Dante olhou para a faca. Então, lentamente, ele ergueu o olhar para mim.
Não havia dúvida em seus olhos. Nenhuma hesitação. Nenhuma busca pela verdade. Apenas ódio puro e absoluto.
"Peguem-na", ele latiu para seus guardas.
Dois homens agarraram meus braços antes que eu pudesse sequer respirar. Eu não lutei. O veredito já estava escrito em seu rosto.
"Dante, ela fez isso sozinha", eu disse, minha voz tremendo apesar de meus melhores esforços. "Por favor, apenas olhe o ângulo-"
"Silêncio!", ele rugiu.
Ele se ajoelhou ao lado de Sofia, pressionando seu lenço de linho fino na ferida. "Chamem o médico. Agora!"
Uma vez dada a ordem, ele se levantou e caminhou até mim.
O dorso de sua mão atingiu minha bochecha antes que eu pudesse ver.
A força do golpe jogou minha cabeça para trás. A dor explodiu atrás dos meus olhos, e senti o gosto de cobre.
"Eu te avisei", ele rosnou, pairando sobre mim como um deus sombrio. "Eu te avisei que se você a tocasse..."
"Eu não toquei", engasguei, cuspindo sangue nas pedras do terraço.
"Levem-na para o porão", ordenou Dante, virando as costas para mim. "A sala à prova de som."
Os guardas me arrastaram. Meus saltos arranharam inutilmente o chão enquanto eu era jogada na escuridão úmida e fria sob a mansão.
Cheirava a mofo, água parada e medo antigo. No centro da sala havia uma cadeira de metal equipada com pesadas tiras de couro.
Eles me amarraram. Apertado.
Dez minutos depois, Dante entrou.
Ele havia tirado o paletó. Arregaçou as mangas com movimentos precisos e metódicos. Ele não segurava um chicote ou uma faca.
Ele segurava uma simples jarra de plástico com água.
Atrás dele, um guarda carregava uma toalha dobrada.
Meu sangue gelou. Gelo encheu minhas veias.
Ele sabia. Ele conhecia meu pesadelo.
Quando eu estava na jaula, antes de ele me salvar, os traficantes costumavam segurar minha cabeça debaixo d'água em um balde de imundície para me manter quieta. Afogamento era meu terror. Era o que me fazia acordar gritando no meio da noite, agarrando-me ao peito dele por segurança.
"Dante", sussurrei. "Por favor."
"Você precisa aprender", disse ele, sua voz desprovida de emoção, oca. "Você atacou um membro da família. Você quebrou a Omertà. Você precisa ser disciplinada."
"Eu não a toquei!"
Ele acenou para o guarda. O guarda deu um passo à frente e colocou a toalha sobre meu rosto.
A escuridão me engoliu.
"Admita", disse Dante.
"Não."
Ele inclinou a jarra.
A água jorrou.
A toalha encharcou instantaneamente. Agarrou-se ao meu nariz e boca como uma segunda pele sufocante. Tentei inspirar, mas suguei apenas líquido. Meus pulmões se contraíram violentamente.
O pânico foi instantâneo, primitivo. O tempo se dissolveu. Eu estava de volta à jaula. Eu estava me afogando. Eu estava morrendo.
Meu corpo se debatia contra as tiras de couro, forçando as fivelas. Eu não conseguia respirar. Eu não conseguia ver. Havia apenas a escuridão e a água enchendo minha garganta.
Ele parou de derramar.
O guarda arrancou a toalha.
Eu ofeguei, engasgando, tossindo água enquanto meu peito arfava em ritmos desesperados e irregulares. Eu tremia tanto que a cadeira de metal chacoalhava contra o chão de concreto.
"Admita", disse Dante suavemente. "Diga que a machucou porque estava com ciúmes. Peça desculpas."
Olhei para ele através de cílios molhados e ardentes. Meu cabelo estava grudado no crânio. Minha maquiagem escorria em riscos escuros pelo meu rosto. Eu devia parecer patética.
Mas por dentro, algo se fraturou e se remontou em aço.
"Eu...", eu ofeguei.
"Sim?"
"Eu te odeio", murmurei, minha voz rouca e quebrada. "Eu te odeio mais do que jamais te amei."
Os olhos de Dante vacilaram. Por um segundo, uma rachadura apareceu na armadura - ele pareceu magoado. Então a máscara voltou ao lugar, mais dura do que antes.
"De novo", ele ordenou.
A toalha voltou. A água jorrou.
Enquanto eu me afogava na escuridão da minha própria casa, torturada pelo homem que jurou me proteger, fiz uma promessa silenciosa.
Eu não ia deixá-lo.
Eu ia destruí-lo.