3 Capítulo
Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

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"Karina! Meu jantar tá queimando!" A voz estridente do Arthur cortou a névoa dos meus pensamentos. Dei um pulo, a foto da Angélica e do Arthur ainda apertada na minha mão.
"Tá tudo bem, Arthur, só me distraí um pouco", murmurei, correndo para desligar o fogão. A cozinha estava impregnada com o cheiro acre de alho e legumes carbonizados.
Ele entrou na cozinha batendo o pé, o nariz enrugado. "Eca, que cheiro é esse? Você não sabe nem cozinhar direito?"
Minha paciência, já desgastada, arrebentou. "Arthur, estou um pouco ocupada agora. Vá para o seu quarto."
Ele me fuzilou com o olhar, depois saiu pisando duro, resmungando algo sobre a "Mamãe Angélica" ser uma cozinheira melhor. As palavras dele, inocentes como eram, giraram a faca no meu estômago.
Fiquei ali, a comida queimada fumegando no fogão, a foto queimando um buraco na minha mão. Minha cabeça latejava. Eu precisava de ar. Precisava pensar.
Peguei minhas chaves, joguei uma jaqueta por cima e saí, deixando o caos da cozinha para trás. Luna miou de forma lamentosa, mas eu não podia parar. Apenas andei, sem rumo no início, depois deliberadamente em direção ao parque silencioso a alguns quarteirões de distância.
Sentei em um banco frio, puxando meu celular. O TikTok da Bia Shannon. A thread "Caça-Traidores". Rolei pelos comentários na foto do André.
"O reflexo tá tão claro agora!"
"Olha aquelas bolsas, amiga! Ele com certeza não tá sozinho."
"A 'viagem de negócios' é um clássico. Aposto que ela vai ganhar uma 'surpresa' também!"
As palavras delas, antes descartadas como fofoca de internet, agora ressoavam com uma verdade arrepiante. André, o charmoso e devoto André, era um mentiroso. E não apenas sobre um caso casual. Ele tinha construído uma vida inteira sobre uma fundação de mentiras, me fazendo criar o filho dele com a ex-namorada.
Meus pés, quase subconscientemente, me levaram em direção ao distrito corporativo, para o arranha-céu espelhado onde o André supostamente trabalhava. O pensamento de confrontá-lo, de expor suas mentiras, era um remédio amargo que eu sabia que tinha que engolir.
Ao me aproximar do prédio, vi um rosto familiar emergir do saguão. Marcos. Colega do André. Meu coração saltou para a garganta.
"Karina?" Os olhos do Marcos se arregalaram de surpresa. "O que você tá fazendo aqui? Achei que o André estava viajando a trabalho."
Um suor frio brotou na minha testa. "Ah, eu só... estava por perto, pensei em fazer uma surpresa pra ele no almoço. Sabe, já que ele voltou da viagem." A mentira tinha gosto de cinzas na minha boca.
Marcos soltou um riso cínico pelo nariz. "Voltou da viagem? O André não viaja há semanas. Ele tem trabalhado 'remotamente' - o que, pra ele, geralmente significa trabalhar de casa, ou melhor, não trabalhar nada. O chefe tá furioso. Ele mal tem aparecido por aqui."
Minha respiração travou. "Mas... ele me disse que estava viajando. Para o Rio."
Marcos deu de ombros, um sorriso malicioso brincando nos lábios. "Rio? Mais para 'Rio de Traição', né?" Ele piscou. "Ele tem andado por aí, só não aqui. E definitivamente não sozinho. Vi ele outro dia, todo íntimo com uma mulher num restaurante chique no centro. Parecia bem sério."
O chão pareceu inclinar sob meus pés. O André não estava viajando. Ele não estava trabalhando. Ele estava com a Angélica. Minha mente voltou para a foto do hotel, as bolsas de luxo. As peças estavam se encaixando, formando um mosaico horrível de traição.
Murmurei um adeus rápido para o Marcos, minha cabeça girando. Eu tinha que sair dali. Andei sem rumo novamente, acabando em um shopping de luxo. Meus olhos passavam pelas vitrines brilhantes, mas minha mente estava presa em uma coisa: dinheiro. Nosso cartão de crédito compartilhado. Aquele que eu pagava a maior parte.
Uma ideia, fria e afiada, perfurou meu desespero. Eu precisava ver as transações. Não apenas da viagem, mas tudo. Ele estava gastando meu dinheiro com ela?
Encontrei uma cafeteria tranquila, minhas mãos tremendo enquanto puxava meu notebook. Loguei na nossa conta bancária conjunta. O extrato online carregou, uma página branca e dura que continha a verdade.
Meus olhos escanearam a atividade recente. Meu coração batia mais forte a cada linha. Restaurantes caros. Tratamentos de spa. Um fim de semana em um resort de luxo - não aquele da foto, mas outro, tão caro quanto. E então, o número que me atingiu como um soco físico: "R$ 40.000,00. Entrada Anel de Diamante. Joalheria Exclusive."
Quarenta mil reais. Uma entrada. Para um anel de diamante. O André nunca tinha me comprado nada tão caro. Ele sempre dizia que precisávamos economizar.
Meu sangue gelou. A "surpresa" que ele mencionou. O "ensaio de pedido de casamento" que a Bia insinuou. Era tudo para a Angélica. Tinha que ser.
Fechei meu notebook, a tela refletindo meu rosto distorcido. O feed do TikTok piscou na minha mente de novo, a voz calma e analítica da Bia. Reúna informações. Eu tinha reunido informações. E era pior do que eu poderia ter imaginado. Muito, muito pior.
Senti um grito se formando na minha garganta, um som primitivo de agonia e raiva. Mas eu o engoli. Saí do shopping, as luzes brilhantes agora parecendo uma zombaria cruel. Eu tinha que ir para casa. Eu tinha que fingir. O jogo tinha apenas começado. E eu ia jogar para ganhar.