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Capítulo 2

André, o consultor corporativo. Ele viajava a trabalho, "aconselhando grandes empresas", embora eu nunca entendesse bem os detalhes. Ele sempre trazia presentes atenciosos, pequenas lembranças de suas viagens, me fazendo sentir querida. Ele ganhava bem, ou pelo menos dava a entender, mas eu, Karina, uma escritora de romances que trabalhava de casa, acabava cobrindo a maior parte das nossas despesas compartilhadas. Meus livros estavam vendendo bem, me dando uma renda confortável e a liberdade de escrever do meu escritório ensolarado.

Minha vida era simples, pacífica, cheia de palavras e da companhia silenciosa da minha gata, Luna.

E o Arthur. O "irmãozinho" do André. Um pacote de energia e travessuras de sete anos, que morava conosco há dois anos. O André explicou que os pais do Arthur tinham falecido e ele, como irmão mais velho, estava assumindo a responsabilidade. Eu abracei o papel, tornando-me a principal cuidadora do Arthur, comprando suas roupas, fazendo seus lanches, ajudando com a lição de casa. Eu o amava, apesar de seu mau humor ocasional e sua tendência a testar minha paciência.

Encerrei a chamada de vídeo com o André, um sorriso bobo estampado no rosto. A "surpresa" que ele insinuou ainda zumbia na minha mente. Cantarolei uma melodia enquanto entrava na cozinha, Luna se enroscando nos meus tornozelos. Hora de começar o jantar. O Arthur chegaria logo.

Eu estava cortando legumes quando a porta da frente se abriu com estrondo. "Karina! Cheguei!" Arthur, com a mochila pendurada de qualquer jeito em um ombro, jogou-a perto da porta, deixando um rastro de sapatos largados e uma bola de futebol suja de lama pelo caminho.

"Arthur, querido, suas coisas", chamei, mas ele já estava na metade do caminho para a geladeira, vasculhando por um lanche. Suspirei, um cansaço familiar se instalando sobre mim. Alguns dias, parecia que eu estava criando um adolescente, não uma criança de sete anos.

Abaixei-me para pegar a mochila dele, com a intenção de pendurá-la no gancho. Uma foto pequena e amassada escorregou para fora. Peguei-a, franzindo a testa. Era uma foto antiga, desbotada nas bordas. O André, parecendo mais jovem, com uma mulher. Ela era linda, com olhos verdes marcantes e uma cascata de cabelos escuros. E ao lado dela, um bebê. Arthur. Mas um Arthur muito mais jovem.

Meu coração martelou contra as costelas. A mulher na foto... os olhos dela, o nariz, o sorriso largo. Eram os olhos do Arthur, o nariz do Arthur, o sorriso do Arthur. A semelhança era assustadora. Mais do que isso, ela parecia uma versão adulta do Arthur. Não o André.

Uma onda de náusea me invadiu. O "irmãozinho" do André? Essa mulher parecia a mãe dele.

Encarei a foto, minha mente acelerada. O André sempre disse que os pais do Arthur tinham morrido. Ele nunca mencionou uma ex-namorada, especialmente uma que se parecesse tanto com o Arthur.

Antes que eu pudesse processar, ouvi a voz do Arthur vindo do quarto dele, abafada, mas clara. Ele estava segurando o celular, falando com alguém.

"Mamãe Angélica, quando você volta? Tô com saudade. A Karina me obriga a comer brócolis toda noite."

Meu sangue gelou. Mamãe Angélica. O nome se encaixou com o rosto na foto. Angélica Mcfarland. A ex do André. Aquela que ele nunca mencionava. Ele disse que ela tinha "voltado da Europa" recentemente, mas a dispensou como uma "conhecida casual" da faculdade.

Arthur continuou falando, a voz num tom de choro infantil. "A Karina é tão chata. Ela disse que não posso jogar videogame até terminar a lição de casa. Você é muito mais legal, Mamãe Angélica."

Uma dor aguda e lancinante atravessou meu peito. Por dois anos, eu tinha derramado meu coração e alma para criar essa criança. Eu tinha sacrificado meu tempo, minha energia, meu dinheiro. Eu o amava, apesar dos momentos difíceis. E ele estava dizendo a essa 'Mamãe Angélica' que eu era chata? E o André tinha me deixado acreditar que o Arthur era irmão dele, não filho dele com essa mulher? A mulher que claramente ainda estava na vida dele, ainda falando com o Arthur.

Arthur. Filho do André. Não irmão. A mentira. A mentira incrível e gigantesca que tinha tomado conta de toda a minha vida. Minha cabeça girou.

Apertei a foto, meus dedos brancos de tanta força. Minha mão tremia tanto que quase a deixei cair. O jantar que eu estava fazendo, aquele que planejei com tanto cuidado, foi esquecido. O cheiro de alho queimado encheu a cozinha. Pisquei, lágrimas ardendo nos meus olhos. Meu mundo perfeito, meu namorado perfeito, minha vida feliz - tudo estava virando fumaça, assim como o jantar no fogão.

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