Ele estava encostado no capô, vestindo roupas simples demais para alguém que, dias antes, deveria estar de terno diante de um altar. O rosto parecia abatido, os olhos fundos, a barba por fazer. Para quem observasse de longe, era fácil vê-lo como a vítima da própria decisão.
Helena parou por um instante.
Respirou fundo.
E seguiu.
- Precisamos conversar - ele disse assim que ela se aproximou.
Ela não respondeu. Apenas destrancou a porta e entrou. Caio a seguiu, fechando atrás de si com cuidado excessivo, como se aquele detalhe pudesse suavizar o que havia feito.
O silêncio entre eles era pesado.
- Eu sei que você está magoada - começou ele, passando a mão pelos cabelos. - Mas as coisas não são tão simples quanto parecem.
Helena virou-se lentamente.
- Não são? - perguntou, a voz firme demais para quem havia sido destruída dias antes. - Você não apareceu no nosso casamento. Me deixou sozinha. E agora o mundo inteiro acha que você é um herói.
Caio engoliu em seco.
- A Lívia está muito mal - disse. - Eu achei que fosse perdê-la.
- E achou aceitável me perder no processo?
Ele abriu a boca, fechou de novo. Caminhou alguns passos pela sala, como se procurasse as palavras certas.
- Eu não planejei aquilo - respondeu. - Nada daquilo. Mas você sabe o que ela significa para mim. O que nós tivemos...
- Eu sei - Helena interrompeu. - Sempre soube.
Foi isso que doeu mais.
Ela sabia.
- Então por que está agindo como se eu tivesse escolhido isso? - insistiu ele. - Eu estava dividido. Pressionado. Foi uma decisão impossível.
Helena deu um pequeno sorriso, sem humor.
- Não, Caio. Decisões impossíveis são aquelas em que qualquer escolha machuca alguém. Você fez uma escolha confortável para você.
Ele franziu o cenho.
- Isso não é justo.
- Justo? - ela repetiu, sentindo algo quente se espalhar no peito. - Você me deixou esperando diante de cento e cinquenta pessoas. Me transformou em notícia, em comentário, em julgamento. E agora quer que eu entenda?
- Eu nunca quis te humilhar.
- Mas humilhou.
O silêncio voltou a se instalar.
Caio respirou fundo.
- Eu ainda me importo com você - disse, por fim. - Não foi o fim de tudo. A gente pode... conversar com calma. Quando tudo isso passar.
Helena sentiu algo se quebrar de vez.
- Você quer que eu espere - disse, devagar. - De novo.
Ele não negou.
E isso foi suficiente.
- Eu não sou mais essa mulher - continuou ela. - A que espera enquanto você decide quem é prioridade.
Caio deu um passo à frente.
- Eu só preciso de tempo.
- E eu preciso de dignidade.
Ela abriu a porta.
- Vai embora, Caio.
Ele hesitou.
- Helena...
- Vai - repetiu, sem elevar a voz.
Caio saiu.
E, pela primeira vez desde o dia do casamento, ela fechou a porta sem chorar.
Do outro lado da rua, alguém observava.
Ele estava parado próximo ao próprio carro, discreto demais para chamar atenção, mas atento o suficiente para perceber o tremor contido nos ombros dela quando a porta se fechou.
Enzo Ferraz.
O nome ainda não fazia sentido para Helena. Mas ele a conhecia. Não pessoalmente - não ainda -, mas o suficiente para reconhecer a dor que não precisava ser anunciada.
Ele havia ido ali por outro motivo. Um assunto profissional, um compromisso rápido, algo que poderia ter sido resolvido em outro dia.
Mas agora permanecia imóvel.
Vira Caio sair com o rosto fechado.
Vira Helena fechar a porta com firmeza demais para alguém frágil.
E aquilo o intrigou.
Não era uma mulher quebrada.
Era uma mulher tentando se recompor.
Enzo não se aproximou.
Não interferiu.
Não perguntou nada.
Apenas entrou no carro e partiu, levando consigo a imagem daquela mulher que havia sido deixada...
e ainda assim permanecia de pé.
Helena encostou as costas na porta e fechou os olhos.
Ela não sabia que estava sendo observada.
Mas, naquele instante, sem perceber, o destino começava a se mover em silêncio.