A sua faxineira. A revelação o atingiu em cheio, e a pomada em sua mão parou de se mover.