Estou sentado à mesa de conferências do último andar, rodeado por homens que ajudaram a construir o império Moretti e que agora ensaiam a melhor forma de arrancá-lo de mim. O vidro escuro reflete nossos rostos como uma versão distorcida da realidade: todos iguais, todos atentos, todos falsamente tranquilos.
- Adriano - diz Vittorio Bianchi, presidente do conselho, com a voz untada de falsa cordialidade - precisamos falar sobre estabilidade.
A palavra paira no ar como uma sentença.
- A empresa está sólida - respondo, sem alterar o tom. - Os números comprovam isso.
- Números não são tudo - ele rebate. - Investidores querem previsibilidade. Continuidade.
Previsibilidade. Continuidade. E lá está ela novamente, a narrativa que insiste em me perseguir.
- Está se referindo à minha vida pessoal? - pergunto, apoiando os antebraços na mesa.
Alguns desviam o olhar. Outros sustentam. Vittorio sorri.
- Sua vida pessoal impacta diretamente a imagem do grupo - ele diz. - Sempre impactou.
- Desde quando minha cama é assunto corporativo?
Um murmúrio contido percorre a mesa.
- Desde que você se tornou o rosto do conglomerado - responde outro conselheiro. - Não se trata de moral, Adriano. Trata-se de percepção.
Percepção é poder. E eles sabem disso.
- Recebemos uma notificação - Vittorio continua, deslizando um envelope fino sobre a mesa em minha direção. - Um fundo internacional está reconsiderando o investimento.
Não toco no envelope. Não preciso. Já sei o que está ali.
- O motivo? - pergunto, mesmo assim.
- Falta de estabilidade familiar - ele diz, sem rodeios. - Eles exigem um líder... ancorado.
Ancora. Uma palavra curiosa para algo que, na prática, é uma corrente.
- Isso é chantagem - digo.
- Isso é mercado - ele corrige.
Encaro cada rosto à mesa. Homens casados. Alguns infiéis. Outros infelizes. Todos protegidos por alianças visíveis e sobrenomes herdados.
- E se eu me recusar? - pergunto.
O silêncio responde antes deles.
- Então o fundo se retira - Vittorio diz. - Outros seguirão. E o conselho será forçado a intervir.
Intervir. Uma palavra elegante para golpe interno. A ameaça não pode mais ser ignorada.
Levanto-me devagar. Ajusto o paletó. Não dou a eles o prazer de ver tensão.
- Vocês querem uma esposa - digo. - Não uma mulher.
- Queremos segurança - Vittorio rebate.
- Segurança é ilusão - respondo. - Mas vou entregar a ilusão que desejam.
Alguns respiram aliviados. Outros sorriem cedo demais.
- Tenho trinta dias - continuo. - Depois disso, não quero mais ouvir esse assunto.
- Trinta dias - Vittorio concorda. - Esperamos um anúncio público.
Saio da sala sem esperar resposta.
O elevador desce rápido demais. Meu reflexo no espelho metálico parece mais duro, mais fechado. Não por medo. Por raiva. Eles acham que me encurralaram. Mas esquecem quem ensinou esse jogo a eles.
Quando chego à cobertura, a casa reconhece minha presença instantaneamente. Luzes se ajustam. O silêncio me recebe como um cúmplice fiel. Respiro fundo. É aqui que as decisões reais são tomadas.
Ativo o sistema de segurança máxima e caminho até o escritório. A tela principal se acende automaticamente, exibindo um símbolo que poucos conhecem: o protocolo Sombra.
- Iniciar varredura - ordeno.
Dados começam a fluir. Comunicação interna do conselho. E-mails criptografados. Reuniões fora da agenda. Não demora para que o padrão surja.
Vittorio não age sozinho.
Há um nome recorrente. Um herdeiro ambicioso. Uma aliança antiga que eu ignorei por tempo demais. Eles não querem apenas uma esposa ao meu lado. Querem tempo. Querem que eu abaixe a guarda enquanto reorganizam forças. Mas subestimaram uma coisa... Eu nunca abaixo a guarda.
- Arquivar - digo. - Preparar contramedidas.
O sistema confirma.
Encosto-me na cadeira e fecho os olhos por um segundo. Apenas um. Mais do que isso seria fraqueza.
É quando penso nela.
Lívia Rocha não faz parte desse jogo. Não deveria. Mas, inevitavelmente, será arrastada para ele se aceitar o contrato. E ela ainda não aceitou - não completamente. Ela disse que já tinha me dado uma resposta. Disse que não seria nos termos que eu imagino.
Um sorriso tenso surge nos meus lábios.
Ela não entende a extensão do que está em risco. Ou talvez entenda melhor do que imagino.
Levanto e caminho até a janela. A cidade continua ignorante, pulsando abaixo. Pessoas comuns vivendo ameaças pequenas demais para destruir impérios.
- Nada é pessoal - murmuro.
Mas essa mentira começa a rachar.
Ativo outra chamada. Desta vez, não para um advogado.
- Localize Lívia Rocha - ordeno ao sistema.
- Residente identificada. Localização atual: ala leste, biblioteca secundária.
"Biblioteca... Hm... Curioso. Vou até lá."
A biblioteca é um dos poucos lugares da casa onde o silêncio não é opressor. Livros antigos, poltronas de couro, cheiro de papel e tempo. Lívia está sentada perto da janela, um livro aberto no colo. Não percebe minha presença de imediato. Observo-a por um instante mais longo do que deveria.
Ela não se parece com alguém prestes a entrar em uma guerra silenciosa. Mas guerras não escolhem rostos. Escolhem posições.
- Gosta de Dostoiévski? - pergunto.
Ela ergue o olhar, surpresa contida nos olhos.
- Ele entende o que acontece quando o homem tenta fugir da própria consciência - responde.
Interessante.
- Consciência é um luxo - digo.
- Ou uma maldição - ela rebate, fechando o livro.
Aproximo-me.
- Estive em uma reunião - digo. - O prazo diminuiu.
- Para quê?
- Para tudo.
Ela me encara, atenta.
- Eles não vão parar - continuo. - Vão pressionar, manipular, expor. Não só a mim.
- A mim também - ela conclui.
Assinto.
- Se aceitar, não posso garantir segurança emocional - digo. - Mas posso garantir que ninguém tocará em você.
- Exceto você - ela diz, sem desafio. Apenas com verdade.
Algo se contrai no meu peito.
- Eu não toco no que não posso proteger - respondo.
- E você consegue me proteger de si mesmo?
A pergunta é um golpe limpo. Preciso de um segundo a mais para responder.
- Não sei - admito. - Mas estou disposto a tentar.
O silêncio que se segue não é confortável. É honesto.
- Amanhã - digo - farei o anúncio ao conselho. Com ou sem nome.
Ela se levanta.
- Então é melhor que o nome seja o meu - diz. - Mas não pense que isso me torna sua.
A ameaça real não está no conselho. Nem nos investidores. Nem no mercado. Ela está ali, diante de mim. E, pela primeira vez em muito tempo, é uma ameaça que não posso - e não quero - ignorar.