Ele me olhou, a mandíbula se contraindo, mas antes que pudesse falar, o perfil elegante de uma limusine preta cortou a penumbra industrial.
Meu estômago revirou.
Sofia saiu. Ela era uma visão do absurdo em saltos altos demais para o pavimento irregular e um trench coat branco que gritava por atenção contra a sujeira do porto.
"Eu queria ver você trabalhar", ela arrulhou, abrindo caminho até nós. Ela passou o braço pelo de Dante, marcando seu território bem na minha frente.
Dante pareceu irritado, mas não a afastou. "É perigoso aqui, Sofia. Você deveria ter ficado na mansão."
"Mas estou segura com você", disse ela, olhando para ele com uma adoração ampla e fabricada.
Olhei para Enzo, que estava perto do carro. Ele me deu um aceno quase imperceptível.
Era a hora.
Pneus cantaram no concreto enquanto três SUVs viravam a esquina, nos encurralando.
Homens saíram como óleo, fuzis AK-47 erguidos. Eles usavam as tatuagens distintas da Bratva.
"Emboscada!", rugiu Dante, empurrando Sofia para trás dele.
Seus homens sacaram suas armas, mas as chances eram fatais. Os russos tinham a vantagem nos contêineres.
Nikolai Volkov saiu do veículo da frente. Ele era uma montanha de homem, seu rosto um mapa de cicatrizes e malícia.
"Dante Moretti", bradou Nikolai. "Você construiu um belo reino aqui."
"Volkov", rosnou Dante. "Você está violando a trégua."
"A trégua é chata." Nikolai sinalizou para seus homens.
Dois mercenários avançaram. No caos, mãos me agarraram. Mãos ásperas e que machucavam. Outros dois agarraram Sofia.
Dante ergueu sua arma, mas congelou. Ele tinha dois alvos para salvar e apenas uma linha de fogo.
Nikolai riu. Ele se aproximou e pressionou o aço frio de seu cano contra minha têmpora. Um de seus soldados segurava uma faca serrilhada na garganta de Sofia.
"Vamos jogar um jogo, Ceifador", disse Nikolai. "Estou me sentindo generoso. Vou deixar uma ir. Você escolhe."
O silêncio na doca era absoluto, quebrado apenas pelo som da água escura batendo nos pilares.
"Não faça isso", disse Dante, sua voz tensa.
"Escolha!", gritou Nikolai. "A Rainha ou a Protegida? A esposa ou o caso de caridade? Você tem cinco segundos."
Sofia começou a gritar. "Dante! Por favor! Ele vai me cortar! Dante!"
Eu não fiz nenhum som. Apenas olhei para meu marido.
Olhei para o homem que prometeu queimar o mundo por mim. Olhei para o homem que me submeteu a afogamento simulado três dias atrás porque ousei perturbar a garota que agora gritava seu nome.
"Três", contou Nikolai. "Dois."
Os olhos de Dante saltavam entre nós. Ele olhou para mim e viu minha calma. Ele viu o aço que ele mesmo forjou. Então ele olhou para Sofia, soluçando e tremendo, frágil como vidro fiado.
Ele fez o cálculo. Ele sempre fazia o cálculo.
*Elena pode sobreviver. Elena é forte. Posso recuperá-la mais tarde. Sofia morre agora.*
"Deixe a garota ir", disse Dante.
As palavras pairaram no ar úmido como uma sentença de morte.
Nikolai sorriu. Ele empurrou Sofia em direção a Dante. Ela se arrastou pelo pavimento, jogando-se nos braços de Dante.
Dante a pegou, mas seus olhos estavam fixos em mim.
"Eu vou te buscar", ele articulou sem som.
"Não", sussurrei. "Você não vai."
Nikolai puxou o gatilho.
O impacto foi uma marretada no meu peito. Deixei o impulso me levar.
Caí para trás, da beira do mundo.
A água fria e escura me engoliu por inteiro.