Virei de um lado para o outro, encarando o teto baixo do quarto de funcionários. As paredes não tinham telas, nem sensores aparentes, mas eu sabia que nada ali era realmente cego. Mesmo assim, permiti-me fechar os olhos e lembrar do jeito como ele me olhou quando pronunciou aquelas sílabas. Não havia desejo. Não havia gentileza. Havia... reconhecimento. E isso era muito mais perigoso.
Levantei antes do horário. Tomei banho rápido, como sempre, mas hoje a água parecia mais fria. Ou talvez fosse eu, tentando esfriar algo que não deveria existir. Vesti o uniforme com mãos firmes, penteei o cabelo num coque discreto e encarei meu reflexo no espelho pequeno.
Eu parecia a mesma. Mas não era. A mulher que entrou no escritório dele no dia anterior não saiu ilesa. Algo foi quebrado - ou aberto - quando ouvi a palavra casamento sair da boca de um homem que nunca falou de sentimentos, nem de futuro, nem de nós.
Nós... A ideia era absurda. Irracional. Impossível. E, ainda assim, meu corpo não reagiu com a repulsa que deveria.
Saí do quarto e percorri os corredores silenciosos. A casa estava calma demais, como um predador à espreita. Passei pela cozinha, organizei o café da manhã, revisei listas mentais. Trabalho é refúgio. Sempre foi..Mas cada passo me levava mais perto dele.
Adriano estava na sala de jantar quando entrei. Sem paletó, camisa escura com as mangas dobradas até o antebraço. Parecia menos intocável assim - e, paradoxalmente, mais perigoso.
Ele não me olhou de imediato.
- Bom dia - disse, a voz baixa.
- Bom dia, senhor.
Coloquei a bandeja sobre a mesa. Café, frutas cortadas, pão. Tudo perfeito. Tudo neutro.
- Dormiu bem? - ele perguntou.
Minha mão tremeu por um milésimo de segundo.
Nunca havia perguntado isso antes.
- Sim - respondi, mesmo sabendo que era mentira.
Ele ergueu os olhos então. Não como quem avalia um objeto, mas como quem observa uma reação.
- Mentir não é necessário comigo, Lívia.
O meu nome outra vez.
Meu estômago se contraiu.
- Desculpe, senhor - murmurei.
- Não se desculpe. - Ele tomou um gole de café. - Prefiro verdades desconfortáveis a mentiras educadas.
Engoli em seco. Verdades desconfortáveis eram especialidade minha, embora eu raramente tivesse permissão para dizê-las em voz alta.
- Não dormi bem - confessei.
Ele assentiu, como se já esperasse por isso.
- Eu também não.
A frase caiu entre nós como algo íntimo demais para ser dito naquele espaço. O silêncio se estendeu, denso, carregado de significados que não ousávamos nomear.
- Pensei que talvez quisesse... - ele começou, depois parou.
Adriano Moretti não parava frases.
- Quisesse o quê? - perguntei, sem conseguir me conter.
Ele me encarou por alguns segundos. Parecia medir não apenas palavras, mas consequências.
- Mostrar-lhe algo.
Assenti.
Seguimos até o escritório. A casa abriu caminho como se obedecesse a uma coreografia invisível. Ele ativou uma tela na parede, e documentos começaram a surgir. Não jurídicos. Não financeiros.
Pessoais.
- Isso é o que o mundo sabe sobre mim - ele disse. - O suficiente para me definir, nunca o suficiente para me conhecer.
Fotos frias, manchetes controladas, eventos públicos calculados. Um homem construído para ser visto, não tocado.
- E isso - continuou, mudando o arquivo - é o que o mundo não pode saber.
Meu coração acelerou.
Havia nomes riscados, documentos confidenciais, decisões tomadas em zonas cinzentas da legalidade. Nada explícito, mas tudo pesado demais para ser ignorado.
- Por que está me mostrando isso? - perguntei.
Ele se aproximou, parando ao meu lado, não à minha frente. Um gesto sutil. Menos dominante.
- Porque, se aceitar, você não será apenas uma peça. Será parte do risco.
Olhei para ele, de verdade, pela primeira vez. Não o CEO. Não o homem que controla tudo. Mas alguém que vive cercado por muros altos demais para permitir qualquer erro.
- E se eu não aceitar? - perguntei.
- Então isso nunca existiu - respondeu. - Sua dívida será resolvida. Você poderá ir embora. Sem consequências.
O alívio deveria ter vindo. Não veio.
- E por que isso soa como uma ameaça disfarçada de gentileza? - arrisquei.
Ele sorriu de leve. Um sorriso cansado.
- Porque eu não sei ser gentil sem cálculo.
Houve algo quase honesto nisso.
- Você disse que nada é pessoal - falei.
- Disse.
- Então por que me chamar pelo nome?
A pergunta escapou antes que eu pudesse impedir.
O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os outros. Não era tenso. Era exposto.
- Porque contratos são impessoais - ele disse devagar. - Mas pessoas não são.
Meu peito apertou.
- E isso é um problema para você?
- Sim - respondeu, sem hesitar. - Mas estou acostumado a lidar com problemas.
Aproximei-me da tela, fingindo analisar documentos que já não faziam sentido. Minha mente estava longe dali, presa à forma como ele dizia meu nome como se estivesse testando seus limites.
- Se eu aceitar - comecei -, não será porque você pode pagar minha dívida.
Ele me observava com atenção absoluta.
- Será por quê, então?
Virei-me para ele.
- Porque, pela primeira vez desde que cheguei aqui, alguém me vê como escolha. Não como função.
Algo atravessou o olhar dele. Não sei nomear. Talvez surpresa. Talvez respeito.
- Pense com cuidado - disse. - O que estou oferecendo não é um conto de fadas.
- Eu sei - respondi. - Contos de fadas não têm cláusulas ocultas.
Um canto da boca dele se curvou, quase um sorriso.
- Você é mais perspicaz do que aparenta.
- Eu sobrevivo sendo.
Ele assentiu.
- Amanhã, preciso da sua resposta.
- Você já a tem - falei, antes de pensar melhor.
Ele ergueu uma sobrancelha.
- Tem certeza?
Respirei fundo. A casa observava. Sempre observaria. Mas, pela primeira vez, senti que não estava sozinha dentro dela.
- Sim - disse. - Mas não nos termos que você imagina.
O olhar dele se intensificou, algo perigoso e curioso se misturando ali.
- Então teremos uma negociação interessante, Lívia.
Meu nome outra vez. Não como ordem. Não como ameaça. Como início. E naquele instante, entendi: o dia em que ele me chamou pelo nome foi o dia em que deixei de ser invisível. E isso mudaria tudo.