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Capítulo 9 9

Rayra estava desesperada. A cada não que recebia em suas tentativas de emprego, a esperança se esvaía. Resolveu se humilhar e falar com Victor, mesmo com o orgulho ferido. Mandou uma mensagem:

"Oi, tudo bom? Essa semana, estou livre ainda, se quiser agendar um dia, é só falar!!"

Ele, imerso em uma fase depressiva por ver a ex-noiva feliz com o filho, respondeu ríspido:

"Oi, tudo ótimo. Já chamei uma moça pela agência!"

"Gosto das coisas certas, e você me enganou. Foi demitida antes de vir trabalhar aqui."

O coração de Rayra gelou. Ela respondeu, depois de digitar e apagar várias vezes, com as mãos trêmulas:

"Eu não devia ter mentido, mas estava precisando muito! Me desculpe, eu sou muito honesta, pode perguntar na agência, sempre fiz tudo certo!"

A resposta dele veio, cheia de raiva e frustração que ele descontava nela.

"Nem tudo, se não, ainda estaria empregada lá!😉"

Rayra explodiu em lágrimas de raiva. Nervosa com tudo, parou de responder. Na mesma tarde, foi até o bairro onde morava com o ex, para entregar um currículo em um mercado. Um amigo dele a viu, avisou-o, e, quando Rayra estava indo embora, ele a seguiu de longe. A pegou em uma rua mais vazia, a agrediu com socos e chutes pelo corpo, e ameaçou que a pegaria de novo se a visse lá perto.

Ela até tentou se defender, mas os golpes eram muitos e ela não aguentou. Com raiva, ele pegou o celular dela e o esmagou contra o chão, rindo enquanto se afastava. Rayra, mancando e sentindo uma dor profunda por todo o corpo, caminhou de volta para casa.

Uma parte de si, na mais pura exaustão e desespero, quase cogitou voltar com ele, lembrando-se de como ele era "diferente" e "um pouco melhor" quando estavam juntos.

Ainda em choque, Rayra não percebeu que ele a havia seguido de longe. Quando sua amiga chegou e a viu naquele estado, as duas foram juntas à farmácia para comprar curativos e analgésicos.

Enquanto estavam fora, o ex de Rayra pulou o muro da kitnet, entrou e quebrou tudo. A bagunça se espalhou por cada canto, e ele inundou o lugar, deixando um rastro de destruição.

Quando voltaram, as duas levaram um susto ao ver a porta aberta. Ao entrarem, o choque foi imediato. A amiga de Rayra, pálida de medo, disse que a situação estava fora de controle.

- Isso não vai dar certo, Rayra. Ele vai voltar e fazer pior. Você precisa ir embora daqui. Para outro lugar, e agora.

- Eu tentei te ajudar.

Elas ligaram para a polícia, mas a denúncia de nada adiantou. Como ninguém viu nada, os policiais disseram que não havia o que ser feito. Passaram a noite em claro, sentadas na cama, com uma faca de cozinha ao lado. A destruição ao redor, e o medo de que ele voltasse, as consumiam.

Cedo, no dia seguinte, Rayra arrumou suas coisas, tomou um banho rápido. Com o corpo todo dolorido, ela fez uma maquiagem mais pesada para esconder um hematoma no rosto. Vestiu uma blusa fina de mangas longas para cobrir as marcas nos braços, uma calça legging e tênis. Ela colocou todas as roupas que conseguiu na mochila e, em outra bolsa, levou seus documentos.

Com o corpo dolorido, Rayra saiu antes das sete da manhã e foi até a casa de Victor. Mesmo com a dor, ela se sentia determinada a tentar o impossível, se humilhar e pedir pra fazer faxina, para que pudesse viajar, recomeçar a sua vida longe, com o dinheiro que ganharia.

Ainda era muito cedo, e Rayra sentou-se na frente da mansão de Victor, com o corpo todo dolorido. Ela o ouviu sair de casa e ir em direção à garagem. Quando ele destravou o carro, ela se levantou às pressas, ficando na frente do portão.

- Victor! - ela chamou, com a voz trêmula.

Ele estava entrando no carro e não a ouviu, foi preparando-se para sair. Rayra, nervosa e ansiosa, esperou. Ele a viu, ficou sério, e parou o carro na calçada. Ele abaixou o vidro, e ela sorriu sutilmente.

- Bom dia, desculpa vir aqui assim. Mas o meu celular quebrou. Eu não pude ver se você me mandou algo. E eu queria te explicar o que aconteceu, por que eu menti.

Victor respondeu, indiferente, com o olhar fixo no painel.

- Não mandei nada. Já encontrei alguém para trabalhar fixo. Boa sorte.

Rayra, em um gesto de desespero, se inclinou.

- E ela já começou? Se você quiser, eu posso fazer uma última faxina por cem reais. Eu limpo tudo, geladeira, janelas, tudo mesmo.

Victor pegou o celular, constrangido pela situação.

- Não vai dar. Mas obrigado. Eu preciso ir.

Ela balbuciou um "tudo bem", com a vergonha tomando conta de si. Victor acenou um "tchau", fechou o vidro, e saiu com o carro, lançando um último olhar pelo retrovisor. Foi aí que ele a viu mancando, com um passo dolorido, indo pegar na mureta a mochila e uma bolsa grande. A cena o atingiu em cheio. Viu que algo estava errado.

Imediatamente, pegou o celular e ligou para a agência. A mesma moça que o atendeu da última vez atendeu a ligação. Victor foi direto ao ponto, pedindo mais referências sobre Rayra. A moça, com a voz baixa e cautelosa, disse que não deveria, mas que falaria.

Ela contou a verdade, que o ex de Rayra a estava perseguindo e, para sabotá-la, começou a mandar mensagens para os clientes se passando por ela ou ameaçando-os com supostos casos de traição. Coisas que, segundo a moça, nunca tinham acontecido. Ela reforçou que Rayra era honesta e esforçada e que estava passando por um momento difícil, pois havia se endividado muito para cuidar da mãe doente, que havia falecido recentemente.

Victor deu a volta com o carro e retornou à sua rua. Dirigiu devagar, com os olhos vasculhando cada calçada, cada esquina. O desespero de encontrá-la era maior do que a pressa para ir ao trabalho. Foi quando a viu, sentada em um banco de uma pequena praça, com as mãos no rosto, com o corpo encolhido em um choro silencioso. A mochila e a bolsa estavam largadas, ao seu lado.

Ele estacionou o carro e desceu, sério, com uma apreensão visível em seu rosto. A imagem da mulher forte e decidida que ele conhecia havia se desfeito por completo. Ele se aproximou devagar.

- Rayra? - ele chamou, com a voz baixa.

- O que houve?

Ela ergueu a cabeça, com o rosto inchado e os olhos vermelhos de tanto chorar. Ao vê-lo, ela ficou envergonhada, secou o rosto rapidamente e tentou forçar um sorriso.

- Não foi nada, Victor. Estou bem.

Ela se levantou com dificuldade, com o corpo visivelmente dolorido, e deu um passo em falso. Ele a observou com atenção, percebendo o hematoma que a maquiagem mais pesada tentava esconder.

Seu olhar se tornou sério e determinado.

- Eu sei que você não está bem. - ele disse, estendendo a mão.

- Eu tenho uma proposta para você. Vem comigo. Por favor.

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