"Eu quero sair", eu disse, minha voz firme. "Completamente. Sem ninguém me seguindo. Sem rastreamento. Se Dante me procurar, ele vai encontrar um fantasma."
Isabella sorriu. Era o sorriso de um predador observando uma corça ferida se afastar mancando.
"Dante não vai te procurar", disse ela com desdém. "Ele está apaixonado, sim. Mas ele é um Vitiello. Ele conhece o dever. Ele vai se casar com Sofia Moretti em três meses. Você é... uma ponta solta."
"Então corte-a", eu disse.
Abri a pasta.
Os números eram impressionantes. Cinquenta milhões de reais.
O suficiente para comprar uma pequena ilha. O suficiente para comprar uma nova vida.
Mas havia condições.
*Cláusula 4: A Beneficiária deve deixar os Estados Unidos em até 14 dias.*
*Cláusula 7: A Beneficiária nunca mais deverá contatar Dante Vitiello.*
*Cláusula 9: A quebra de contrato resulta em liquidação imediata.*
E na família Vitiello, "liquidação" não significava um processo judicial.
Significava uma bala.
Peguei a pesada caneta-tinteiro. O metal estava frio contra minha pele.
Minha mão não tremeu.
Assinei meu nome. *Elena Rossi.*
Eu estava abrindo mão do único homem que já amei, e parecia que estava cortando meu próprio membro para escapar de uma armadilha.
"Escolha sábia", disse Isabella, pegando a pasta de volta instantaneamente, antes que a tinta pudesse secar. "Os fundos estarão em uma conta no exterior pela manhã. A Austrália é agradável nesta época do ano. Não há tratados de extradição que nos preocupem."
"Duas semanas", eu disse.
"Duas semanas", ela confirmou. "Não demore, criança. O Don odeia longas despedidas."
Ela saiu sem pagar a conta.
A caminhada de volta para a cobertura que compartilhávamos foi um borrão.
O porteiro sorriu para mim quando entrei no saguão. "Boa tarde, Srta. Rossi."
Ele não sabia que eu já era um fantasma.
Subi para o apartamento que ocupava todo o último andar.
Estava cheio de coisas que Dante havia me comprado. Joias que eu nunca usava. Vestidos que custavam uma fortuna. Uma gaiola dourada construída de diamantes e seda.
Sentei-me na beira da cama onde havíamos feito amor esta manhã.
Meu celular apitou.
Uma notificação do Instagram.
Eu geralmente evitava redes sociais, mas a curiosidade é um veneno.
Eu abri.
Sofia Moretti havia postado uma foto há dez minutos.
Era um close de um documento em uma mesa de mogno. Um contrato de casamento.
Sua mão de unhas feitas repousava no antebraço de Dante. Reconheci o relógio em seu pulso imediatamente. Eu o havia dado a ele de aniversário.
A legenda dizia: *O destino sempre traz de volta o que é seu. #VitielloMoretti #ParaSempre.*
Fiquei olhando para a tela até meus olhos arderem.
O destino não o trouxe de volta.
Eu o trouxe.
Eu o cuidei e o tirei da escuridão. Eu o curei.
E ela estava colhendo os frutos.
Meu celular vibrou novamente. Uma mensagem de Dante.
*Dante: Vou passar a noite em Brasília. Complicações de negócios. Não me espere acordada. Te amo.*
Ele não estava em Brasília.
Ele estava com ela.
Provavelmente estava comemorando o contrato.
Eu respondi.
*Eu: Ok. Se cuida.*
Apertei enviar.
Então, toquei duas vezes na foto de Sofia.
Uma "curtida".
Uma pequena gota de sangue digital na água.
Pousei o celular e caminhei até o closet.
Não embalei roupas. Não embalei as joias.
Puxei uma mala pequena e surrada de debaixo das araras de grife.
Comecei a embalar as coisas que importavam.
O rosário da minha mãe. O livro que eu costumava ler para ele quando estava cego. Uma flor seca do jardim.
Eu estava indo embora.
Mas primeiro, eu tinha que sobreviver às próximas duas semanas sem gritar.