Servi outro copo. Minha mão roçou uma pilha de papéis na mesa. Papéis de separação. Aqueles que ela tentou me dar. Aqueles que eu rasguei. Eu os colei de volta na noite passada em um acesso de loucura bêbada, traçando sua assinatura com meu polegar até o papel ficar fino.
A porta rangeu ao se abrir.
Uma silhueta apareceu, contra a luz do corredor.
"Dante?"
Era uma mulher. Ela usava um robe de seda. O robe dela. A seda verde-esmeralda que eu coloquei sobre os ombros de Elena em Milão.
Meu coração parou.
"Elena?", sussurrei. Levantei-me, a cadeira arrastando violentamente no chão.
Ela entrou no quarto. "Dante, você precisa dormir. Você não dorme há dias."
A voz estava errada. Era muito aguda. Muito estridente.
Não era Elena.
Era Sofia.
Ela caminhou em minha direção, o robe grande demais arrastando no chão. Ela havia arrumado o cabelo de forma diferente. Mais liso. Mais escuro.
"Eu pensei...", ela começou, estendendo a mão para o meu braço. "Pensei que talvez você precisasse de conforto. Sei que você está sofrendo. Eu também sinto falta dela."
Ela tocou meu peito.
Uma névoa vermelha explodiu atrás dos meus olhos.
Agarrei seu pulso. Com força.
"Tire isso", rosnei.
Sofia recuou. "Dante, você está me machucando."
"TIRE ISSO!", rugi. "Isso não é seu! Você não toca nas coisas dela!"
Eu a empurrei. Ela tropeçou, batendo na estante de livros.
"Eu só estou tentando ajudar!", ela chorou. "Ela está morta, Dante! Ela está morta e eu estou aqui! Sou eu quem precisa de você agora!"
"Você não é nada", eu disse, minha voz baixando para um sussurro mortal. "Você é o fantasma de um erro que cometi."
"Como você pode dizer isso?" Ela apertou o robe em volta de si. "Você me escolheu. Nas docas. Você me escolheu."
As palavras me atingiram como um golpe físico.
*Você me escolheu.*
"Eu não escolhi você", eu disse, a verdade com gosto de cinzas. "Eu apostei com a vida dela porque achei que você era patética demais para sobreviver. E eu perdi."
"Dante..."
"Saia", eu disse. "Saia antes que eu esqueça quem era seu irmão."
Ela saiu correndo do quarto, soluçando.
Afundei de volta na cadeira. Olhei para a porta vazia.
A casa era enorme. Era uma fortaleza. Mas sem o clique de seus saltos no corredor, sem o cheiro de seu perfume pairando no ar, não era um lar.
Era um mausoléu. E eu era o cadáver sentado à mesa.