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Contrato de Silêncio
img img Contrato de Silêncio img Capítulo 5 Uma proposta indecente demais para recusar
5 Capítulo
Capítulo 6 Ela é a escolha certa img
Capítulo 7 As cláusulas que me prendem img
Capítulo 8 Controle absoluto img
Capítulo 9 Assinar é cruzar um limite img
Capítulo 10 Um casamento sem emoção img
Capítulo 11 Conflito interno img
Capítulo 12 A primeira noite sob o mesmo teto img
Capítulo 13 O silêncio que me desestabiliza img
Capítulo 14 A mídia, o anel e a mentira img
Capítulo 15 A esposa perfeita no papel img
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Capítulo 5 Uma proposta indecente demais para recusar

Lívia

A biblioteca nunca pareceu tão pequena. As estantes altas, antes abrigo, agora se inclinavam sobre mim como paredes de um tribunal invisível. Os livros - meus aliados de tantas noites solitárias - observavam em silêncio, cúmplices de uma sentença que eu ainda não conseguia nomear. Cada lombada parecia sussurrar que não havia volta, que aquele instante tinha peso demais para ser esquecido.

Meu coração batia rápido, descompassado, como se quisesse fugir do meu peito antes que eu tivesse coragem de enfrentar o que vinha a seguir. O ar estava mais denso. Difícil de respirar. Difícil de mentir.

Adriano estava à minha frente, imóvel. Não precisava se mover para ocupar todo o espaço. Havia algo de esmagador na calma dele, uma autoridade que não exigia gestos nem palavras. Seu silêncio não era vazio - era cheio de significado, de expectativas que me atravessavam a pele.

Não havia ameaça explícita em sua postura. Nenhum aviso. Nenhuma arma. Ainda assim, senti o mesmo medo que se sente diante de um abismo: não pelo empurrão, mas pela certeza de que, se desse um passo errado, cairia sozinha. Porque o que havia ali não era força bruta. Era verdade. E, naquele momento, eu sabia - a verdade era a única coisa da qual eu não tinha como me defender.

- Então é melhor que o nome seja o meu - eu havia dito.

As palavras ainda vibravam no ar entre nós.

Ele não sorriu. Não comemorou. Não tentou disfarçar o impacto. Apenas me encarou como se estivesse recalculando todas as variáveis de um plano que, até então, parecia perfeitamente controlado.

- Você tem certeza do que está dizendo? - perguntou.

Era a primeira vez que ele parecia, de fato, disposto a me dar uma saída. E isso tornou tudo ainda mais difícil.

- Não - respondi com honestidade. - Mas tenho certeza do que acontece se eu disser não.

Ele assentiu devagar.

- Ainda assim, quero que entenda exatamente o que está aceitando - disse. - Não depois. Agora.

Caminhamos até o escritório. A casa abriu caminho, obediente, cúmplice. Senti um arrepio ao perceber como tudo parecia conspirar para nos colocar lado a lado, como se aquela decisão já tivesse sido tomada muito antes de mim.

Adriano ativou a tela principal. O contrato surgiu diante dos meus olhos como algo vivo - páginas e páginas de termos, cláusulas, números e palavras frias que tentavam transformar pessoas em previsões controláveis.

- Leia - ele disse. - Tudo.

Sentei-me. Não na cadeira de visitante, mas na mesma em que havia me sentado no dia anterior. Um detalhe pequeno, mas significativo. Ele não corrigiu. Observou.

Comecei a ler.

Cláusula por cláusula, senti o peso do que estava sendo proposto. Um casamento civil imediato. Regime de separação total de bens. Confidencialidade vitalícia. Aparições públicas programadas. Penalidades severas para quebra de contrato.

...Nada sobre amor...

...Nada sobre filhos...

...Nada sobre promessas...

- Isso é um acordo comercial - murmurei.

- Sim - ele respondeu. - Mas com impacto social.

Continuei lendo. Benefícios financeiros claros. Minha dívida quitada integralmente. Um fundo pessoal intocável, acessível apenas por mim. Retomada dos estudos garantida. Segurança para minha família.

Tudo calculado. Tudo tentador.

- Você pensou em tudo - eu disse.

- Quase tudo.

Levantei o olhar.

- O que não pensou?

Ele hesitou por um segundo. Um segundo inteiro. Adriano Moretti não hesitava.

- Em como isso mudaria você - respondeu. - Nem em como mudaria a mim.

Voltei ao contrato. Algo ali parecia... incompleto. Passei os olhos com mais atenção. Minhas mãos tremiam levemente, mas minha mente estava clara demais.

- Aqui - apontei. - Cláusula vinte e sete.

Ele se aproximou.

- "Rescisão unilateral mediante risco reputacional iminente." - li em voz alta. - Essa cláusula permite que você encerre o casamento sem minha concordância.

- Sim.

- E "risco reputacional" é um conceito amplo demais.

- Precisa ser.

Fechei os olhos por um instante.

- Então, se em algum momento eu deixar de ser conveniente...

- Não será descartada - ele interrompeu. - Será protegida.

Ri, sem humor.

- Proteção que parece muito com confinamento.

Ele sustentou meu olhar.

- Prefiro isso a deixá-la exposta.

- Você fala como se já fosse responsável por mim.

- Se assinar, serei.

As palavras me atingiram com força inesperada.

- Isso não é um pedido - eu disse. - É uma tomada de posse disfarçada de acordo.

- É uma proposta - ele corrigiu. - Que você é livre para recusar.

Livre.

A palavra soou irônica demais dentro daquela casa que observava tudo, registrava tudo, previa tudo.

- Se eu recusar - comecei -, minha dívida some. Eu vou embora. Recomeço em outro lugar.

- Sim.

- E você?

- Eu encontro outra solução.

Mentira.

Eu já sabia. Ele já sabia que eu sabia. O conselho queria rapidez, estabilidade, algo crível. Uma mulher desconhecida surgindo do nada não serviria. Uma funcionária invisível que sempre esteve ali, sim.

- Você precisa de mim - eu disse.

- Preciso - ele admitiu.

O silêncio que se seguiu foi diferente. Não havia mais disfarces.

- Então vamos renegociar - falei.

A sobrancelha dele se ergueu, sutilmente.

- Estou ouvindo.

- Se eu aceitar, não serei apenas um nome em um contrato. - Minha voz saiu firme, apesar do coração acelerado. - Quero autonomia real. Quero acesso às decisões que envolvem minha imagem. Quero poder dizer não.

- Não a tudo - ele ponderou.

- Ao que me destrói - corrigi.

Ele cruzou os braços.

- Isso reduz meu controle.

- Exatamente.

Um longo silêncio se instalou. A casa parecia esperar junto conosco.

- Você é ousada - ele disse por fim.

- Não. - Balancei a cabeça. - Estou desesperada o suficiente para ser honesta.

Ele me estudou como se eu fosse um território novo, ainda não mapeado.

- Posso incluir adendos - disse. - Limites claros. Mas preciso de algo em troca.

- O quê?

- Lealdade.

Ri baixo.

- Isso não se exige. Se constrói.

- Confiança também - ele respondeu. - E estou disposto a começar.

Respirei fundo. Voltei a olhar para o contrato. Para minha vida antiga. Para tudo o que eu perderia e tudo o que talvez ganhasse.

Uma proposta indecente demais para recusar não é aquela que apela para o corpo. É a que oferece sobrevivência, dignidade e uma chance de existir - mesmo que sob risco.

- Se eu aceitar - disse devagar -, não será porque você é poderoso.

Ele esperou.

- Será porque, pela primeira vez, alguém me ofereceu escolha dentro de uma prisão.

- E isso é suficiente?

Levantei-me. Estendi a mão em direção à tela, mas parei antes de tocar.

- Não - respondi. - Mas é o começo.

Ele assentiu. Desativou o contrato.

- Amanhã - disse. - Faremos isso oficialmente. Com advogados. Testemunhas. Tudo limpo.

- Amanhã - repeti.

Caminhei até a porta. Antes de sair, virei-me.

- Adriano?

- Sim.

- Isso não é pessoal... - comecei.

- Nunca é - ele completou.

Sustentei o olhar dele por um instante a mais.

- Então por que parece tanto?

Não esperei resposta.

Saí do escritório com o coração disparado, as pernas trêmulas e a estranha certeza de que acabara de aceitar algo que mudaria minha vida para sempre.

A proposta era indecente. Cruel. Calculada. E ainda assim... Era impossível recusar.

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