Dante entrou. O cheiro de uísque envelhecido e colônia cara de sândalo o precedeu - uma mistura intoxicante e sufocante.
Ele parecia cansado. Círculos escuros manchavam a pele sob seus olhos, falando de noites sem dormir.
Ele caminhou até a penteadeira onde eu estava sentada. Colocou uma caixa de veludo na superfície de mármore.
"Abra", disse ele.
Eu não me movi.
Ele suspirou, um som de impaciência pesada, e abriu ele mesmo. Dentro, havia um diamante rosa do tamanho de um ovo de codorna. Era impecável. Uma pedra fria e brilhante que valia milhões.
"Pelo aniversário", disse ele. "E... pela mão."
Olhei para o anel. Depois olhei para ele.
"Você acha que pode comprar perdão com uma pedra?"
"Não estou comprando perdão", disse ele, afrouxando a gravata com um puxão brusco. "Estou te lembrando do seu lugar. Você é minha esposa. Você é uma Moretti. Nós não agimos como selvagens em restaurantes."
"Você atirou em mim."
"Eu te impedi de cometer um erro do qual você não poderia voltar atrás", disse ele calmamente. "Sofia é da família."
"Sofia é um parasita."
Abri a gaveta da penteadeira. Tirei um envelope grosso e o joguei sobre a caixa do anel com um baque surdo.
"O que é isso?", ele perguntou.
"Papéis de separação", eu disse. "Sei que não podemos nos divorciar. A Igreja, a Comissão... eu conheço as regras. Mas quero uma separação. Quero morar na casa do lago. Sozinha."
Dante encarou os papéis. Seu rosto escureceu, sombras se estendendo por suas feições.
Ele pegou o envelope e o rasgou ao meio. O som foi violento na sala silenciosa. Então ele rasgou as metades novamente. Deixou os restos picotados flutuarem até o chão como confetes trágicos.
"Não", disse ele.
"Não estou pedindo, Dante."
Ele agarrou meu rosto, seus dedos cravando em minha mandíbula com uma força que machucava. Ele me forçou a olhá-lo.
"Você não pode ir embora. Você me pertence. Eu te reivindiquei. Eu matei por você. Você é minha até estar debaixo da terra."
"Eu já estou debaixo da terra", eu disse, minha voz oca. "Você me enterrou no dia em que a trouxe para casa."
Ele me soltou, enojado. Virou-se e caminhou até a porta.
Ele parou para falar com o Capo posicionado do lado de fora. Não fechou a porta completamente. Deixou-a entreaberta, apenas o suficiente.
Ele queria que eu ouvisse.
"Ela está se acalmando, Chefe?", perguntou o Capo.
"Ela é difícil", disse Dante, sua voz baixa, mas audível. "Ela é afiada. Afiada demais. Vê ameaças onde não existem."
"Talvez ela esteja certa sobre a garota", arriscou o Capo.
"Sofia?", Dante riu. Foi um som cruel e seco. "Sofia é pura. É inocente. Ela me lembra que nem tudo neste mundo está coberto de sujeira."
Ele fez uma pausa, e eu pude sentir suas palavras pairando no ar.
"Elena... Elena é forte. Ela aguenta o tranco. Ela sobreviveu a coisas piores que um arranhão na mão. Mas Sofia? Sofia se despedaçaria."
Deslizei do banco da penteadeira e sentei no chão, cercada pelo papel rasgado.
*Ela aguenta o tranco.*
Era isso. Essa era a verdade do nosso casamento.
Ele não me protegia porque achava que eu não precisava. Ele achava que eu já estava quebrada, então mais algumas rachaduras não importariam. Ele achava que, por eu ter sobrevivido à jaula, eu poderia sobreviver à sua crueldade.
Ele estava errado.
Eu não ia apenas sobreviver a isso.
Eu ia queimar tudo.