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Contrato de Silêncio
img img Contrato de Silêncio img Capítulo 3 O dia em que ele me chama pelo nome
3 Capítulo
Capítulo 6 Ela é a escolha certa img
Capítulo 7 As cláusulas que me prendem img
Capítulo 8 Controle absoluto img
Capítulo 9 Assinar é cruzar um limite img
Capítulo 10 Um casamento sem emoção img
Capítulo 11 Conflito interno img
Capítulo 12 A primeira noite sob o mesmo teto img
Capítulo 13 O silêncio que me desestabiliza img
Capítulo 14 A mídia, o anel e a mentira img
Capítulo 15 A esposa perfeita no papel img
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Capítulo 3 O dia em que ele me chama pelo nome

Lívia

Passei a noite acordada. Não porque a cama fosse desconfortável - embora fosse -, mas porque o silêncio nunca foi tão barulhento. A casa, que sempre me observou com indiferença mecânica, parecia agora atenta demais. Como se tivesse entendido que algo em mim havia mudado e estivesse curiosa para ver até onde isso iria.

Adriano Moretti havia dito meu nome. Não "funcionária". Não "ela". Não um pedido seco ou uma ordem velada. Meu nome... Lívia. O som ainda ecoava dentro de mim como um toque que não aconteceu, mas deixou marca.

Virei de um lado para o outro, encarando o teto baixo do quarto de funcionários. As paredes não tinham telas, nem sensores aparentes, mas eu sabia que nada ali era realmente cego. Mesmo assim, permiti-me fechar os olhos e lembrar do jeito como ele me olhou quando pronunciou aquelas sílabas. Não havia desejo. Não havia gentileza. Havia... reconhecimento. E isso era muito mais perigoso.

Levantei antes do horário. Tomei banho rápido, como sempre, mas hoje a água parecia mais fria. Ou talvez fosse eu, tentando esfriar algo que não deveria existir. Vesti o uniforme com mãos firmes, penteei o cabelo num coque discreto e encarei meu reflexo no espelho pequeno.

Eu parecia a mesma. Mas não era. A mulher que entrou no escritório dele no dia anterior não saiu ilesa. Algo foi quebrado - ou aberto - quando ouvi a palavra casamento sair da boca de um homem que nunca falou de sentimentos, nem de futuro, nem de nós.

Nós... A ideia era absurda. Irracional. Impossível. E, ainda assim, meu corpo não reagiu com a repulsa que deveria.

Saí do quarto e percorri os corredores silenciosos. A casa estava calma demais, como um predador à espreita. Passei pela cozinha, organizei o café da manhã, revisei listas mentais. Trabalho é refúgio. Sempre foi..Mas cada passo me levava mais perto dele.

Adriano estava na sala de jantar quando entrei. Sem paletó, camisa escura com as mangas dobradas até o antebraço. Parecia menos intocável assim - e, paradoxalmente, mais perigoso.

Ele não me olhou de imediato.

- Bom dia - disse, a voz baixa.

- Bom dia, senhor.

Coloquei a bandeja sobre a mesa. Café, frutas cortadas, pão. Tudo perfeito. Tudo neutro.

- Dormiu bem? - ele perguntou.

Minha mão tremeu por um milésimo de segundo.

Nunca havia perguntado isso antes.

- Sim - respondi, mesmo sabendo que era mentira.

Ele ergueu os olhos então. Não como quem avalia um objeto, mas como quem observa uma reação.

- Mentir não é necessário comigo, Lívia.

O meu nome outra vez.

Meu estômago se contraiu.

- Desculpe, senhor - murmurei.

- Não se desculpe. - Ele tomou um gole de café. - Prefiro verdades desconfortáveis a mentiras educadas.

Engoli em seco. Verdades desconfortáveis eram especialidade minha, embora eu raramente tivesse permissão para dizê-las em voz alta.

- Não dormi bem - confessei.

Ele assentiu, como se já esperasse por isso.

- Eu também não.

A frase caiu entre nós como algo íntimo demais para ser dito naquele espaço. O silêncio se estendeu, denso, carregado de significados que não ousávamos nomear.

- Pensei que talvez quisesse... - ele começou, depois parou.

Adriano Moretti não parava frases.

- Quisesse o quê? - perguntei, sem conseguir me conter.

Ele me encarou por alguns segundos. Parecia medir não apenas palavras, mas consequências.

- Mostrar-lhe algo.

Assenti.

Seguimos até o escritório. A casa abriu caminho como se obedecesse a uma coreografia invisível. Ele ativou uma tela na parede, e documentos começaram a surgir. Não jurídicos. Não financeiros.

Pessoais.

- Isso é o que o mundo sabe sobre mim - ele disse. - O suficiente para me definir, nunca o suficiente para me conhecer.

Fotos frias, manchetes controladas, eventos públicos calculados. Um homem construído para ser visto, não tocado.

- E isso - continuou, mudando o arquivo - é o que o mundo não pode saber.

Meu coração acelerou.

Havia nomes riscados, documentos confidenciais, decisões tomadas em zonas cinzentas da legalidade. Nada explícito, mas tudo pesado demais para ser ignorado.

- Por que está me mostrando isso? - perguntei.

Ele se aproximou, parando ao meu lado, não à minha frente. Um gesto sutil. Menos dominante.

- Porque, se aceitar, você não será apenas uma peça. Será parte do risco.

Olhei para ele, de verdade, pela primeira vez. Não o CEO. Não o homem que controla tudo. Mas alguém que vive cercado por muros altos demais para permitir qualquer erro.

- E se eu não aceitar? - perguntei.

- Então isso nunca existiu - respondeu. - Sua dívida será resolvida. Você poderá ir embora. Sem consequências.

O alívio deveria ter vindo. Não veio.

- E por que isso soa como uma ameaça disfarçada de gentileza? - arrisquei.

Ele sorriu de leve. Um sorriso cansado.

- Porque eu não sei ser gentil sem cálculo.

Houve algo quase honesto nisso.

- Você disse que nada é pessoal - falei.

- Disse.

- Então por que me chamar pelo nome?

A pergunta escapou antes que eu pudesse impedir.

O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os outros. Não era tenso. Era exposto.

- Porque contratos são impessoais - ele disse devagar. - Mas pessoas não são.

Meu peito apertou.

- E isso é um problema para você?

- Sim - respondeu, sem hesitar. - Mas estou acostumado a lidar com problemas.

Aproximei-me da tela, fingindo analisar documentos que já não faziam sentido. Minha mente estava longe dali, presa à forma como ele dizia meu nome como se estivesse testando seus limites.

- Se eu aceitar - comecei -, não será porque você pode pagar minha dívida.

Ele me observava com atenção absoluta.

- Será por quê, então?

Virei-me para ele.

- Porque, pela primeira vez desde que cheguei aqui, alguém me vê como escolha. Não como função.

Algo atravessou o olhar dele. Não sei nomear. Talvez surpresa. Talvez respeito.

- Pense com cuidado - disse. - O que estou oferecendo não é um conto de fadas.

- Eu sei - respondi. - Contos de fadas não têm cláusulas ocultas.

Um canto da boca dele se curvou, quase um sorriso.

- Você é mais perspicaz do que aparenta.

- Eu sobrevivo sendo.

Ele assentiu.

- Amanhã, preciso da sua resposta.

- Você já a tem - falei, antes de pensar melhor.

Ele ergueu uma sobrancelha.

- Tem certeza?

Respirei fundo. A casa observava. Sempre observaria. Mas, pela primeira vez, senti que não estava sozinha dentro dela.

- Sim - disse. - Mas não nos termos que você imagina.

O olhar dele se intensificou, algo perigoso e curioso se misturando ali.

- Então teremos uma negociação interessante, Lívia.

Meu nome outra vez. Não como ordem. Não como ameaça. Como início. E naquele instante, entendi: o dia em que ele me chamou pelo nome foi o dia em que deixei de ser invisível. E isso mudaria tudo.

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