Assim que a porta se fecha atrás dela, os sensores retomam o padrão normal. O sistema registra a saída, atualiza horários, memoriza passos. Tudo é arquivado. Nada é esquecido. É por isso que confio mais nesta cobertura do que em qualquer ser humano.
Caminho até o vidro e observo a cidade. Meu reflexo surge ali: terno impecável, postura calculada, rosto que não revela nada além do que escolhi mostrar. O CEO. O estrategista. O homem que nunca perde. Mas isso não passa de uma enorme mentira. Porque perder é apenas uma questão de tempo quando todos querem um pedaço do que você construiu.
O tablet ainda está na mesa. A tela escura reflete o teto geométrico, mas não preciso ligá-lo para saber o que está ali. Memorizei cada linha, cada número, cada nome. O dossiê não deixa margem para erro: ou eu apresento uma esposa em trinta dias, ou perco o controle da empresa - e, com ele, algo muito pior do que dinheiro. Poder é um jogo sujo. E eu sempre soube jogar.
A ameaça não veio dos concorrentes óbvios. Veio de dentro. Sempre vem. Um conselho que finge preocupação com governança, investidores que exigem "estabilidade", famílias tradicionais que ainda acreditam que um homem sem esposa é um risco.
Ridículo.
Mas o mundo corporativo ainda se ajoelha diante de símbolos antigos. Família. Continuidade. Aparência. Eles não querem uma mulher ao meu lado. Querem uma narrativa. E narrativas precisam ser convincentes.
Foi aí que pensei nela.
Lívia Rocha não existe para o mundo. Não há redes sociais ativas, não há histórico relevante além do que investiguei com precisão cirúrgica. Uma dívida antiga. Um passado interrompido. Nenhuma conexão perigosa. Nenhum aliado que pudesse se tornar uma ameaça. E, o mais importante: ela já pertence à casa.
Sento-me novamente, mas não consigo beber o café. Está quente demais. Ou talvez eu esteja..Fecho os olhos por um segundo - um luxo que raramente me permito - e a imagem dela surge com nitidez incômoda. O jeito como se move sem fazer ruído. Como ajusta objetos sem nunca errar o alinhamento. Como observa quando pensa que ninguém percebe. Ela me vê. Isso deveria ser um problema. Mas eu transformei em vantagem.
Levanto e caminho pelo escritório, ativando o painel oculto na parede. Arquivos se projetam no ar em tons azulados. Advogados. Cláusulas. Penalidades. O contrato já existe. Foi redigido semanas atrás, quando entendi que o cerco estava se fechando. Eu só precisava de um nome para preencher o espaço em branco. E agora eu tenho.
- Lívia.
Digo o nome em voz baixa. O som não ecoa. A casa absorve tudo.
- Prepare o ambiente de simulação - ordeno.
A inteligência artificial responde imediatamente. Luzes se ajustam. Um holograma surge, projetando cenários: eventos públicos, reuniões, entrevistas, fotos calculadas. Um casamento perfeito aos olhos de quem só enxerga superfície.
Não sinto culpa. Culpa é um luxo para quem não carrega impérios nas costas. Ela terá benefícios. Segurança financeira. Dívidas resolvidas. Proteção. Um lugar que ninguém poderá tirar dela. É uma troca justa. Limpa. Controlada.
- Então por que minha mão aperta com força demais o braço da cadeira? - pergunto a mim mesmo.
A lembrança do olhar dela quando mostrei o tablet surge como uma falha no sistema. Não foi medo puro. Foi... decepção. Como se ela tivesse esperado outra coisa de mim. Isso é irrelevante. Nada é pessoal.
Desativo a simulação e sigo pelo corredor até o quarto. O espaço é amplo, organizado com precisão quase clínica. Abro o closet e escolho uma camisa nova, embora saiba que não preciso sair hoje. Trocar de roupa é uma forma de controle. Um ritual.
Enquanto abotoo os punhos, algo inesperado acontece.
O sistema emite um alerta discreto.
- Identifique - digo.
- Alteração de padrão emocional detectada - responde a voz neutra da IA. - Frequência cardíaca elevada durante interação com residente Lívia Rocha.
Encaro meu reflexo no espelho.
- Arquive como erro de leitura.
- Confirmar?
- Confirmar.
O alerta some, mas o desconforto permanece.
Não sou um homem emocional. Nunca fui. Emoções foram arrancadas de mim cedo demais para que se tornassem um problema agora. Aprendi que apego cria brechas. Que afeto enfraquece decisões. Que amar é oferecer ao inimigo a arma perfeita. Ainda assim, a casa percebeu algo antes de mim.
Saio do quarto e sigo até a área onde ficam os aposentos de funcionários. Não entro. Nunca entro. Respeito limites claros. É assim que se mantém hierarquia. Mas paro diante da porta dela. Do outro lado, silêncio.
Imagino Lívia sentada na cama estreita, talvez encarando as próprias mãos, talvez pensando em fugir, talvez pensando em aceitar. Ela vai pensar. Pessoas como ela sempre pensam demais. É isso que as torna perigosas - e interessantes.
- Você vai aceitar - murmuro, sem saber por quê.
Não é uma ordem. É uma constatação lógica.
Volto para o escritório e ativo uma chamada segura. O rosto de um dos meus advogados aparece na tela.
- Está tudo pronto? - pergunto.
- Sim. Mas ainda acho arriscado escolher alguém tão... próxima.
- Proximidade é controle - respondo. - O mundo não pode suspeitar.
- E se ela se apegar?
Uma pausa.
- O contrato prevê isso - digo friamente.
- E se o senhor se apegar?
O silêncio se estende por tempo demais.
- Isso não é uma possibilidade - encerro.
Desligo a chamada e caminho até a janela novamente. A cidade continua indiferente. Como sempre. Mas algo mudou. Não foi quando fiz a proposta. Foi quando ela não disse "sim" imediatamente. Pessoas que hesitam são as únicas que ainda escolhem. E isso... isso torna Lívia Rocha mais perigosa do que qualquer inimigo que já enfrentei.
Amanhã, ela me dará uma resposta. E seja qual for, nada será pessoal. Ou é isso que continuo dizendo a mim mesmo, enquanto a casa - traidora silenciosa - registra cada batida irregular do meu coração.