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Capítulo 2 01

Lia

Acordei no dia seguinte com um turbilhão de pensamentos embaralhados.

Na verdade, não cheguei a dormir. Toda vez que fechava os olhos, via meus pais sorrindo - meu pai com aquele jeito calmo, minha mãe falando demais - e, no segundo seguinte, tudo se misturava ao barulho do impacto, ao vidro estilhaçando, ao silêncio pesado que veio depois. Meu corpo parecia cansado demais para levantar, mas minha mente não me deixava descansar.

Hoje seria o velório.

Sentei na cama, respirei fundo e me obriguei a levantar. Abri a mala ainda meio desorganizada e escolhi um vestido preto, simples, que ia um pouco abaixo dos joelhos. Não pensei muito. Nada parecia certo de qualquer forma. Separei também uma toalha e minhas coisas e segui pelo corredor silencioso até o banheiro do fundo da casa.

A água fria do chuveiro caiu sobre mim como um choque necessário. Fiquei ali mais tempo do que o normal, tentando afastar a confusão que insistia em se agarrar aos meus pensamentos. O rosto da minha mãe, a voz do meu pai, a sensação de que tudo tinha acabado rápido demais.

Meus pais seriam enterrados ali mesmo, em Serra Clara.

Era a cidade natal do meu pai. E, no fundo, eu sabia que minha mãe teria concordado. Onde ele estivesse, ela estaria também.

Saí do banho, me vesti devagar e voltei para o quarto. Deixei as coisas sobre a cama, peguei o celular - dezenas de mensagens não lidas - e desci as escadas.

As vozes vinham da sala.

- Ian, você está pronto? - ouvi a voz do marido da minha tia.

- Sim.

- Nunca vi você tão elegante - Ana comentou. - Tem que se arrumar assim mais vezes.

- Ana, você sabe muito bem que, nas férias, minha roupa é a mais confortável possível - ele respondeu, num tom contido. - Estou de férias, não na faculdade.

- Está bem, está bem... - ela suspirou. - Só estou dizendo que você fica muito mais bonito social.

Desci o último degrau.

Eles se viraram para mim quase ao mesmo tempo.

Ian estava diferente. Usava roupa social escura, simples, mas bem ajustada. Nada exagerado. Ainda assim, havia algo nele que chamava atenção - talvez o contraste entre a formalidade e o jeito naturalmente despretensioso.

- Você está linda, querida - Leo disse.

Apenas sorri, sem mostrar os dentes, em agradecimento.

- Não quer pôr um scarpin preto? - Ana sugeriu.

- Ana, pelo amor de Deus... - Leo revirou os olhos.

- Não, tia - respondi, antes de pensar. - Estou indo para um funeral, não para um desfile de moda.

O silêncio caiu rápido demais.

Ian soltou uma risada curta, quase involuntária, e levou a mão à boca como se tentasse disfarçar.

- Lia! - Ana me repreendeu.

- Deixe a menina - Leo disse, já caminhando em direção à porta. - Vamos logo.

Ana suspirou, claramente contrariada, e foi atrás dele.

- Quer ir comigo? - Ian perguntou, antes que saíssemos. - Na minha caminhonete.

- Obrigada - respondi.

Ele sorriu de leve, sem mostrar os dentes.

---

O caminho até o cemitério foi silencioso.

A caminhonete avançava devagar pelas ruas de Serra Clara, ainda meio vazias naquela manhã. Eu observava a cidade pela janela: as casas baixas, as árvores, o céu limpo demais para um dia como aquele.

Ian mantinha as duas mãos no volante, o olhar fixo à frente. Não parecia desconfortável com o silêncio - talvez até preferisse assim.

- Sinto muito - ele disse, depois de um tempo. - Pelo que aconteceu.

- Obrigada - respondi.

Nada mais foi dito.

Quando chegamos, o lugar já estava cheio.

Amigos antigos do meu pai, parentes distantes, pessoas que eu mal conhecia. Serra Clara tinha esse jeito estranho de reunir todo mundo quando algo acontecia.

O caixão do meu pai estava ao lado do da minha mãe.

Ver os dois ali foi como levar um golpe direto no peito.

Minhas pernas tremeram.

Ana segurou meu braço, dizendo algo que eu não ouvi direito. Eu apenas caminhei, passo por passo, até ficar de frente para eles.

Parei.

Respirei.

E então tudo veio de uma vez.

O choro não foi bonito. Não foi contido. Foi alto, dolorido, rasgando tudo por dentro. Senti braços ao meu redor - da minha tia, de alguém que eu não identifiquei - mas, por um instante, só existiam meus pais e aquele vazio impossível de preencher.

As pessoas falavam, se aproximavam, diziam palavras que soavam todas iguais.

Eles estão em um lugar melhor.

Foram pessoas incríveis.

Seja forte.

Eu apenas assentia.

Ian ficou um pouco mais afastado, respeitoso. Eu o vi conversar com um menino em algum momento, os dois sérios demais para o normal. O menino me olhou rápido, como se quisesse dizer algo, mas não se aproximou.

Quando chegou a hora do enterro, senti o chão desaparecer sob meus pés.

Vi os caixões serem baixados.

E ali, finalmente, entendi.

Eles não voltariam.

Quando tudo terminou, restava apenas o cansaço.

Voltamos para casa em silêncio.

Dessa vez, fui com minha tia e Leo.

A casa parecia ainda maior quando entramos. Vazia demais. Organizada demais.

Subi para o quarto e me sentei na cama, encarando a parede.

Algumas batidas leves soaram na porta.

- Posso entrar? - era a voz do Ian.

Assenti.

Ele entrou devagar.

- O Theo vai passar aqui mais tarde - disse. - Vamos pra um lual na praia, sei que não é o momento, mas gostaria que fosse.

- Obrigada. - Pensei em recusar, porém...- Okay.

Ele ficou ali, parado por alguns segundos, como se não soubesse exatamente o que fazer.

- Se precisar de alguma coisa... - começou.

- Eu sei - interrompi, com a voz baixa.

Ele assentiu.

- Vou estar lá embaixo.

Quando a porta se fechou, me permiti chorar de novo.

Não era apenas pelos meus pais.

Era pela vida que eu tinha perdido.

E pela sensação incômoda de que, a partir daquele momento, tudo seria diferente.

Serra Clara não era só um lugar.

Era o começo de algo que eu ainda não conseguia entender.

---

IAN

Eu estava na sala com Theo, jogados no sofá como se aquele fosse apenas mais um dia comum de férias. A TV ligada em volume baixo, passando qualquer coisa irrelevante, e nossos celulares largados de lado. Mas nada ali era comum.

Eu sabia que Lia estava vindo.

E, mesmo sem entender direito o peso daquilo, eu sentia que algo na casa tinha mudado desde o acidente. O ar parecia mais denso, como se as paredes escutassem. Como se o silêncio tivesse aprendido a gritar.

- Ela demora assim mesmo? - Theo perguntou, quebrando o silêncio.

- Não sei - respondi. - Acho que hoje qualquer coisa deve ser difícil.

Eu não sabia como era perder um pai. Muito menos os dois de uma vez. A única coisa que eu podia fazer era estar disponível. Levar, buscar, abrir portas. Não perguntar demais. Não invadir.

Ouvi batidas na porta.

Levantei no mesmo instante. Quando abri, uma garota alta, loira, de olhos azuis claros e expressão completamente assustada estava ali, segurando a alça da bolsa como se fosse a única coisa que a mantinha de pé.

- A Lia está? - perguntou, sem rodeios.

- Sim... - respondi, antes mesmo de perguntar quem era ou convidá-la a entrar.

- Mila? - a voz de Lia ecoou atrás de mim.

A garota passou por mim sem hesitar. As duas se encontraram no meio da sala e se abraçaram com uma força que não combinava com a fragilidade daquele momento. Foi um abraço desesperado, de quem tenta impedir o mundo de desmoronar de vez.

- Me desculpa... - Mila dizia, com a voz embargada. - Me desculpa por não ter chegado a tempo. O voo atrasou, tempestade... ai, amiga... meu Deus. Eu sinto muito.

- Mila... - Lia respondeu, a voz baixa, trêmula, mas sem chorar.

Aquilo me partiu mais do que se ela tivesse desabado ali mesmo.

- Eu tô aqui agora - Mila continuou, segurando o rosto de Lia entre as mãos. - Meus pais compraram uma casa aqui. Eu vou ficar com você o tempo que for preciso.

- O quê? Você tá louca? - Lia tentou sorrir, mas não conseguiu. - E a sua vida?

- A minha vida pode esperar. Você não.

Fiquei observando em silêncio. Aquela amizade me arrancou um sorriso involuntário. Era exatamente como eu e Theo. Quando tudo dá errado, você só precisa de alguém que fique.

- Você tá linda - Mila comentou, enfim reparando na roupa de Lia. - Pra onde vai assim?

- Ian me convenceu a ir a um lual com ele e o Theo - Lia respondeu, apontando discretamente para mim.

Mila arqueou a sobrancelha, avaliando.

- Então eu vou junto. - Ela olhou pra mim. - Se puder, claro... - disse ela com um olhar de cachorro pidão.

- Claro que pode - Theo respondeu rápido demais. Rápido o suficiente pra me fazer virar a cabeça e encará-lo.

Ele já tinha se interessado. Era óbvio.

- Então vamos - falei, pegando a chave da camionete.

Seguimos para fora. Theo sentou ao meu lado, as meninas atrás. Dei partida e seguimos em direção à praia.

A estrada estava quase vazia. As luzes dos postes refletiam no asfalto, e o cheiro de maresia entrava pelas janelas abertas. O som baixo de uma música qualquer preenchia o espaço, mas ninguém parecia disposto a conversar.

Olhei pelo retrovisor.

Lia observava tudo em silêncio, abraçada aos próprios joelhos, enquanto Mila segurava sua mão com firmeza.

Chegamos ao lual.

Fogueiras espalhadas pela areia, gente rindo, violões tocando, o som das ondas quebrando logo ali. Vida acontecendo. Normalidade demais para quem tinha acabado de perder tudo.

- Se quiser ir embora a qualquer momento, é só me avisar - falei baixo para Lia.

Ela assentiu.

Sentamos perto de uma das fogueiras. Theo e Mila se afastaram quase imediatamente, rindo de alguma coisa boba. Fiquei ali, ao lado de Lia, sem saber exatamente o que dizer.

- Obrigada por insistir - ela disse, depois de um tempo.

- Não precisa agradecer.

O fogo refletia nos olhos dela. Bonita. Muito. Mas cansada. Triste de um jeito profundo.

- Às vezes parece errado sorrir - ela confessou. - Como se eu estivesse traindo eles.

Engoli em seco.

- Acho que eles não iriam querer isso - respondi. - Acho que iriam querer você vivendo.

Ela me olhou, surpresa.

- Você fala como se soubesse.

- Eu não sei - admiti. - Mas... é o que eu gostaria que fizessem por mim.

Ficamos em silêncio novamente.

O violão começou a tocar mais alto. Alguém cantava desafinado. Pessoas dançavam. A vida insistia em continuar.

Lia respirou fundo.

- Serra Clara é bonita - ela disse.

- É - concordei. - Às vezes dói ficar. Às vezes salva.

Ela sorriu de leve. O primeiro sorriso real que vi nela desde que chegou.

Naquele momento, eu entendi uma coisa.

Eu não precisava consertar nada.

Apenas precisava ficar ali com ela, só escutar e ajudar ela a viver sem eles presentes.

{...}

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