Finalmente consegui mancar de volta para a cobertura nas primeiras horas da manhã, meu corpo gritando em protesto a cada passo. Eu só queria rastejar para a cama e deixar a escuridão me levar.
Caio estava na sala de estar, um copo de uísque na mão. Por um momento fugaz, um lampejo de preocupação cruzou seu rosto quando me viu entrar mancando, meu rosto pálido e abatido. "Você está bem?"
Antes que eu pudesse responder, a porta da suíte principal se abriu e Fabiana saiu furiosa, seu rosto uma máscara de fúria teatral. Ela segurava um pequeno e requintado anjo barroco de Aleijadinho, uma das peças de colecionador mais valiosas de Caio.
"Caio!", ela gritou, sua voz rachando com lágrimas fabricadas. "Sumiu! A pequena safira que ficava no topo - desapareceu!" Ela jogou a peça no tapete felpudo, o objeto delicado felizmente permanecendo intacto. "Era a peça favorita da minha mãe na sua coleção! Ela sempre dizia que a lembrava dos meus olhos."
Fabiana então apontou um dedo trêmulo para mim. "Foi ela! Eu a vi rondando a vitrine ontem! Ela está com ciúmes! Ela está tentando destruir tudo que eu amo!"
O breve momento de preocupação de Caio por mim evaporou. Ele correu para o lado de Fabiana, sua expressão endurecendo enquanto olhava para mim. "Elisa? Você pegou?"
"Claro que não", eu disse, minha voz cansada. "Fabiana, eu nem cheguei perto daquela vitrine."
"Mentirosa!", ela soluçou, enterrando o rosto no peito de Caio. "Ela me odeia, Caio. Ela odeia que você me ame."
Os braços de Caio envolveram Fabiana protetoramente. Ele olhou por cima da cabeça dela para mim, seus olhos cheios de suspeita e desprezo. Ele emitiu um novo decreto, sua voz tingida de gelo. "De agora em diante, você não deve tocar em nada nesta casa que pertença a mim ou a Fabiana. Você é uma convidada aqui, Elisa. Uma temporária. Você entende?"
As palavras me atingiram com a força de um golpe físico. Uma convidada. Na casa que eu compartilhei com ele por cinco anos. Na cama onde eu concebi seu filho.
Ele levou a ainda soluçante Fabiana de volta para o quarto deles, sussurrando palavras calmantes para ela, palavras que ele um dia sussurrou para mim.
Fabiana, no entanto, não havia terminado. Ela parou na porta, seus olhos, vermelhos de lágrimas de crocodilo, fixos em mim. "Caio, querido", ela choramingou. "Estou tão chateada, não consigo comer nada. Mas estou com desejo daqueles bolinhos de amêndoa da confeitaria do Fasano. Aqueles com as flores de marzipã."
Meu sangue gelou. Eu tenho uma alergia severa e fatal a amêndoas. Choque anafilático. Caio sabia disso melhor do que ninguém. Ele esteve lá uma vez, anos atrás, quando eu acidentalmente ingeri um traço e tive que ser levada às pressas para o pronto-socorro. Ele segurou minha mão o tempo todo, seu rosto pálido de medo.
"Claro, meu amor", disse Caio imediatamente. "Vou pedir para a cozinha prepará-los."
"Não", disse Fabiana, sua voz se tornando astuta. "Quero compartilhá-los com a Elisa. Como uma oferta de paz. É hora de enterrarmos a machadinha, não acha?" O olhar que ela me deu era puro veneno.
"Fabiana, isso não é uma boa ideia", eu disse, minha voz tremendo. "Caio, você sabe que eu não posso-"
"Ela está tentando fazer as pazes, Elisa", interrompeu Caio, seu tom afiado de irritação. "O mínimo que você pode fazer é aceitar o pedido de desculpas dela."
"Não é um pedido de desculpas, é uma sentença de morte!", gritei, o desespero arranhando minha garganta. "Eu sou alérgica, Caio! Perigosamente alérgica!"
Fabiana olhou para ele com olhos grandes e inocentes. "Alérgica? Oh, eu não tinha ideia. Ela está dizendo a verdade?"
A expressão de Caio era indecifrável. "É uma sensibilidade leve. Ela está sendo dramática." Ele se virou para mim, sua voz baixando para um comando baixo. "Você vai se sentar com a Fabiana, e você vai comer o bolo que ela te oferecer. Vamos pôr um fim a essa briga ridícula esta noite."
"Não", eu disse, recuando. "Você não pode me obrigar."
Ele deu um passo em minha direção, seu rosto uma nuvem de tempestade. "Eu posso e vou." Ele agarrou meu braço, seu aperto como um torno. "Não me faça te forçar, Elisa."
"Eu não vou fazer isso!", gritei, tentando me afastar.
Sua paciência se esgotou. Com um rugido gutural de frustração, ele torceu meu braço atrás das minhas costas e me empurrou em direção à mesa de jantar. Dois seguranças apareceram como que do nada, me segurando em uma cadeira.
Alguns minutos depois, um prato foi colocado diante de mim. Nele, um delicado bolo de amêndoa, seu cheiro doce e enjoativo enchendo o ar, um cheiro que para mim era o cheiro da morte. Fabiana sentou-se à minha frente, um sorriso triunfante no rosto.
Caio ficou atrás de mim. "Coma", ele ordenou.
Lágrimas escorriam pelo meu rosto. "Por favor, Caio. Não faça isso."
Ele pegou um garfo, pegou um pedaço do bolo e o levou aos meus lábios. "Abra a boca."
Fechei a mandíbula com força, balançando a cabeça freneticamente. Ele praguejou baixinho e sinalizou para um dos guardas. O homem apertou meu nariz, forçando minha boca a se abrir para respirar. Naquele instante, Caio enfiou o bolo dentro.
Eu engasguei, gaguejei, tentando cuspir, mas ele apertou uma mão sobre minha boca, forçando-me a engolir.
A reação foi imediata e violenta. Minha garganta começou a fechar, o ar se transformando em fogo em meus pulmões. Minha pele irrompeu em urticárias vermelhas e raivosas. Arranhei meu pescoço, desesperada por ar, minha visão começando a embaçar nas bordas.
Através do rugido em meus ouvidos, eu podia ouvir a risada leve e tilintante de Fabiana. "Oh, céus", ela disse, fingindo preocupação. "Talvez ela não estivesse exagerando, afinal."
A última coisa que vi antes de desmaiar foi Caio, parado sobre mim, seu rosto não de preocupação ou pânico, mas de observação fria e clínica. Ele tinha um telefone no ouvido. "Sim, Dr. Evans. Parece que temos uma reação alérgica. Pode subir agora."
Ele havia planejado. Ele tinha o médico de prontidão. Ele queria ver por si mesmo. Ele queria provar um ponto.
E naquele momento, eu soube. Seu amor não havia apenas morrido. Havia se transformado em algo monstruoso.