Victor passou o resto da noite, consumido pela lembrança da mulher misteriosa. O gosto, o calor e o cheiro dela pareciam impregnados em sua memória. Quando, finalmente, os convidados foram embora ja era de manhã, ele foi tomar banho e se masturbou, pensando nela. Gozou deliciosamente, imaginando que estava transando com ela.
Ele se deitou e dormiu até o horário do almoço, mas levantou frustrado e levemente irritado com a festa. Lembrou-se da ex-noiva e das surpresas que ela fazia, o que o deixou ainda mais chateado. Ele não queria ver ou falar com ninguém.
Incomodado com a bagunça, pegou o celular e enviou uma mensagem para Rayra.
"Oi, pode vir hoje? A casa está destruída! Eu sei que é fim de semana e você não deve trabalhar. Mas eu pago um extra!"
Rayra estava almoçando quando a mensagem chegou. Ela sentiu um frio na barriga, a apreensão foi tomando conta de si. Digitou a resposta rapidamente.
"Oi, posso sim, tranquilo. Vou me arrumar e daqui uma hora, chego aí. Pode ser?"
A confirmação de Victor veio de imediato, acompanhada de uma transferência de vinte reais e o pedido para que ela fosse de Uber. O nervosismo a consumiu. Ela correu para o banheiro, com o coração batendo forte. "Será que ele me reconheceu?", a pergunta martelava em sua mente.
"E se ele me humilhar?"
Rayra lavou o cabelo, dedicando-se a deixá-lo super enrolado e volumoso, usando creme de pentear e gelatina de cachos. Fez uma maquiagem leve, bem diferente da que usou na noite anterior. Vestiu uma calça de moletom folgada na cor chumbo, uma camiseta larga de uniforme e tênis. Passou um perfume diferente, mais fresco e discreto.
Completamente tensa, ela pegou o Uber e, durante todo o trajeto, só conseguia pensar no sutiã que havia esquecido na casa de Victor, temendo que fosse a prova de que ele precisava para a desmascarar.
Victor estava deitado no sofá da sala quando o interfone tocou. Ele destrancou o portão e permaneceu na porta, mexendo no celular, sem olhar para a bagunça que se estendia por toda a casa. Rayra se aproximou, séria, com um sorriso sutil e apreensivo nos lábios.
- Oi. - ela disse, com a voz baixa.
Ele a olhou rapidamente.
- Oi. Desculpa te chamar. Mas eu não esperava tanta bagunça. - Ele fez um gesto vago com a mão.
- Olha tudo aí e depois me fala quanto vai cobrar.
Rayra concordou em silêncio. Ela foi caminhando pela casa, observando o caos, copos, embalagens de preservativos, balas, e até calcinhas espalhadas pelo chão. Mesmo nervosa, ela começou a rir ao encontrar, na cozinha, uma jarra com um pê.nis de borracha flutuando. Ela colocou a mochila no balcão da cozinha, com o rosto corado de vergonha.
Victor, ao vê-la, sorriu, sentou-se no balcão e observou a cena.
- Pode jogar fora. Todas as porcarias que achar por aí. Meus amigos não têm limites.
Rayra continuou de cabeça baixa, com o ombro tremendo levemente enquanto ela tentava conter o riso. O ar de constrangimento de antes havia se misturado com uma diversão secreta. Ela colocou o avental e as luvas e foi pegar os sacos de lixo na despensa.
Enquanto se virava, ouviu Victor falando ao celular, com a voz grave e cheia de frustração. Ele estava gravando um áudio:
- E aí, cara, descolou o nome da gata? Alguém tem que saber, pelo menos um apelido... Po.rra, a galera era toda conhecida!
Rayra parou, com um sorriso malicioso se formando em seu rosto. Ele estava mesmo procurando por ela. O coração dela batia forte, mas não de medo, e sim de adrenalina. Ela pegou os sacos de lixo, foi voltando para a sala com um brilho nos olhos. Victor, por sua vez, continuava sua busca implacável, sem perceber que a mulher que ele tanto procurava estava a poucos metros de distância, pronta para arrumar a bagunça que a própria festa havia criado.
Victor se deitou no sofá da sala, com os olhos fechados, enquanto Rayra, com seu avental e luvas, limpava a parte de baixo da casa. Ele permaneceu ali por um tempo, murmurando algo sobre estar cansado, antes de subir para o andar de cima. Ele se fechou no quarto, e Rayra soube que ele queria ficar sozinho.
Rayra, por sua vez, estava em seu próprio mundo. Limpou a casa toda, rindo sozinha de cada vestígio da festa que encontrava. Os objetos eróticos espalhados, as embalagens, tudo era uma lembrança da noite anterior. Curiosamente, ela não encontrou o sutiã que havia esquecido.
Ela tomou o resto de algumas bebidas que encontrou, o álcool foi aquecendo o corpo e a deixando animada. Colocou os fones de ouvido e começou a dançar e a cantarolar enquanto continuava o trabalho. A energia extra a fez se sentir inspirada, e ela foi para a cozinha. Decidiu fazer um bolo de chocolate. Preparou o recheio, a cobertura, montou a massa e, para finalizar, enfeitou com bolas de brigadeiro e morangos frescos. O bolo ficou lindo, uma obra-arte no meio de toda a bagunça que havia sido a festa.
Victor, alheio a tudo, dormiu profundamente. Levantou quando a noite já caía, se sentindo frustrado e irritado com o aniversário. Ele desceu as escadas à procura de Rayra. Ele a encontrou na lavanderia, passando as roupas dele que ela havia lavado. Victor parou na porta entre a cozinha e a lavanderia, vestindo apenas um shorts, semi nu.
- E aí, está acabando? - ele perguntou, com a voz grave.
- Eu capotei, estava cansadão. Só quero que esse dia acabe logo.
Rayra percebeu a mudança no semblante dele. Ele estava diferente, desanimado, uma versão exausta do magnata da noite anterior. Com gentileza e empatia, ela o olhou.
- Já acabei. Tudo bem? A festa não foi boa pra você?
Ele se encostou no batente da porta, parecendo cansado demais para se importar com a pose.
- Ah, eu me arrependi, para ser sincero. Sabe quando você está rodeado de pessoas e ainda assim se sente sozinho?
- Eu me sinto assim. Minha família tá longe. - Ele suspirou, olhando ao redor da casa arrumada.
- Eu não sei, sabe? Estou odiando essa casa e acabei de me mudar. Desde que estou aqui, não durmo direito. Essa casa não foi planejada pra uma pessoa só.
Rayra, que o ouvia com atenção, colocou uma camisa no cabide.
- Eu sei. Eu sempre me senti assim, por estar ao lado de alguém que não me via. - Ela fez uma pausa, olhando-o nos olhos com uma sabedoria que ele não esperava.
- Você tem opções, tem condições. Não se prenda à casa ou às expectativas dos outros.
Ela passou por ele com as mãos cheias de roupas, a fragrância limpa do tecido contrastando com o cheiro da limpeza. Ele ficou olhando-a ir, desanimado.
- Não é fácil assim. Paguei uma fortuna. Aliás, vou pagar por anos. - A voz dele soou como um lamento.
- Você não precisava lavar e passar, né?