"Beba", Sofia ordenou, seus olhos brilhando com a crueldade de um predador brincando com sua presa. "Termine a garrafa, e eu te perdoo."
Olhei para o líquido âmbar.
Eu não deixava álcool tocar meus lábios há cinco anos.
Quando Dante estava cego, ele costumava beber para afogar a escuridão. Ele se tornava um monstro quando a bebida tomava conta, uma criatura de raiva e tristeza. Então, parei de beber para ser a sóbria. A âncora em sua tempestade.
Minha tolerância era inexistente.
"Eu não posso", engasguei.
Dante recostou-se, cruzando os braços sobre o peito. "Você desrespeitou a Família, Elena. Você bebe, ou sai de São Paulo em um saco para cadáveres. Escolha."
Ele estava blefando. Ou talvez não estivesse.
Eu não conseguia mais ler o homem por trás da máscara.
Caminhei até a mesa, minhas pernas parecendo chumbo.
Peguei a garrafa.
Ao fazer isso, minha mão roçou na bandeja do serviço de quarto ao lado. Em um borrão de movimento, peguei o pequeno saleiro de mostarda em pó.
Enquanto eles observavam, pensando que eu estava hesitando, inclinei a cabeça para trás e coloquei um punhado do pó amarelo na boca, engolindo-o a seco em um gole agonizante.
Um velho truque de serviçal. Era um emético violento; me forçaria a purgar tudo antes que o álcool pudesse parar meu coração.
Então, comecei a beber.
O uísque atingiu minha garganta como chumbo derretido.
Um copo.
Dois copos.
Sofia bateu palmas, encantada como uma criança em um circo grotesco.
Três copos.
A sala começou a inclinar em seu eixo.
Quatro.
Engasguei, lutando contra a vontade de vomitar cedo demais.
Cinco.
Lágrimas escorriam pelo meu rosto, quentes e humilhantes.
Dante estava me observando. Seu rosto estava esculpido em granito, mas sua mão agarrava seu joelho com tanta força que seus nós dos dedos ficaram brancos.
Seis.
Eu balancei, o chão correndo para me encontrar.
Sete.
Meus dedos ficaram dormentes. Deixei o copo cair. Ele se estilhaçou, enviando cacos de cristal pelo chão.
"Chega", disse Dante. Sua voz era áspera, como cascalho se moendo.
Ele se levantou abruptamente e agarrou meu pulso. "Já chega, Elena."
Puxei meu braço para longe dele.
O álcool inundou minhas veias com uma coragem imprudente e ardente.
"Você está feliz, Don Vitiello?", eu arrastei as palavras, apontando uma mão para Sofia. "Ela vale a pena? Ela sabe como te abraçar quando os pesadelos te despedaçam? Ela sabe qual música te acalma de volta para a escuridão?"
"Elena, pare", ele avisou, um tom perigoso em sua voz.
"Espero que ela te queime", cuspi, as palavras com gosto de bile e uísque. "Espero que ela te queime até o chão."
Virei-me e tropecei em direção à porta.
"Elena!", ele gritou.
Cheguei ao corredor antes que minhas pernas finalmente me traíssem.
A mostarda em pó fez efeito com força violenta.
Eu desabei, vomitando, meu corpo rejeitando o veneno e a dor de uma só vez.
A escuridão invadiu as bordas da minha visão, estreitando o mundo a um ponto de alfinete.
Senti braços fortes me levantarem sem esforço.
"Chame o carro!", Dante estava rugindo, sua compostura estilhaçada. "Traga a porra do carro!"
"Dante, espere!", a voz de Sofia ecoou estridente da sala. "Você não pode me deixar!"
"Cala a boca, Sofia!"
Ele me carregou, segurando-me com força contra ele.
Pressionei meu rosto contra seu peito.
Cheirava a sândalo e traição.
"Me solta", sussurrei em sua camisa, minha consciência se esvaindo. "Por favor, apenas me solta."
*
Acordei em uma cama de hospital.
O cheiro estéril de antisséptico encheu meu nariz.
Dante estava sentado na cadeira ao meu lado. Sua cabeça estava enterrada nas mãos.
Ele parecia destruído - um rei sentado nas ruínas de sua própria criação.
"Você acordou", disse ele, sentando-se abruptamente.
"Onde ela está?", perguntei, meu olhar fixo nos azulejos brancos do teto. "Onde está sua esposa?"
"Ela ainda não é minha esposa", disse ele, sua voz baixa. "Elena... por que você bebeu? Você sabe que não aguenta."
"Você me mandou."
"Eu estava com raiva. Eu não quis dizer...", ele parou, a desculpa morrendo no ar.
Ele estendeu a mão para a minha.
Eu a puxei para debaixo do lençol, escondendo-a de seu toque.
"Volte para seus deveres, Dante", eu disse, minha voz fria como gelo. "A filha da empregada vai ficar bem."
Ele se encolheu como se eu o tivesse atingido.
"Pare de se chamar assim."
"É o que eu sou", eu disse. "E é tudo que eu serei para você."
Ele se levantou, andando de um lado para o outro no pequeno quarto como um animal enjaulado. "Estou fazendo isso pela Família. Você não entende de política."
"Eu entendo de lealdade", contrapus. "E eu entendo que você não tem nenhuma."
Ele parou de andar. Ele olhou para mim com uma intensidade aterrorizante, seus olhos escuros queimando nos meus.
"Você é minha", disse ele, sua voz um rosnado baixo. "Contrato ou sem contrato. Esposa ou sem esposa. Você me pertence, Elena. Nunca se esqueça disso."
Ele se virou e saiu do quarto.
Esperei até a porta pesada clicar.
Então, puxei o soro do meu braço.
Sangue pingou nos lençóis brancos imaculados, uma mancha vermelha e nítida.
Nove dias restantes.