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Das Cinzas: O Retorno da Esposa Indesejada
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Capítulo 6

Ponto de Vista de Elisa Guimarães:

As palavras pairaram no ar, tão absurdas, tão completamente insanas, que por um momento pensei ter ouvido mal. "O quê?", sussurrei, minha mente se recusando a processar o comando.

"Eles estão vigiando a entrada da frente", disse Caio, sua voz um silvo baixo e urgente. Ele não olhou para mim, seus olhos estavam fixos em Fabiana, que choramingava no chão. "Eles verão o carro sair. Vão pensar que é a Fabiana tentando fugir. Isso me dará tempo para tirá-la pela saída de serviço e organizar a transferência."

Meu sangue gelou. "Eles vão me seguir, Caio! Aqueles homens... eles vão me matar!"

"Eles não vão te matar", ele disse com desdém, como se estivesse espantando uma mosca. "Eles só vão te segurar. Eu os pagarei. Vai ficar tudo bem."

Fabiana soltou um gemido suave e dolorido do chão, uma peça de teatro perfeitamente cronometrada. O rosto de Caio endureceu, sua decisão tomada.

O som de um dos capangas engatilhando a arma ecoou na sala silenciosa. "O tempo está correndo, Sampaio."

"Vá, Elisa. Agora", ordenou Caio, sua voz como o estalo de um chicote. Ele pegou um casaco do armário - o casaco de Fabiana - e o jogou em mim. "Vista isso. E o cachecol dela. Cubra seu cabelo."

Ele estava me vestindo como ela. Um alvo em movimento nas roupas de outra mulher.

"Caio, por favor", implorei, meu corpo tremendo incontrolavelmente.

Ele caminhou até mim, suas mãos agarrando meus ombros, seu rosto a centímetros do meu. "Você vai fazer isso", ele rosnou, seus olhos queimando com uma intensidade aterrorizante. "Você vai fazer isso por ela."

Ele me empurrou em direção à porta. "Vá!"

Meu corpo se moveu no piloto automático. Entorpecida, enrolei o cachecol de Fabiana na cabeça e vesti seu casaco, o cheiro de seu perfume uma nuvem sufocante. Peguei as chaves e corri, meu coração martelando contra minhas costelas.

Eu nem consegui sair da garagem subterrânea. No momento em que o motor da Bentley rugiu, um SUV preto cantou pneu na minha frente, bloqueando minha saída. Dois homens saltaram, armas em punho.

Eles me arrastaram para fora do carro, suas mãos ásperas e machucando.

"Olha só o que temos aqui", um deles zombou, arrancando o cachecol da minha cabeça. "Não é a vadia da Valente." Ele falou no rádio com seu chefe. "Pegamos a esposa. O Sampaio está de joguinho."

Eu podia ouvir a resposta metálica pelo rádio. As palavras eram uma sentença de morte. "Ele quer jogar? Beleza. Leva ela. Ele tem uma hora pra dobrar o preço. E a cada minuto de atraso, ela paga."

Eles me jogaram na parte de trás do SUV. Tive um vislumbre da janela da cobertura lá no alto. Uma luz estava acesa. Imaginei Caio lá dentro, abraçando uma Fabiana aterrorizada, sussurrando que tudo ficaria bem, que ele a protegeria. E eu era o preço dessa proteção.

Os homens que me levaram não eram profissionais. Eram bandidos, cruéis e voláteis. Eles me levaram para um armazém abandonado nas docas, o ar denso com o cheiro de sal e podridão. Amarraram-me a uma cadeira.

O líder, um homem com uma cicatriz irregular na bochecha, ligou para Caio. "Sua hora acabou, Sampaio. O preço dobrou." Ele riu, um som áspero e irritante. "Sua esposa é uma gracinha. Seria uma pena se algo acontecesse com ela."

Ele segurou o telefone para que eu pudesse ouvir a resposta de Caio. "Pague eles", disse a voz de Caio, tensa de frustração. "Só me dê um pouco mais de tempo para arranjar a transferência."

Tempo. Ele precisava de mais tempo. Enquanto eu estava sentada ali, aterrorizada, ele estava negociando.

As horas se arrastaram. Meus captores ficaram impacientes. Eles beberam, seus humores ficando piores a cada garrafa vazia. Seus olhos começaram a se demorar em mim, um brilho predatório entrando em suas expressões.

"Talvez a gente devesse dar um... incentivo pro namoradinho dela", um deles arrastou as palavras, caminhando em minha direção.

"Não", sussurrei, encolhendo-me na cadeira. "Por favor, não." Olhei para o líder, meus olhos suplicantes. "Ele vai pagar vocês! Apenas esperem!"

Mas o líder apenas deu de ombros, tomando outro longo gole de seu frasco. As mãos do homem estavam em mim, rasgando a gola do casaco de Fabiana.

Eu gritei, um grito desesperado e sem esperança. "Caio! Caio, me ajude!"

Meus gritos foram respondidos apenas pela risada zombeteira dos meus captores. Um deles levantou o celular, mostrando-me uma transmissão de notícias ao vivo. Era um repórter local, em frente à Torre Sampaio.

"Estamos recebendo relatos não confirmados", disse o repórter, "de que Caio Sampaio resgatou com sucesso sua companheira, Fabiana Valente, de uma situação de refém. Ele é visto aqui confortando uma Sra. Valente abalada, um verdadeiro herói em uma provação aterrorizante."

A tela mostrava Caio, seu braço firmemente enrolado em Fabiana enquanto a conduzia para uma ambulância que esperava. Ele estava beijando sua testa, seu rosto uma máscara de profundo alívio e amor. Ele não estava apenas organizando a transferência. Ele estava encenando uma coletiva de imprensa. Ele estava construindo sua narrativa de herói enquanto eu era servida a esses animais.

A esperança, a última brasa bruxuleante em minha alma, se extinguiu. Fiquei entorpecida. Parei de lutar. Fechei os olhos e deixei a escuridão me reivindicar, minha mente se desprendendo dos horrores que meu corpo estava prestes a suportar.

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