O cheiro de pólvora e ozônio ainda parecia impregnado na minha pele, mesmo depois de três chuveiros e meio litro de bourbon. Desci do carro na garagem subterrânea da mansão, ignorando o cumprimento submisso dos guardas. Eu estava de mau humor.
O carregamento de metanfetamina que deveria ter chegado ao porto de Gênova naquela madrugada havia sido interceptado por um grupo de mercenários que falavam o alfabeto cirílico.
Os russos, sempre os russos. Grigory Volkov estava testando as nossas fronteiras, urinando no nosso quintal para ver se o Don da L'Eclisse ainda tinha dentes.
E onde estava o meu irmão, o grande Leonardo De Luca, enquanto os nossos homens eram queimados vivos dentro de caminhões frigoríficos? Estava brincando de colecionador de bonecas raras.
Subi as escadas de mármore dois degraus por vez. O silêncio da mansão era irritante. Cruzar os corredores daquela casa era como caminhar sobre uma lâmina de barbear, você sabia que ia sangrar, a única dúvida era quando. Parei diante das portas duplas do escritório de Leonardo. Os dois guardas na porta hesitaram, mas viraram o rosto. Ninguém impedia o braço direito do Don de entrar.
Escancarei as portas.
Leonardo estava sentado atrás de sua mesa de carvalho, a luz da lua entrando pelas janelas altas e emoldurando sua silhueta como a de um monarca caído. Ele não se moveu, apenas continuou observando uma tela que mostrava as câmeras de segurança do corredor norte.
- Perdemos Gênova, Leonardo. - Minha voz saiu como um estalido de chicote no ar estático. - Três mortos, dois caminhões em cinzas e Volkov está rindo da nossa cara em algum bordel de Moscou, e você está aqui, assistindo ao canal do Big Brother da sua nova prisioneira?
Leonardo finalmente levantou os olhos. Ele parecia cansado, mas havia um brilho febril naquelas órbitas cinzentas que eu não gostava nem um pouco.
- Gênova foi um erro de logística seu, Lorenzo. Eu te dei os homens e as rotas. Se os russos sabiam onde estar, a falha foi na sua segurança.
- Minha falha? - Dei uma risada amarga, caminhando até o bar e servindo-me de uma dose generosa do uísque dele. - Eu passei os últimos três dias caçando ratos no nosso sindicato. Enquanto isso, você traz a filha de Pietro Giordano para dentro da nossa fortaleza. Você tem noção do que isso parece para o Conselho? Parece que o Don perdeu o juízo por causa de um par de pernas.
- Ela não é um "par de pernas", Lorenzo. Ela é uma estratégia - ele respondeu, sua voz voltando àquela calma letal que costumava preceder um banho de sangue.
- Estratégia? - Bufei, virando o copo de uma vez. - Casar com Bianca Vitale seria uma estratégia. Consolidar o Mediterrâneo e chutar os russos de volta para a Sibéria seria uma estratégia. Trazer uma espiã, uma mulher que odeia o nosso sobrenome mais do que qualquer inimigo externo, e colocá-la para carregar o herdeiro da nossa família... isso é um desejo de morte.
Leonardo levantou-se lentamente. Ele era mais alto que eu, e a aura de perigo que emanava dele era quase palpável. Ele caminhou até a janela, de costas para mim.
- O Conselho quer um herdeiro, eu darei um herdeiro. Leonora tem o sangue necessário e a fibra que falta em mulheres como Bianca. Ela não vai tentar me envenenar para assumir o trono antes da hora. Ela quer vingança, sim, mas o ódio dela é puro, Lorenzo. É previsível. Eu sei como lidar com o ódio.
- Você não está lidando com ele, você está se banhando nele! - Gritei, perdendo a paciência. - Eu vi as gravações da tentativa de fuga dela hoje cedo. Você estava rindo, Leonardo. Você se diverte com o fato de ela tentar te matar. Isso não é um plano de sucessão, é uma obsessão doentia. Se os russos descobrirem que você tem um ponto fraco, eles vão usá-la para abrir a sua garganta.
Ele se virou bruscamente, seus olhos brilhando com uma intensidade que me fez recuar um passo.
- Ela não é um ponto fraco. Ela é uma posse, e ninguém toca no que é meu. Nem os russos, nem o Conselho, nem você.
- A família está em guerra, irmão. - Tentei baixar o tom, apelando para a lógica que costumava nos unir. - Volkov não vai parar em Gênova. Ele quer as rotas de Milão, ele quer o Porto de Nápoles. Se ele perceber que o Don da L'Eclisse está distraído com uma garota de Palermo, ele vai atacar com tudo o que tem. Precisamos de foco. Precisamos que você seja o monstro que o mundo teme, não o homem que fica trancado em uma mansão com uma refém.
Leonardo caminhou até mim e colocou a mão no meu ombro. O aperto era forte demais, quase doloroso.
- Eu sou o monstro, Lorenzo, eu nunca deixei de ser. Mas até os monstros precisam de uma linhagem. - Ele inclinou a cabeça, estudando meu rosto. - Você está preocupado com a segurança da família ou está com inveja do fato de eu ter encontrado algo que realmente me faz sentir vivo depois de tanto tempo?
Eu ri, balançando a cabeça.
- Vivo? Você chama isso de vida? Viver em um labirinto de vidros vigiando uma mulher que prefere ver você morto? Eu prefiro as minhas vadias descartáveis e a minha consciência limpa.
- Não minta. Você já viu a coragem dela, viu como ela enfrenta o mundo. Você a respeita, Lorenzo. E é por isso que você está com tanto medo.
Fiquei em silêncio por um momento. Ele tinha razão, em parte. Leonora Giordano tinha algo que eu raramente via nas pessoas que orbitavam o nosso mundo. Ela não tinha medo de morrer, ela tinha medo de falhar na sua missão, e isso a tornava letal.
- O Conselho vai exigir uma reunião formal - eu disse, mudando de assunto. - Eles souberam do incidente em Gênova e eles sabem que você a trouxe para cá. Eles querem ver a "promessa" de um herdeiro se tornar realidade em breve. Se ela não engravidar nos próximos meses, eles vão exigir que você se livre dela e se case com Bianca.
Leonardo soltou o meu ombro e voltou para a sua mesa.
- Ela vai engravidar, eu vou garantir isso pessoalmente.
- E depois? - Perguntei, parando na porta. - O que acontece quando o bebê nascer? Você realmente vai deixá-la ir?
Leonardo não respondeu de imediato. Ele olhou para a tela novamente, onde Leonora agora aparecia sentada na cama do seu quarto, o olhar perdido na escuridão, mas os ombros ainda eretos, como se estivesse pronta para o próximo ataque.
- Ela terá o destino que merece - ele respondeu, sua voz desprovida de qualquer emoção. - Mas até lá, ela é minha. E ai de quem tentar atravessar o meu caminho.
Saí do escritório sentindo um frio na espinha que nada tinha a ver com o ar-condicionado da mansão. Leonardo achava que estava no controle, que Leonora era apenas um meio para alcançar o fim, mas eu conhecia o meu irmão. Vi o modo como ele olhava para aquela tela. Não era o olhar de um Don para uma ferramenta. Era o olhar de um homem que estava se afogando e que tinha acabado de encontrar a única coisa que poderia salvá-lo ou afundá-lo de vez.
A rivalidade com os russos era um problema externo, uma guerra de balas e territórios que sabíamos como lutar, mas a guerra que estava começando dentro daquelas paredes... essa era diferente. Era uma guerra de vontades, de obsessão e de sangue, e eu tinha a terrível sensação de que, no final, não sobraria ninguém para contar a história.
Caminhei em direção aos meus próprios aposentos, mas antes de entrar, olhei para o corredor da ala leste. O guarda parado diante da porta de Leonora me cumprimentou com a cabeça.
- Fique de olho nela - ordenei. - Se ela respirar mais forte, eu quero saber.
Eu precisava proteger Leonardo dele mesmo. Porque se o meu irmão caísse por causa de uma Giordano, a L'Eclisse cairia com ele e os russos estavam apenas esperando pelo primeiro sinal de fumaça para incendiar todo o nosso império.