"Dante está no quarto ao lado", sussurrei. Minha voz era um arranhão enferrujado na minha garganta ferida.
Lia congelou.
Ela olhou para a parede, depois de volta para mim. Viu a devastação em meus olhos. Ela não perguntou. Ela sabia.
"Então o deixamos aqui", disse ela, sombria. "Ele fica."
Não tivemos a chance.
Estávamos na metade do corredor quando Dante saiu do quarto ao lado.
Ele parecia irritantemente impecável. Seu terno preto estava sem um vinco, seu cabelo escuro perfeitamente penteado. O único sinal de suas atividades recentes era o leve rubor em seu pescoço e a energia selvagem e frenética em seus olhos.
Ele não estava carregando Sofia. Ela caminhava atrás dele, pálida e frágil, agarrada ao seu paletó como uma tábua de salvação.
Os olhos de Dante pousaram em mim.
Eram frios. Glaciais.
Ele não olhou para o sangue no meu braço. Não olhou para os hematomas que floresciam em meus pulsos.
"Você", disse ele. Não foi um cumprimento. Foi um veredito.
"Eu", respondi. Endireitei a coluna, ignorando o grito dos meus músculos maltratados. Eu era uma Vitiello. Eu não me encolheria.
Ele cruzou a distância entre nós em duas longas passadas. Agarrou meu braço, seu aperto me machucando.
"Você achou que eu não descobriria?", ele sibilou.
Eu o encarei. "Descobrir o quê?"
"Que você armou para que ela fosse levada", ele rosnou, sacudindo a cabeça em direção a Sofia. "Que você pagou aqueles homens para arrastá-la para fora da mansão para que pudesse me ter só para você."
Minha boca se abriu.
Atrás dele, Sofia enterrou o rosto nas mãos, soluçando baixinho. "Eu te disse, Dante. Ela me odeia. Ela me disse que eu era uma sanguessuga."
"Eu não fiz tal coisa", eu disse, minha voz tremendo de raiva. "Eu também fui sequestrada, Dante! Eu estava apodrecendo no quarto ao lado enquanto você bancava o Romeu!"
"Mentirosa", ele cuspiu. "Meus homens te encontraram desamarrada. Lia estava te levando para fora."
Ele olhou para Lia. Sua mão foi para a cintura, onde sua arma estava.
"Não." Eu me coloquei na frente de Lia. "Ela me salvou. O que é mais do que você fez."
Dante me soltou com um empurrão. Eu cambaleei para trás.
"Entrem no carro", ele ordenou. "Vamos para casa. E então vamos resolver isso."
A viagem de volta para a mansão foi sufocante, silenciosa como um túmulo.
Observei o horizonte de São Paulo passar borrado pelas janelas escuras, cinza e indiferente.
Quando chegamos à mansão, Dante carregou Sofia para dentro. Ele ordenou que o médico a atendesse imediatamente.
Ele me deixou parada no hall cavernoso, um fantasma em minha própria casa, com sangue seco grudado na manga.
Subi a grande escadaria, minhas pernas pesando como chumbo. Fui para o meu quarto. Precisava lavar a sujeira daquele dia da minha pele.
Mas quando abri a porta da minha suíte, parei.
Algo estava errado.
O quarto estava vazio demais.
Meus olhos correram para o canto perto da janela.
O suporte estava vazio.
Meu violoncelo.
O violoncelo Matteo Goffriller de 1710 da minha mãe. O instrumento que valia mais do que esta casa inteira. O instrumento que guardava os últimos resquícios da minha alma.
Ele havia sumido.
O pânico, frio e agudo, atravessou minhas veias.
Corri para o closet. Vazio.
Corri para o corredor.
"Lia!", gritei.