A voz era leve. Arejada. Como a de uma criança que acabou de encontrar um brinquedo novo.
Virei a cabeça.
Sofia estava sentada na penteadeira. Minha penteadeira. Ela estava passando meu batom, estalando os lábios para testar a cor no espelho.
"Saia", grasnei. Minha garganta parecia forrada com cacos de vidro.
"Dante disse que você precisava descansar", disse ela, girando no banquinho. "Mas eu disse a ele que queria ver como minha irmã estava."
"Nós não somos irmãs."
"Somos agora", ela sorriu. Era um sorriso frio e vazio que não alcançava seus olhos. "Nós compartilhamos tudo. A casa dele. O nome dele. A atenção dele."
Ela se levantou e caminhou em direção à cama. Segurava algo na mão.
Um feixe de arame.
Não. Não era arame.
Cordas.
Minhas cordas de aço de violoncelo.
Meu estômago revirou.
"Sabe", disse ela, enrolando as espirais de metal nos dedos. "Eu sempre odiei o som daquela coisa. Era tão... melancólico. Como um gato morrendo."
Ela se sentou na beirada do colchão. Seu peso esticou os lençóis contra minha pele esfolada, enviando uma nova onda de agonia pela minha espinha. Eu me encolhi.
"Dante saiu", ela sussurrou. "Ele foi para a reunião da Comissão. Não volta por horas."
"O que você quer?"
"Quero ter certeza de que você entende a hierarquia aqui."
Ela estendeu a mão e agarrou minha mão esquerda. A mão que pressionava as cordas. A mão que criava a música.
"Dante quebrou seu espírito lá embaixo", disse ela. "Mas você ainda tem essa arrogância. Ainda acha que é melhor do que eu porque é uma Vitiello."
"Eu sou melhor do que você", cuspi. "Porque não preciso roubar a vida de outra pessoa para ter uma."
O rosto de Sofia se contorceu.
Ela enrolou a corda de aço Lá ao redor do meu dedo indicador.
"Você o salvou na gruta", disse ela suavemente.
Meu coração parou.
"Você sabe?"
"Claro que sei", ela riu, um som oco e tilintante. "Encontrei o diário dele anos atrás. Ele escreveu sobre a voz da garota. Sobre a canção. Eu apenas... adaptei a história. Tornei-a minha."
"Ele vai descobrir."
"Não vai. Porque ele acredita no que quer acreditar. E ele quer acreditar que eu sou o destino dele."
Ela puxou a corda com força.
O aço cortou minha carne.
"Pare", ofeguei.
"Você usa esses dedos para tocar, não é?", ela perguntou.
Ela puxou.
Eu gritei.
A corda cortou a pele, moendo até o osso. Sangue espirrou no edredom branco.
"Pare com isso!" Tentei puxar minha mão de volta, mas ela era forte. Alimentada por uma força maníaca e ciumenta.
Ela enrolou a corda ao redor do meu dedo médio.
"Isso é por ter me dado um tapa", ela sibilou.
O arame cantou.
Corte.
"E isso é por tentar tirá-lo de mim."
Corte.
Eu estava soluçando agora, a dor na minha mão rivalizando com o fogo nas minhas costas. Meus dedos estavam mutilados, sangrando livremente. Os nervos foram cortados. Eu podia sentir a perda de sensibilidade, a morte da minha música.
"Por quê?", chorei. "Você o tem. Você tem tudo. Por que tirar isso?"
"Porque você ama isso", disse ela simplesmente. "E você não tem permissão para amar nada além da dor."
Ela soltou minha mão ensanguentada. Levantou-se e limpou as palmas no vestido como se estivesse tirando migalhas.
"Onde está a Lia?", perguntei. Eu precisava saber. "Ela está viva?"
Sofia parou na porta. Olhou para trás por cima do ombro.
"Ah, a empregada?", ela riu. "Ela era tão barulhenta no porão. Gritando seu nome. Implorando por misericórdia."
Gelo encheu minhas veias.
"O que você fez?"
"Eu não fiz nada", disse Sofia inocentemente. "Mas os homens de Dante... eles têm regras sobre ratos. Ratos não devem falar."
Ela tocou os lábios.
"Então eles arrancaram a língua dela."
O mundo girou em seu eixo.
"E então perceberam que ela era inútil sem a língua", ela continuou. "Então deram um tiro na cabeça dela e a jogaram no aterro sanitário ao sul da cidade."
Um som rasgou de mim. Não era humano. Era o som de um animal ferido percebendo que estava encurralado e morrendo.
Lia. Minha Lia.
Ela estava morta. Mutilada e descartada como lixo por minha causa.
"Durma bem, Princesa", disse Sofia.
Ela fechou a porta.
Eu fiquei deitada na poça do meu próprio sangue.
As lágrimas pararam. Os soluços pararam.
Algo dentro do meu peito, a coisa frenética e pulsante que esperava por salvação, finalmente parou de se mover.
Morreu.
E em seu lugar, algo frio e afiado começou a crescer.