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Capítulo 4

A mentira era um peso físico, pressionando-me para baixo, dificultando a respiração. Entrei em casa, meus olhos fixos no local onde eu tinha encontrado a foto do Arthur. Minha mente corria, tentando encontrar alguma prova tangível, algo mais.

Entrei no escritório do André, um cômodo que ele raramente usava, preferindo "trabalhar" do sofá. A mesa dele geralmente estava imaculada, mas hoje, uma caixa pequena e empoeirada estava escondida em um canto. Parecia uma caixa de lembranças. Meu coração martelou.

Abri, meus dedos tremendo. Dentro, cartas antigas, ingressos de shows e, bem no fundo, uma pilha de fotos. Polaroids de anos atrás. André, mais jovem, despreocupado. E lá estava ela de novo. Angélica. Em quase todas. Rindo com ele em uma praia, a cabeça aninhada no ombro dele. Beijando-o apaixonadamente sob uma cachoeira. Uma foto, em particular, fez meu estômago contrair: André de joelhos, segurando um anel simples de margarida, um olhar de pura adoração no rosto enquanto olhava para uma Angélica radiante.

Essa não era apenas uma ex-namorada. Essa era a ex. Aquela que ele amava. Aquela que ele nunca esqueceu. Aquela que ele mantinha escondida.

Nesse momento, meu celular vibrou na minha mão. André. Uma mensagem de texto. "Com saudade, amor. Contando as horas pra chegar em casa. Mal posso esperar pela nossa surpresa. Você vai amar."

As palavras, antes um conforto, agora pareciam um dardo envenenado. Ele estava com saudade de mim? Ele estava contando as horas? Enquanto planejava uma vida com outra mulher, usando meu dinheiro para comprar um anel para ela, e me fazendo criar o filho deles? A hipocrisia tinha um gosto amargo na minha boca.

Respirei fundo, trêmula, e liguei para a Bia. Minha voz estava surpreendentemente firme enquanto eu relatava as novas informações - as fotos, as mensagens explícitas, o depósito na joalheria.

"Ele está no Grand Hyatt no centro", disse Bia, a voz calma e eficiente. "Quarto 1403. Nossa rede acabou de confirmar. E adivinha? Angélica Mcfarland fez check-in ontem. Mesmo quarto."

O último pingo de esperança, de negação, se extinguiu. Não era um mal-entendido. Não era um erro. Era real.

"Eu vou lá", declarei, minha voz plana.

"Karina, não", alertou Bia. "Você precisa ser inteligente. Não deixe eles te manipularem de novo."

"Eu preciso ver", disse eu, desligando a chamada antes que ela pudesse argumentar mais.

O trajeto foi um borrão. Minhas mãos agarravam o volante, os nós dos dedos bratos. O Grand Hyatt, um símbolo de luxo e casos clandestinos. Meu destino.

Entrei no saguão, um fantasma entre os clientes bem vestidos. Meus olhos escanearam a área. Perto da grande fonte ornamentada, sob um dossel de luzes de fada, estava o André. E a Angélica.

Ele estava de joelhos. Não com uma margarida simples, mas com um anel de diamante cintilante. Aquele do depósito de quarenta mil reais. Ele o colocou no dedo da Angélica. Ela gritou de alegria, depois jogou os braços ao redor dele, beijando-o profundamente. Um pequeno grupo de pessoas, amigos do André, aplaudiu e comemorou. Um fotógrafo tirava fotos. Era uma cena perfeita e romântica. Um pedido de casamento. Para ela.

Um grito gutural escapou da minha garganta. Toda a dor, toda a traição, todos os anos de confiança cega - tudo rasgou através de mim. Eu não me importava em ser inteligente. Eu não me importava em reunir mais provas. Eu me importava com a agonia ardente no meu peito.

Avancei, minhas pernas se movendo sozinhas. "ANDRÉ!"

A cabeça dele se levantou num estalo. Os olhos dele, geralmente tão compostos, se arregalaram em puro terror. Angélica se afastou, o sorriso congelando no rosto.

"Karina!", gaguejou André, lutando para ficar de pé. Ele parecia um cervo pego pelos faróis, a caixa do anel ainda na mão.

"O que é isso?", minha voz tremeu, mal um sussurro. "O que você está fazendo?"

Angélica, rápida como uma víbora, deu um passo à frente. "Karina! Meu Deus, você está aqui! Que timing incrível!" A voz dela era borbulhante, falsamente alegre. "É tudo uma surpresa para o seu aniversário! O André estava apenas... ensaiando!"

Ensaiando. A palavra me estapeou. O aviso da Bia. As palavras da Angélica no shopping.

"Ele só estava garantindo que o anel servia", continuou Angélica, puxando a mão da do André. "Viu? Fica grande em mim. Ele queria ter certeza de que seria perfeito para você, Karina. Você é tão sortuda!" Ela levantou a mão e, de fato, o anel estava largo, deslizando facilmente no dedo fino dela. Ela sorriu, um sorriso triunfante e repugnante.

André, recuperando a compostura, correu para o meu lado. "Amor, eu te disse que tinha uma surpresa! Era isso! Eu queria que tudo fosse perfeito para o seu aniversário. A Angélica só estava me ajudando, modelando o anel já que ela tem mãos tão delicadas. Eu só estava garantindo que ficaria bom em você, meu amor." Ele pegou minha mão, deslizando o anel no meu dedo. Serviu perfeitamente. "É para você, Karina. Porque eu te amo. Você quer casar comigo?"

Minha mente girou. O anel, o tamanho, a atuação inocente da Angélica, os olhos sinceros do André. Era verdade? Eu tinha entendido tudo errado de novo? Minha paranoia tinha levado a melhor? A vergonha me invadiu, quente e ardente. Eu o tinha acusado publicamente, criado uma cena.

"Ah, André", sussurrei, lágrimas embaçando minha visão. "Me desculpa. Eu... eu pensei..."

"Shiii", ele acariciou meu cabelo. "Está tudo bem, meu amor. Eu sei que você tem estado sob muito estresse. Mas é tudo para você. Isso é só uma prévia. O pedido real, o grande, vai ser no seu aniversário. A recepção vai ser lá em casa. Apenas espere."

Olhei para ele, depois para a Angélica, que agora sorria docemente para mim. Minha suspeita guerreava com minha necessidade desesperada de acreditar nele. Ele estava me pedindo em casamento. Com o meu dinheiro, pensei amargamente. Mas ainda assim, ele estava pedindo.

"Sim", engasguei, um soluço escapando dos meus lábios. "Sim, André, eu caso com você."

Ele me puxou para um abraço apertado, beijando meu cabelo. Por cima do ombro dele, vi a Angélica me dar um olhar de pena, um sorrisinho minúsculo, quase imperceptível, brincando nos lábios dela. Mas eu descartei. Era demais. Eu tinha que acreditar nele. Eu queria acreditar nele. Ele ia fazer o pedido. De verdade. Meu aniversário. Nosso futuro. Tudo ficaria bem. Tinha que ficar.

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