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Capítulo 3 02

LIA

Eu estava sentada ao lado de Ian, com os pés enterrados na areia fria, observando o fogo do lual dançar diante de nós como se tivesse vontade própria. As chamas subiam e desciam, estalando, iluminando rostos desconhecidos, risadas soltas, violões desafinados. A vida acontecendo ao redor como se nada tivesse sido arrancado de mim dias atrás.

Mila tinha sumido com Theo fazia um tempo. No início, eu ainda tentava acompanhar os dois com o olhar, mas bastou uma onda mais forte e uma gargalhada alta para eles desaparecerem completamente da minha linha de visão. Aqueles dois não perdiam tempo - nunca perderam. Conheço Mila há anos, sei como ela é quando resolve viver algo: inteira, intensa, sem pedir permissão. Theo... bem, isso ficava a critério de Ian.

- Acho que eles estão se divertindo - comentei, deixando escapar uma risada curta ao vê-los, à distância, correndo em direção ao mar.

Theo puxava Mila pela mão, e ela gritava entre risos, fingindo protestar enquanto tropeçava na areia. Uma parte de mim sentiu alívio. Outra parte, inveja. Eles estavam vivos naquele momento. Leves.

- Parece que sim - Ian respondeu, acompanhando a cena com o olhar antes de voltar a atenção para mim. O sorriso dele era discreto, contido, como se não quisesse parecer deslocado naquele cenário de gente feliz demais.

O vento passou mais forte, trazendo o cheiro salgado do mar e fazendo meu vestido bater contra minhas pernas. Arrepiei. Não só pelo frio. Por dentro, tudo em mim ainda parecia frágil demais, como se qualquer coisa pudesse me quebrar outra vez.

- Acho que vou entrar na água - disse de repente, mais para mim do que para ele.

Ian virou o rosto na mesma hora, me analisando com cuidado, como se estivesse medindo riscos invisíveis.

- Deve estar gelada pra caramba.

- Não tem problema - respondi, já me levantando.

Tirei o All Star e deixei ao lado da mochila. O contato da areia fria com a planta dos pés me fez fechar os olhos por um segundo. Puxei o vestido pela cabeça, ficando apenas de top e calcinha box. Nada planejado, nada pensado demais. Só precisava sentir algo que não fosse esse peso constante no peito.

Quando olhei de novo para Ian, percebi que ele tinha virado o rosto para o outro lado rápido demais. Dei uma risada baixa.

- Você não vem?

- Vou - ele respondeu, tirando a camisa e os tênis, quase sem me olhar. - Mas não corre.

Claro que eu corri.

Disparei em direção ao mar, sentindo o vento bater no rosto, o cabelo grudando na boca, a risada escapando sem controle. Ouvi os passos dele atrás de mim e isso me fez correr ainda mais rápido, como se aquela pequena competição pudesse apagar qualquer coisa ruim dentro de mim.

Entramos na água quase ao mesmo tempo. O choque da água gelada arrancou um grito alto da minha garganta.

- Meu Deus! - reclamei, rindo e me encolhendo.

- Eu avisei! - Ian gritou de volta, já rindo também.

Mergulhei de uma vez, deixando o corpo afundar. O frio queimou a pele, mas trouxe algo inesperado: silêncio. Por alguns segundos, não havia pensamentos, não havia lembranças, não havia imagens do hospital ou do telefone tocando de madrugada. Só o som abafado do mar.

Quando voltei à superfície, puxei o ar com força. A onda recuou rápido demais, e eu escorreguei na areia molhada, perdendo o equilíbrio.

Ian me segurou antes que eu caísse.

As mãos dele foram firmes na minha cintura, seguras, quentes em contraste com o frio da água.

- Tô bem - garanti, tossindo de leve. - Só escorreguei.

Ele não me soltou imediatamente.

- Não vai pra muito longe - disse, sério, os olhos atentos ao mar atrás de mim. - Aqui muda rápido. O mar vira, fica traiçoeiro.

- Sim, senhor capitão - brinquei, tentando aliviar o peso daquele cuidado excessivo.

Ele sorriu de canto, mas continuou perto. A água batia nas nossas pernas, subindo e descendo, e eu sentia meu corpo tremer - parte frio, parte alguma coisa que eu não queria nomear.

- Você tá batendo o queixo - ele observou.

- A água tá gelada mesmo.

- Quer sair?

- Daqui a pouco.

Uma onda maior veio sem aviso. Ian reagiu rápido, me puxando contra o corpo dele para evitar que eu caísse outra vez. O contato foi inevitável. Próximo demais. O peito dele contra o meu, o braço firme ao redor da minha cintura.

Meu corpo inteiro se arrepiou.

- Acho melhor irmos agora - ele disse, se afastando primeiro, como se tivesse percebido a mesma coisa que eu.

Assenti, respirando fundo.

- E a Mila e o Theo? - perguntei, olhando ao redor.

- A essa hora... - ele riu. - Já devem estar bem longe daqui.

Voltamos para a areia. Vesti o vestido rápido, sentindo a pele ainda gelada e sensível. Pegamos nossas coisas e seguimos em direção à camionete. O caminho foi silencioso, mas não desconfortável. O som do mar parecia preencher tudo o que não era dito.

Dentro do carro, o aquecedor começou a funcionar, e aos poucos minhas mãos deixaram de doer de frio. Apoiei a cabeça no banco, olhando para frente.

- Você já terminou os estudos? - Ian perguntou, quebrando o silêncio.

- Já. Meu diploma deve chegar nas próximas semanas.

- E a faculdade?

Suspirei.

- Eu queria fazer artes. - Dei uma risada baixa, sem humor. - Pode não parecer, mas eu danço. Sempre dancei.

Ele me olhou rapidamente, surpreso.

- Sério?

- Sério. Mas agora... - dei de ombros. - Agora tenho que assumir a empresa do meu pai e organizar os investimentos da minha mãe.

Ele assentiu lentamente.

- Responsabilidades sempre chegam antes dos sonhos, né?

- Às vezes. - Engoli seco. - Não posso deixar isso nas mãos da minha tia. Ela pode ser... complicada quando se trata de dinheiro.

- Desculpa - acrescentei. - Sei que ela é sua madrasta.

- Não tem problema - ele respondeu. - Até eu fazer dezoito, a pensão que minha mãe mandava ficava com ela.

- O quê? - virei para ele, chocada. - Que horror!

- Ela não é uma pessoa ruim - disse, com calma. - Mas passa dos limites.

- Meu pai sempre dizia isso.

Ele respirou fundo antes de continuar.

- Minha mãe se casou com um cara rico e me mandou pra morar aqui. Acho que a culpa bateu forte. Ela manda dinheiro até hoje.

- E você aceita?

- Invisto. - Ele sorriu de canto. - Combinei com meu pai que, aos dezoito, isso acaba.

- Seu segredo está seguro comigo.

- Quando eu terminar a faculdade, vou morar na casa que ela comprou. Só não fui antes por causa do meu pai. Não quero que ele se sinta abandonado.

Olhei pela janela por alguns segundos antes de falar:

- Quando eu fizer dezoito, também vou embora. Não quero ficar com a Ana.

- Concordo.

Ele estacionou em frente à casa. Descemos com cuidado, tentando não fazer barulho.

- Onde vocês pensam que vão? - a voz de Ana cortou a noite como uma lâmina.

- Para o quarto - Ian respondeu, visivelmente cansado.

- Onde estavam?

- Onde mais, Ana? - ele suspirou. - Na praia.

- Lia ainda é menor de idade e está sob minha responsabilidade.

Senti algo ferver dentro de mim.

- Te corrigindo, tia - falei, firme. - Meus pais me emanciparam aos dezesseis. Sou responsável por mim. E, se for preciso, fico com a Mila até sair toda a documentação da herança.

Ela ficou sem reação.

- Seu pai não me perdoaria.

- Que seja.

Subi as escadas antes que minha coragem desaparecesse. No banheiro, liguei o chuveiro e deixei a água cair sobre mim. Fechei os olhos.

Pela primeira vez desde o acidente, eu não estava apenas sobrevivendo.

Eu estava sentindo.

E isso me assustava quase tanto quanto a dor.

---

IAN

Lia subiu as escadas com passos firmes, duros demais para alguém que dizia estar bem. O som dos pés batendo nos degraus ecoou pela casa silenciosa, carregado de raiva, dor e algo que eu ainda não sabia nomear. Eu ia logo atrás, a cabeça cheia demais para pensar em qualquer coisa além de um banho quente, quando senti uma mão apertar meu braço.

- Ela não, Ian.

Virei devagar.

Ana estava parada no último degrau, os braços cruzados, o olhar afiado como se estivesse prestes a me acusar de um crime que eu nem sabia qual era.

- Ela não é essas garotas da cidade com quem você se diverte - continuou. - Lia não é esse tipo de garota.

Engoli a resposta que veio pronta. Aquela mulher tinha um talento impressionante para ultrapassar limites.

- Ela está com uma dor cortante - Ana insistiu. - E pode confundir gentileza com outra coisa.

Respirei fundo, contando mentalmente até três antes de responder.

- Ana, eu prometi ao meu pai que seria gentil com ela. Só isso. - Falei firme. - Você prefere que ela saia um pouco, respire, ou que fique trancada naquele quarto, sozinha, afundando numa possível depressão?

Ela desviou o olhar por um segundo, mas voltou ainda mais dura.

- Que seja. Mas ela ainda é menor. Se eu souber que você tocou nela, eu mesma te denuncio. E não quero saber se você é filho do meu marido.

Aquilo foi o suficiente.

- Eu não vou tocar nela, Ana. - Puxei meu braço com força, me livrando do aperto. - E você devia ter mais cuidado com o que diz.

Subi as escadas sem olhar para trás.

Que mulher maluca.

Entrei no meu quarto e fechei a porta com mais força do que pretendia. Passei a mão pelo rosto, tentando afastar o incômodo que aquela conversa tinha deixado. Tudo ali parecia errado. O clima da casa, o jeito como Ana olhava para Lia, como se ela fosse um problema a ser administrado, não uma menina que tinha acabado de perder os pais.

Peguei uma toalha no armário e segui para o banheiro do corredor, pensando apenas em água quente e silêncio.

Levantei a mão para girar a maçaneta.

A porta se abriu antes.

Lia estava ali.

Só de toalha.

O susto foi tão grande que meu cérebro levou alguns segundos para processar a cena. O cabelo ainda molhado, a pele levemente corada pelo banho, os olhos arregalados de surpresa. A toalha escapou de suas mãos no mesmo instante.

Virei o rosto no reflexo mais rápido que consegui.

- Vira pra lá, Ian! - ela disse, desesperada, abaixando-se rapidamente para pegar a toalha e se cobrir.

- Desculpa! - respondi na hora, já completamente de costas, encarando a parede como se ela fosse a coisa mais interessante do mundo.

Ouvi o tecido sendo ajustado, passos apressados.

- Tudo bem - ela murmurou, ainda nervosa.

Em segundos, Lia correu em direção ao quarto e fechou a porta. Só então percebi que estava prendendo a respiração. Soltei o ar devagar, sentindo o coração bater rápido demais para uma situação tão simples.

Entrei no banheiro e fechei a porta atrás de mim.

Apoiei as mãos na pia e abaixei a cabeça.

Não tinha sido nada. Não tinha visto nada. E, ainda assim, aquela imagem involuntária ficou gravada na minha mente de um jeito desconfortável. Não pelo corpo dela - mas pela vulnerabilidade. Pela forma como Lia parecia frágil, exposta, tentando se manter inteira quando tudo ao redor desmoronava.

Liguei o chuveiro.

A água caiu quente, pesada, escorrendo pelos meus ombros, mas não levou embora o incômodo no peito. A conversa com Ana, o jeito como ela tratava Lia, a dor silenciosa que a garota carregava... tudo aquilo se misturava dentro de mim.

Eu não queria ultrapassar limites.

Não queria confundir nada.

Não queria ser mais um problema na vida dela.

Mas também não conseguia fingir que nada estava mudando.

Que o silêncio entre nós não dizia coisas demais.

Que os olhares não duravam um segundo a mais do que deveriam.

Que aquela casa não estava ficando pequena demais para sentimentos que ninguém tinha coragem de nomear.

Fechei os olhos sob a água.

Eu só precisava cumprir uma coisa:

ficar.

Sem promessas, sem confusão, sem atravessar linhas.

Só ficar.

E torcer para que isso fosse suficiente.

{...}

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