Um dos seguranças de nível inferior de Caio me encontrou. Ele não correu para ajudar. Ficou a alguns metros de distância, seu rosto uma máscara de nojo indisfarçado, como se eu fosse algo impuro. Ele falou em seu comunicador de pulso, sua voz seca. "Eu a encontrei. Ela foi... abusada."
Abusada. Não machucada. Não traumatizada. Abusada. Como um negócio que deu errado.
Caio chegou. Ele não estava sozinho. Fabiana estava com ele, agarrada ao seu braço, seus olhos arregalados com uma espécie de horror mórbido e teatral. Ela usava uma de suas camisas brancas impecáveis, um sinal claro de sua recém-descoberta intimidade.
Ele olhou para mim uma vez - minhas roupas rasgadas, os hematomas florescendo na minha pele, o olhar vago em meus olhos - e o mais leve lampejo de pena em sua expressão foi instantaneamente substituído por repulsa. O mesmo nojo que eu tinha visto no rosto de seu funcionário. Eu estava suja. Eu estava estragada. Eu tinha sido tocada por outros homens, e em sua mente possessiva e distorcida, isso me tornava inútil.
"Levantem-na", ele ordenou a seus homens. "Levem-na de volta para a cobertura. Limpem-na."
Ele não me tocou. Ele nem mesmo falou comigo. Ele virou as costas e levou Fabiana embora, seu braço um escudo protetor ao redor dela, sussurrando garantias de que a visão feia havia acabado.
De volta à cobertura, fiquei sob o jato escaldante do chuveiro por mais de uma hora, esfregando minha pele até ficar em carne viva, tentando lavar a sujeira, a memória, a sensação de suas mãos. Mas era inútil. As manchas estavam por dentro.
Quando saí, enrolada em um roupão, Caio estava esperando no meu quarto. O quarto havia sido arrumado, mas a violação pairava no ar.
"Isso é uma bagunça, Elisa", ele disse, sua voz fria e acusadora. Ele andava pelo quarto, passando a mão por seus cabelos perfeitos. "A mídia vai fazer a festa com isso."
Eu o encarei, minha voz uma coisa morta. "Eu fui estuprada, Caio."
Ele recuou, a própria palavra uma ofensa às suas delicadas sensibilidades. "Não seja tão grosseira", ele retrucou. "O que está feito é culpa sua! Se você não tivesse sido tão difícil, tão dramática... A situação nunca teria escalado. Fabiana estava apavorada!"
A pura e estonteante injustiça de suas palavras finalmente rompeu meu choque. Uma raiva vulcânica, quente e purificadora, irrompeu do âmago do meu ser.
"Culpa minha?", gritei, minha voz crua. "Você me jogou aos lobos, Caio! Você me vestiu como sua prostituta e me serviu em uma bandeja para salvá-la! Você me deixou lá para ser despedaçada enquanto posava para as câmeras, bancando o herói!"
Um lampejo de culpa, de vergonha, cruzou seu rosto. Ele sabia que era verdade. "Isso não é-"
"Não minta!", gritei, avançando sobre ele, meu luto e fúria me tornando destemida. "Você me enoja. Você fica aí em seu terno de milhares de reais, com sua reputação de filantropo, fingindo ser um santo, mas você é um monstro. Você é a criatura mais vil e hipócrita que já tive o desprazer de conhecer. Você e sua preciosa Fabiana se merecem. Vocês são dois lados da mesma moeda sem valor."
Ele me encarou, pela primeira vez, parecendo verdadeiramente abalado. Ele nunca tinha visto esse meu lado. A consultora se fora. A esposa amorosa estava morta. Tudo o que restava era uma mulher sem nada a perder.
Ele se virou e fugiu do quarto, incapaz de encarar a verdade que eu havia jogado na cara dele.
Voltei para o banheiro e liguei o chuveiro novamente. Mas desta vez, eu não estava tentando lavar nada. Eu estava realizando um batismo. Metodicamente, peguei cada frasco de xampu, cada condicionador, cada creme e loção caros que ele já havia comprado para mim e os esvaziei pelo ralo. Peguei as toalhas felpudas, o roupão de seda, tudo que carregava seu cheiro, seu toque, sua memória, e joguei na banheira transbordando.
Enquanto a água girava, levando os últimos vestígios da minha antiga vida embora, senti uma estranha sensação de paz. O amor se fora. A esperança se fora. Mas em seu lugar, algo novo estava crescendo. Uma certeza fria e dura. Eu estava finalmente, irrevogavelmente, livre dele.