O nome apareceu como um sussurro.
Não foi dito em voz alta para ela.
Não veio em forma de acusação, nem de explicação direta.
Veio pior - veio como algo óbvio demais para precisar ser explicado.
Helena estava sentada na sala, com uma xícara de café intacta entre as mãos, quando ouviu a mãe conversando ao telefone na cozinha.
- Sim... eu sei... - a voz vinha baixa, cansada. - A Lívia... sim, a mesma... dizem que o estado dela piorou muito.
Helena não se mexeu.
Mas algo dentro dela ficou rígido.
Lívia.
O nome que sempre existiu como uma sombra educada no passado de Caio Montenegro.
A história antiga. O amor juvenil. A mulher que "marcou a vida dele".
A mulher que, aparentemente, ainda marcava.
- Não, não acho justo - continuou a mãe. - Helena não merecia isso... ninguém merece.
Helena fechou os olhos.
Não era a primeira vez que ouvia aquele nome associado a cuidado, fragilidade, compaixão.
Sempre havia um tom especial quando Caio falava de Lívia Dornelles.
Nunca explícito. Nunca exagerado.
Mas presente.
Ela passou por muita coisa.
Ela sempre foi muito sensível.
Eu me sinto responsável por ela.
Responsável.
Como se o passado fosse uma dívida eterna.
O celular vibrou em cima da mesa.
Helena hesitou antes de pegar.
Uma mensagem de um número desconhecido.
Helena, eu sei que você deve me odiar agora. Mas eu precisava dizer que sinto muito. Nunca foi minha intenção causar dor.
O coração dela bateu errado.
Ela releu a mensagem três vezes.
Não havia assinatura.
Mas não precisava.
Outro aviso apareceu logo abaixo.
Sei que você não pediu por isso. Eu também não pedi para ficar doente. Caio só quis fazer o que achou certo.
Helena sentiu um frio percorrer a espinha.
Aquilo não era um pedido de desculpas.
Era uma explicação.
E explicações costumam vir carregadas de justificativas.
Ela digitou lentamente.
Quem é você?
A resposta veio quase imediata.
Lívia.
O nome ocupou a tela inteira do celular, pesado demais para caber em cinco letras.
Helena apoiou o aparelho na mesa, como se precisasse de distância.
Não havia agressividade nas mensagens.
Não havia insulto.
Não havia ataque direto.
Era isso que tornava tudo mais cruel.
Lívia Dornelles não parecia uma vilã.
Parecia uma vítima.
Caio está aqui comigo no hospital. Ele não saiu do meu lado desde ontem, dizia a próxima mensagem.
Ele está exausto... mas é assim que ele é. Sempre cuida de quem ama.
De quem ama.
Helena sentiu o gosto amargo subir pela garganta.
Então era assim que seria contado.
Não como abandono.
Mas como sacrifício.
Ela não respondeu.
Mas Lívia continuou.
Espero que, um dia, você consiga me perdoar. Eu jamais faria algo para machucar você de propósito.
Helena desligou o celular.
Caminhou até o quarto e sentou-se na beira da cama, sentindo o peso de uma compreensão lenta e dolorosa se formar.
Lívia não precisava tirar Caio dela.
Ele já estava inclinado a ir.
Não havia gritos.
Não havia disputa aberta.
Havia apenas uma mulher frágil o suficiente para ser protegida... e outra forte demais para ser deixada para trás.
E naquele silêncio, Helena entendeu algo que ninguém havia dito em voz alta:
O casamento nunca aconteceu porque, no coração de Caio Montenegro, ele nunca havia terminado o outro.
Ela respirou fundo.
As lágrimas não vieram.
No lugar delas, algo novo começou a se formar - ainda frágil, ainda confuso, mas firme o bastante para não quebrar.
Ela não sabia quando, nem como.
Mas sabia de uma coisa.
Não seria Lívia Dornelles quem a destruiria.
E tampouco seria Caio.