O gelo estalou no fundo do meu copo de cristal, o som cortando o silêncio pesado do meu escritório particular. Olhei para a poltrona à minha frente, onde Riccardo, meu conselheiro e o homem que viu meu pai ser enterrado com uma bala na testa, me observava com a paciência de uma estátua de pedra.
Lá fora, as luzes de Milão começavam a empalidecer com a chegada da aurora. Lá embaixo, no banco de trás da Mercedes blindada, Leonora Giordano estava sendo levada para a minha mansão.
Uma prisioneira que ainda não entendeu a extensão das correntes que acabei de colocar no seu pescoço.
- O Conselho não vai gostar desse atraso, Leonardo - Riccardo disse, sua voz rouca de décadas de tabaco e segredos. - Eles não querem apenas um nome, eles querem uma confirmação. A linhagem De Luca é o que mantém a paz entre as famílias do Norte, sem um herdeiro legítimo, você é apenas um alvo com data de validade.
- O Conselho terá o que quer - respondi, sentindo o líquido âmbar queimar minha garganta. - Eu já escolhi a mãe.
Riccardo arqueou uma sobrancelha grisalha, a surpresa cruzando seu rosto por um milésimo de segundo.
- A assistente? A filha de Giordano? Você enlouqueceu de vez ou o desejo por aquela garota finalmente corroeu o seu cérebro?
- Giordano era um traidor, mas o sangue dele é antigo. E a garota... ela é inteligente, audaciosa o suficiente para tentar me roubar na minha própria cara. - Dei um sorriso sombrio, lembrando-me do tremor no pescoço dela quando a apertei. - Eu não quero uma esposa troféu que só sabe gastar dinheiro e abrir as pernas com desdém. Eu quero um herdeiro que tenha o fogo dela, e, acima de tudo, eu quero o controle total sobre a fonte.
- Você sabe o que o protocolo exige - Riccardo insistiu, inclinando-se para a frente. - Um herdeiro precisa de uma mãe que possa ser apresentada. Bianca Vitale está esperando por esse cargo há anos. O pai dela controla as rotas do Mediterrâneo. Um casamento com ela seria a jogada perfeita.
- Bianca é uma cobra que morderia a mão do próprio filho se isso lhe desse mais poder - rosnei, sentindo o asco subir pela minha garganta. - Eu não vou colocar uma Vitale dentro da minha casa. Leonora é perfeita justamente porque não tem nada. Ela é uma órfã de um traidor, sustentando uma tia velha. Ela é descartável, Riccardo.
Bati com o copo na mesa, a intensidade da minha própria voz me surpreendendo.
- O plano é simples. Eu a mantenho trancada, ela engravida e no minuto em que aquela criança sair de dentro dela e for declarado um De Luca saudável, ela desaparece. A criança será criada como um herdeiro legítimo, sob a minha tutela absoluta. Bianca pode ter o título de esposa mais tarde, se eu decidir que preciso do apoio dos Vitale, mas o sangue que correrá nas veias do meu sucessor será o da Giordano.
Riccardo me estudou por um longo tempo. O silêncio na sala era tão denso que eu podia ouvir o tique-tique do relógio de parede de ouro.
- Você jura que é apenas um plano, Leonardo? - Ele perguntou, sua voz carregada de ceticismo. - Eu vejo como você olha para ela, vejo como você perde a porra da calma quando ela entra na sala. Você a quer de uma maneira que não é saudável para um Don.
Minha mandíbula travou, a acusação dele me atingiu em um ponto que eu tentava ignorar. A atração que eu sentia por Leonora não era normal, era uma obsessão doentia que me corroía por dentro. Eu passava as reuniões de diretoria observando a curva da sua bunda naquela saia lápis, imaginando como seria arrancar cada fibra de seda daquele corpo e ouvir seus gritos de ódio se transformarem em gemidos de prazer.
Eu queria possuí-la, não apenas o corpo dela, mas a alma. Queria quebrar aquele espírito desafiador até que não restasse nada além de obediência.
- Ela é uma ferramenta - afirmei, minha voz saindo como um estalido de chicote. - Uma incubadora de luxo, nada mais. Se eu sinto desejo por ela, é o mesmo desejo que sinto por um carro rápido ou por uma arma bem calibrada. Eu gosto do perigo que ela representa, Riccardo, mas não confunda tesão com fraqueza.
- Espero que você esteja certo - ele disse, levantando-se. - Porque se o Conselho desconfiar que você está protegendo a filha de um traidor por algo além de estratégia, eles vão agir. E você sabe que não posso te proteger das regras que você mesmo ajudou a escrever.
- Eu não preciso de proteção, eu preciso de resultados. Avise aos anciãos que a semente será plantada em breve. Eles terão o herdeiro em nove meses, ou eu mesmo entrego a cabeça de quem duvidar de mim.
Riccardo assentiu e saiu, deixando-me sozinho com os meus demônios.
Caminhei até a janela e olhei para baixo, vendo a cidade acordar. Milão era minha, a De Luca Financial era apenas a face limpa de um império construído sobre ossos e pólvora. Eu tinha tudo, mas o vazio no meu peito parecia exigir algo que eu ainda não tinha conseguido conquistar, a rendição total de Leonora.
Eu sabia que ela estava na mansão agora. Sabia que ela estaria chorando ou planejando como me matar enquanto dormia. A ideia me deu uma ereção dolorosa sob a calça social.
Ela achava que o ódio era a sua armadura, mas ela não entendia que o ódio é apenas o outro lado da moeda da obsessão. Eu ia usar cada regra, cada ameaça e cada centímetro da minha autoridade para garantir que ela cumprisse o seu papel.
Ela me daria um filho, ela me daria o seu corpo, e quando eu terminasse com ela, quando o herdeiro estivesse seguro nos meus braços, eu a descartaria como o lixo que o pai dela foi.
Eu não podia me permitir sentir nada por ela. No nosso mundo, o amor é a única sentença de morte que ninguém consegue evitar e eu não pretendia morrer por causa de uma assistente com olhos de fogo e um coração cheio de vingança.
- Você é apenas uma peça no tabuleiro, Leonora - sussurrei para o vidro frio. - E eu sou o jogador que nunca perde.
Virei o resto do uísque, sentindo a queimação se espalhar.
A fase de espera tinha acabado, amanhã, a verdadeira tortura começaria. Eu ia impor regras tão rígidas que ela se sentiria sufocada pela minha presença. Ela não teria acesso a nada, nenhuma prova, nenhum dado, nenhum contato com o mundo exterior.
Ela seria apenas um útero, o meu útero.
Apertei o copo de cristal até que meus nós dos dedos ficassem brancos. Eu ia quebrá-la, ia ser lento, ia ser cruel, e ia ser a coisa mais prazerosa que eu já fiz na vida. Porque no final do dia, não importava o quanto ela lutasse ou o quanto ela me odiasse... ela me pertenceria, e eu ia garantir que ela nunca esquecesse disso.