Sua expressão não mudou, mas o ar no quarto pareceu congelar, a temperatura despencando.
Ele caminhou até a cama. Viu o sangue encharcando os lençóis. Viu a pele esfolada das minhas costas. Viu minha mão.
Ele tocou suavemente meu pulso, seus dedos calejados pairando sobre os cortes profundos onde o osso brilhava branco.
"Quem fez isso?", ele perguntou. Sua voz era assustadoramente baixa.
"Sofia", sussurrei.
"E as costas?"
"Dante."
Luca fechou os olhos por um segundo. Quando os abriu, eram vazios desprovidos de luz.
"Tragam o médico", ele ordenou a seus homens. "Preparem-na para o transporte."
"Lia..." Agarrei seu colete tático com minha mão boa, desesperada. "Luca, a Lia está morta. Eles a mataram. Cortaram a língua dela."
A mandíbula de Luca se contraiu até o músculo tremer. "Nós vamos encontrá-la."
"Ela está no aterro", engasguei. "Sofia me disse."
"Luca!"
A voz de Dante rugiu do corredor.
Ele apareceu na porta, seus próprios homens atrás dele, armas em punho. O corredor se tornou um barril de pólvora. Soldados Vitiello contra soldados Moretti.
Dante olhou para Luca, depois para mim.
Ele viu o sangue pingando da minha mão. Franziu a testa.
"Qual o significado disso?", Dante exigiu. "Você não invade minha casa."
"Você quebrou o tratado", disse Luca. Ele não levantou a voz. Não precisava. "Você torturou uma Vitiello. Você a mutilou."
"Eu disciplinei minha esposa", Dante retrucou. "É um assunto interno."
"Olhe para a mão dela", Luca ordenou, apontando o cano de seu fuzil para meu ferimento. "Isso é disciplina?"
Dante olhou mais de perto. Viu os dedos cortados. A natureza específica e cruel das feridas.
"Eu não ordenei isso", disse Dante, sua voz vacilando. Ele parecia confuso. "Eu ordenei chibatadas."
"Sofia fez isso", eu disse. Minha voz era oca. "Ela entrou. Usou cordas de violoncelo. Ela me disse que mandou matar a Lia."
Dante olhou para mim, depois de volta para o corredor onde Sofia se encolhia atrás de suas pernas.
"Isso não é verdade", gritou Sofia. "Eu estava na cozinha! Estava fazendo chá!"
"Ela está mentindo", disse Luca. Ele ergueu o fuzil, mirando diretamente na cabeça de Sofia. "Ela morre. Agora."
"Não!" Dante se colocou na frente dela.
Ele colocou seu corpo entre a bala e a garota.
"Saia da frente, Dante", Luca avisou. "Ela mutilou minha irmã. Ela executou a filha de um homem de honra. Ela morre."
"Ela está sob minha proteção", disse Dante. "Se você atirar nela, começa uma guerra."
"Então que seja guerra", disse Luca.
Ele destravou a arma com um clique alto.
"Gianna é minha esposa", disse Dante, sua voz dura. "Mas Sofia... Sofia é meu sangue. Ela é tudo para mim. Você não vai tocá-la."
Eu os observei.
Meu marido, protegendo a mulher que acabara de me aleijar. Protegendo a mulher que assassinou minha melhor amiga.
Ele sabia. No fundo, ele tinha que saber que ela fez isso. A evidência estava escrita no meu sangue.
Mas ele não se importava.
Sua obsessão era mais forte que sua honra. Mais forte que a verdade.
"Me leve para casa, Luca", eu disse.
O silêncio na sala era pesado, sufocante.
"Estou levando-a", disse Luca a Dante. "E estou matando a garota."
"Você pode levar Gianna", disse Dante. "Mas se disparar essa arma, nenhum de vocês sai desta mansão vivo."
Luca olhou para Dante com puro nojo.
"Você é um tolo, Moretti. Está trocando uma rainha por uma vadia."
"Estou trocando um contrato por uma alma", respondeu Dante.
Fechei meus olhos.
Ele realmente acreditava nisso. Acreditava que ela era sua alma.
"Preparem-na", Luca ordenou a seus homens, dando as costas ao homem que deveria me proteger. "Estamos de saída."