Ele cheirava a chuva e à doçura enjoativa do perfume dela.
Ele parecia arrasado.
Ele afrouxou a gravata, jogando o paletó na cadeira com um suspiro pesado.
"Fazendo as malas?", ele perguntou, seus olhos passando para o volume sob o cobertor.
"Limpando", menti, forçando minha voz a permanecer firme. "Organizando para a campanha de caridade."
Ele me observou.
O ar na sala mudou. Ele sentiu algo. Ele sempre sentia. Seus instintos eram afiados, afiados como uma lâmina. Ele era um predador.
Ele se aproximou e ficou entre meus joelhos.
Ele estendeu a mão, seu polegar roçando o curativo na minha bochecha.
"Dói?"
"Não."
"Ouvi dizer que você esteve na Propriedade", ele murmurou.
"Fui pegar meus livros antigos."
Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos escuros.
"Sobre a Sofia...", ele começou.
"Não", eu o interrompi suavemente.
Levantei-me, precisando de distância entre nós.
Caminhei até a cômoda e peguei o Cartão Black que ele havia deixado lá semanas atrás.
"Ainda é válido?", perguntei, segurando-o.
Ele franziu a testa. "Sim. Por quê?"
"Quero comprar um vestido", eu disse, encontrando seu olhar. "Para a gala da próxima semana. Se você ainda me deixar ir."
Seus olhos se suavizaram, inundados de alívio.
Ele pensou que eu estava negociando. Ele pensou que eu estava aceitando minha posição como a amante que é paga com alta costura.
"Claro", disse ele, sua voz rouca. "Compre o que quiser. Use vermelho."
Ele se inclinou e beijou minha testa.
Eu não me afastei.
Fiquei imóvel como uma estátua, deixando-o acreditar que eu era dele.
"Vá dormir, Dante", sussurrei. "Você parece exausto."
Ele assentiu.
Ele se despiu até ficar de cueca e subiu na cama enorme.
Ele adormeceu instantaneamente, o cansaço finalmente o vencendo.
Fiquei no escuro, observando-o.
Memorizei a subida e descida de seu peito. A cicatriz em seu ombro da bala destinada a seu pai.
Estendi a mão.
Rocei meus dedos em sua bochecha uma última vez.
"Adeus, meu amor", sussurrei no silêncio.
Ele se mexeu.
Ele virou a cabeça em minha mão, buscando calor.
"Sofia...", ele murmurou em seu sono, o nome uma punhalada no meu coração. "Fica..."
Puxei minha mão de volta como se tivesse tocado fogo.
Um sorriso amargo torceu meus lábios.
Essa era a conclusão de que eu precisava.
Peguei minha bolsa.
Saí do quarto, desci o corredor e entrei no elevador.
Peguei a saída de serviço para a rua.
Tirei o chip do meu celular e o joguei em um bueiro na Avenida Paulista.
Chamei um táxi.
"Aeroporto Internacional de Guarulhos", disse ao motorista.
Observei a cidade se borrar pela janela.
São Paulo era uma gaiola de aço e vidro.
E pela primeira vez em sete anos, a porta estava aberta.
Liguei para Dona Isabella de um celular descartável que comprei em uma bodega.
"Está feito", eu disse no momento em que ela atendeu. "Eu fui embora."
"Boa menina", ela respondeu, sua voz fria e aprovadora. "Não olhe para trás."
Desliguei e quebrei o celular ao meio.
Eu não estava olhando para trás.
Eu estava olhando para o painel de partidas.
Melbourne. Só ida.