Corri para seus aposentos. Vazios. A cama estava desfeita, os lençóis rasgados. Uma luminária jazia quebrada no chão - sinais de uma luta.
O medo, primitivo e aterrorizante, subiu pela minha garganta.
Eu corri. Pelo corredor, passando pela cozinha, até a porta pesada que levava ao porão. Às celas.
A porta de aço estava entreaberta.
Eu a empurrei.
O cheiro me atingiu primeiro. O odor metálico de cobre misturado com o cheiro forte de água sanitária.
Dante estava no centro da sala. Ele havia tirado o paletó. Sua camisa branca impecável estava com as mangas arregaçadas até os cotovelos, revelando antebraços tensos de músculos.
Em sua mão, ele segurava um chicote. Um açoite de couro trançado e grosso que parecia pesado de crueldade.
E acorrentada à parede, com a cabeça baixa, estava Lia.
Ela estava inconsciente. Seu rosto estava inchado, irreconhecível. Um fino fio de sangue escorria de seu lábio partido.
"Não", ofeguei, o ar saindo dos meus pulmões. Caí de joelhos, o chão de pedra cortando minha pele. "Não!"
Dante se virou lentamente para me olhar. Seu rosto era uma máscara de pedra fria e inflexível.
"Você ligou para o Luca", ele afirmou.
Não era uma pergunta. Era uma sentença.
"Você ligou para o Don do Rio de Janeiro e disse a ele que a aliança acabou."
"Você me deixou afogar!", gritei, levantando-me de um salto, a adrenalina superando meu terror. "Você a escolheu!"
"Sofia não sabe nadar", disse Dante, sua voz assustadoramente calma. "Você sabe. Foi uma decisão tática."
"Tática?", eu ri - um som histérico e quebrado que arranhou minha garganta. "Foi uma escolha, Dante! Você a ama!"
"Eu protejo o que é meu", ele contrapôs friamente. "E você arriscou a segurança desta família ligando para seu irmão. Você quebrou a Omertà. Você trouxe olhos de fora para nossos assuntos internos."
"Eu estou te deixando!"
"Você não vai a lugar nenhum", disse Dante, caminhando em minha direção. O ar ao seu redor crepitava com violência. "Você é minha esposa. E precisa aprender o seu lugar."
Ele gesticulou para o Executor parado nas sombras do canto. "Acorrentem-na."
O Executor hesitou, seus olhos alternando entre mim e seu Chefe. "Chefe... ela é uma Vitiello."
"Faça!", Dante rugiu.
O som bateu contra as paredes de concreto como um golpe físico.
Dois homens me agarraram. Eu lutei. Chutei, arranhei, gritei até minha garganta ficar em carne viva. Mas eles eram fortes demais.
Eles me arrastaram para o poste de madeira no centro da sala. Mãos ásperas prenderam meus pulsos, acorrentando minhas mãos bem acima da minha cabeça.
As costas do meu vestido foram rasgadas. Minha pele ficou exposta ao ar úmido e frio.
"Isso é pela traição", disse Dante. Seus passos ecoaram enquanto ele caminhava atrás de mim.
"Dante, por favor", implorei. Não pela minha vida. Mas por nós. Pelo último e frágil fio de amor que eu ainda sentia por ele. "Não faça isso. Se você fizer isso... não haverá volta."
"Ótimo", disse ele.
A primeira chibatada me atingiu.
Parecia uma barra de ferro em brasa queimando minha carne.
Eu gritei.
A dor era cegante. Roubou meu fôlego, estilhaçou minha realidade e tornou o mundo branco.
Crack.
A segunda chibatada.
Mordi meu lábio com tanta força que senti o gosto quente e metálico de sangue.
Crack.
Forcei meus olhos a se abrirem, focando na forma inconsciente de Lia através das minhas lágrimas.
Crack.
A cada golpe, algo dentro de mim se quebrava.
Não meus ossos.
Mas a garota que havia cantado em uma gruta todos aqueles anos atrás. A garota que sonhava com um príncipe sombrio vindo para salvá-la. A garota que foi tola o suficiente para acreditar no amor.
Ela morreu.
Ela morreu ali mesmo, no chão frio de concreto de um porão em São Paulo.
Dante não parou. Ele respirava com dificuldade, sua raiva alimentando cada golpe.
"Chefe, já chega!", gritou o Executor, dando um passo à frente. "Ela está desmaiando! Você vai matá-la!"
Dante congelou.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Minhas costas estavam em chamas. Eu não sentia mais minhas pernas.
Desabei contra as correntes, o metal cortando meus pulsos.
Dante contornou para ficar de frente para mim. Ele olhou para meu rosto pálido e manchado de lágrimas. Olhou para o sangue que se acumulava em meus pés descalços.
Por um segundo, seus olhos se arregalaram. Como se estivesse acordando de um transe.
"Gianna", ele sussurrou. Ele estendeu uma mão trêmula.
Eu olhei para ele.
Minha visão estava embaçada, a escuridão se aproximando pelas bordas como uma vinheta.
"Não", sussurrei. Minha voz não era mais do que um sussurro rouco. "Não me toque."
"Eu tive que fazer", disse ele, sua voz tremendo pela primeira vez. "Você tentou nos destruir."
"Você nos destruiu", respirei.
Forcei-me a olhá-lo nos olhos.
"A garota na gruta", sussurrei. "Aquela que te salvou."
Dante ficou imóvel.
"Não foi a Sofia", eu disse, a verdade escapando com minha última gota de força. "Fui eu."
Seu rosto ficou pálido. Toda a cor sumiu de sua pele, deixando-o com a aparência de um fantasma.
"O quê?", ele engasgou.
"Fui eu", repeti suavemente. "E você acabou de matá-la."
A escuridão me levou então.
E eu a acolhi.