Foi ele quem me costurou naquela época, suas mãos desajeitadas, mas gentis, prometendo que nunca deixaria nada me machucar novamente.
Agora ele estava ao lado de Sofia, seu rosto uma máscara de impaciência.
"Sofia, você está sendo generosa", uma mulher de seda esmeralda sussurrou alto. "Ela deveria estar de joelhos agradecendo."
Sofia fez beicinho, inclinando a cabeça com falsa inocência.
"Elena, não seja difícil", disse ela, sua voz pingando de falsa doçura. "Ari é de raça pura. Ele custa mais do que sua mãe ganhou em uma vida inteira."
"Pegue", disse Dante novamente.
Sua voz era um chicote.
Ele não estava olhando para mim. Ele estava examinando a sala, verificando as reações de seus Capos e suas esposas. Ele estava gerenciando um ativo.
Dei um passo à frente.
Minhas mãos tremiam tanto que mal conseguia levantar os braços. Estendi a mão para a cesta.
O filhote, sentindo o terror que irradiava de mim, latiu e subiu pela lateral. Então, ele pulou.
Não pulou nos meus braços.
Disparou em direção à mesa do buffet atrás de nós. A coleira o seguia, prendendo-se na toalha da mesa.
A enorme torre de taças de champanhe de cristal balançou.
"Cuidado!", alguém gritou.
O mundo pareceu inclinar.
Vi a torre tombar. Vi a avalanche de vidro e líquido dourado descendo.
Vi Dante se mover.
Ele não estendeu a mão para mim.
Ele não verificou se eu estava na zona de impacto.
Ele se jogou sobre Sofia.
Ele envolveu seus braços maciços ao redor dela, protegendo seu vestido de seda, sua pele perfeita e seu futuro como a Donna.
O estrondo foi ensurdecedor. Cacos de cristal explodiram para fora como estilhaços.
Senti uma picada aguda e quente na minha bochecha. Depois, um corte mais profundo e úmido no meu antebraço.
Eu não me encolhi.
Apenas os observei.
Dante estava curvado sobre ela, agindo como um escudo humano.
A sala ficou em silêncio, exceto pelo gotejar suave do champanhe derramado.
Dante se afastou, suas mãos segurando o rosto de Sofia.
"Te atingiu?", ele exigiu, sua voz rouca de pânico. "Sofia?"
"Estou bem", ela ofegou, pressionando uma mão no peito. "Você me salvou."
Ele exalou, descansando a testa contra a dela por um segundo.
Então ele se levantou, limpando o vidro de seu terno. Ele se virou.
E finalmente, ele me viu.
Sangue escorria das pontas dos meus dedos para o mármore branco imaculado. Um corte longo e irregular descia pelo meu antebraço.
Sangue também escorria pela minha bochecha, misturando-se com o champanhe que me salpicou.
Os olhos de Dante se arregalaram. Por uma fração de segundo, a máscara caiu.
Ele deu um passo em minha direção.
"Elena-"
"Oh, olhe a bagunça", interrompeu Sofia, apontando para o chão.
O feitiço se quebrou.
Os convidados começaram a murmurar. O maxilar de Dante se contraiu. Ele olhou para o meu braço sangrando, depois para a multidão que observava.
Ele fez sua escolha.
"Marco", ele latiu. "Mande um soldado levar a Elena para o pronto-socorro."
Ele me deu as costas.
Ele ofereceu o braço a Sofia.
"Venha", disse ele a ela. "Vamos tirar você deste caos."
Ele a acompanhou para fora. Ele a tirou do salão de festas, passando por cima do vidro quebrado, me deixando sangrando no centro da sala enquanto seu povo assistia.
O soldado, um garoto jovem chamado Luca, olhou para mim com pena.
"Srta. Rossi", disse ele suavemente. "O carro está lá na frente."
Olhei para o sangue se acumulando aos meus pés. Era da mesma cor do vinho que Dante costumava beber quando estava cego.
"Eu não preciso do carro", eu disse.
Minha voz estava morta.
Virei-me e caminhei em direção à saída de serviço.
Eu não precisava de pontos.
Eu precisava de uma passagem de avião.