Abri os olhos e encarei o teto.
Aquilo não era só constrangimento.
Havia algo ali. Um peso no ar. Um fio invisível que esticava sempre que ficávamos próximos demais, mesmo quando ninguém dizia nada. E eu podia tentar me convencer de que era coisa da minha cabeça, do luto, da confusão... mas não era só isso.
Era mútuo.
Talvez não consciente. Talvez não assumido. Mas nítido.
Caminhei até a cama e sentei devagar, ainda enrolada na toalha. O quarto estava silencioso demais, abafado, quente. Serra Clara tinha esse jeito estranho de misturar brisa de mar com calor preso nas paredes.
Meu celular vibrou sobre o colchão.
Peguei quase no susto, como se qualquer distração fosse bem-vinda naquele momento.
Mila.
> "Desculpa, amiga. Eu e o Theo viemos pra casa. Não dava pra deixar um cara desses passar."
Revirei os olhos, apesar de um sorriso involuntário puxar meus lábios.
> "Você não existe. Por que não sossega?"
"Detalhe importante: deixei a toalha cair na frente do Ian. Não sei onde enfiar a cara."
A resposta veio rápida demais, como sempre.
> "Amiga... isso explica muita coisa."
Suspirei, já imaginando o que viria depois.
> "Mila."
> "Calma, calma. Mas vamos combinar? A tensão entre vocês dois dá pra cortar com faca."
Fechei os olhos.
> "Você está exagerando."
> "Estou sendo sincera. E você sabe."
Mordi o lábio, inquieta.
> "Boa noite, Mila. Vou tentar dormir."
> "Boa noite, amor. E para de fingir que não sente nada."
Bloqueei a tela antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa.
Joguei o celular ao lado do travesseiro e me deitei de costas, ainda de toalha mesmo. Estava quente demais para pensar em pijama, e minha cabeça estava cheia demais para me importar.
Fiquei encarando o teto branco, tentando organizar o turbilhão dentro de mim.
Meus pais.
O acidente.
A casa vazia que ficou para trás.
A tia Ana, com aquele olhar controlador, sufocante.
E Ian.
Sempre Ian.
Gentil demais. Atento demais. Presente demais para alguém que não tinha obrigação nenhuma comigo. Ele não perguntava o que eu sentia, não tentava me arrancar palavras, não me olhava com pena. Apenas ficava. Como se isso fosse suficiente.
E talvez fosse.
Virei de lado, abraçando o travesseiro.
Era errado sentir qualquer coisa agora. Errado demais. Eu ainda estava em luto. Ainda doía respirar em alguns momentos. Ainda tinha noites em que acordava achando que tudo tinha sido um pesadelo.
Então por que, no meio de tudo isso, meu corpo reagia à simples lembrança dele parado no corredor?
Por que meu coração acelerava quando ele chegava perto?
Suspirei fundo, sentindo os olhos arderem.
Talvez fosse só confusão.
Talvez fosse carência.
Talvez fosse o caos tentando se agarrar a qualquer coisa que parecesse firme.
Levantei da cama e fui até a janela. Abri um pouco para deixar o ar entrar. O som distante do mar chegava suave, constante, como um lembrete de que o mundo seguia em movimento, mesmo quando tudo dentro de mim parecia parado.
Lá embaixo, a casa estava silenciosa.
Ian devia estar no banho. Ou no quarto. Evitando cruzar comigo depois do ocorrido.
E eu agradecia por isso.
Não porque não quisesse vê-lo - mas porque, naquele momento, eu não confiava em mim mesma para lidar com tudo o que sentia.
Voltei para a cama e me deitei de lado outra vez, puxando o lençol até a cintura.
Fechei os olhos.
Talvez Serra Clara não fosse apenas um lugar de recomeços forçados.
Talvez fosse o lugar onde eu aprenderia, aos poucos, que sentir não era uma traição à dor. Que seguir respirando não significava esquecer.
E que algumas pessoas entram na nossa vida não para salvar, nem para curar -
mas simplesmente para ficar.
E, naquela noite, enquanto o sono finalmente começava a me alcançar, percebi que isso...
já era mais do que eu tinha forças para ignorar.
---
IAN
Muitas coisas estavam em jogo.
Eu estava deitado na cama, os braços jogados ao lado do corpo, encarando o teto como se ele pudesse me dar alguma resposta. A casa estava silenciosa demais, e aquele silêncio não trazia paz - só fazia meus pensamentos ecoarem mais alto.
Lia.
O nome dela surgia na minha mente sem convite, sem aviso, como uma maré que sobe quando você menos espera. Eu tentava pensar em qualquer outra coisa. Na faculdade. No mar. Em surf. Em Theo falando besteira. Em qualquer coisa que não fosse o olhar dela quando saiu do banheiro, assustada, vulnerável... humana demais.
Droga.
Passei a mão pelo rosto, respirando fundo. Meu corpo estava tenso, alerta, como se algo tivesse sido despertado sem permissão, minha ereção era nítida, visivelmente dura, as veias saltavam, e o pensamento era nela. Lia.
Não era só desejo. Era confusão. Era impulso. Era aquela vontade perigosa de proteger, de ficar perto, de ser mais do que eu deveria.
E isso era o que mais me assustava.
Em um único dia.
Um dia.
Era tudo o que ela estava ali, e eu já sentia como se tivesse ultrapassado uma linha invisível. Não em atitude - ainda não - mas em pensamento. E isso já era grave o suficiente.
Ela era menor.
Essa frase martelava na minha cabeça como um aviso em neon.
Menor.
Frágil.
De luto.
E eu sabia disso. Sabia desde o começo. Sabia desde o momento em que meu pai disse que Lia viria morar conosco. Desde o instante em que prometi ao meu pai que seria gentil. Que cuidaria. Que protegeria.
Gentil não significa confundir.
Mas o problema era esse: eu não estava pensando em levá-la para a minha cama.
Se fosse só isso, talvez fosse mais simples. Desejo passa. Corpo se controla. Vontade se reprime.
O problema era que eu queria mais do que isso.
Queria que ela confiasse em mim.
Queria ser o lugar seguro quando o mundo dela desabasse.
Queria ouvir quando ela resolvesse falar.
Queria ficar quando todo mundo fosse embora.
E esse tipo de querer não tinha nada de simples.
Virei de lado na cama, encarando a parede agora. O quarto parecia pequeno demais para tantos pensamentos. Lembrei da conversa com Ana no corredor. Do jeito como ela segurou meu braço, como se estivesse me acusando de algo que eu ainda não tinha feito.
"Ela não é essas garotas da cidade."
Como se eu fosse algum tipo de predador.
Fechei os olhos com força.
Eu nunca a toquei.
Nunca faria.
Nunca faria nada que a colocasse em risco.
Mas Ana tinha razão em uma coisa, mesmo sem perceber.
Lia estava machucada.
E dor confunde.
Dor cria vínculos perigosos, carências profundas, necessidades silenciosas. Eu já tinha visto isso antes, em outras pessoas, em outros contextos. E o último lugar onde alguém como ela deveria se apoiar era em mim.
Então por que era tão difícil manter distância?
Suspirei, sentando na cama. Passei a mão pelos cabelos, bagunçando ainda mais.
A imagem dela vinha em flashes: sentada ao meu lado na fogueira, olhando o fogo como se estivesse tentando entender o próprio mundo; correndo em direção ao mar, rindo por alguns segundos; enfrentando Ana com uma firmeza que não combinava com alguém tão jovem.
Ela era forte.
Muito mais do que aparentava.
E talvez fosse isso que me atraía tanto.
Não a fragilidade - mas a resistência.
Me levantei e fui até a janela, abrindo um pouco para deixar o ar entrar. O som distante do mar me alcançou, constante, quase um lembrete de quem eu era antes de tudo ficar complicado demais.
Surf.
Liberdade.
Horizonte aberto.
Serra Clara sempre foi simples pra mim. Previsível. Pequena.
Até Lia chegar.
Agora tudo parecia fora de lugar.
Encostei a testa no vidro frio, respirando fundo. Eu precisava estabelecer limites. Claros. Firmes. Inquebráveis. Precisava lembrar quem eu era naquela história: o filho do marido da tia dela. O cara mais velho. O cara responsável.
Não o refúgio emocional de uma garota em luto.
Voltei para a cama e me joguei de costas outra vez.
Talvez fosse só uma fase. Uma reação ao caos. Uma tensão passageira que desapareceria com o tempo.
Ou talvez fosse o começo de algo que eu não tinha o direito de permitir.
Fechei os olhos, finalmente sentindo o cansaço pesar.
A única coisa que eu sabia, com absoluta certeza, era que Lia não podia pagar o preço da minha confusão.
E, se fosse preciso, eu seria o primeiro a dar um passo atrás.
Mesmo que isso me custasse mais do que eu estava disposto a admitir.
{...}