A mansão dos De Luca não era apenas uma prisão, era um ecossistema de predação silenciosa.
Acordei com a luz cinzenta do Lago de Como filtrando-se pelas cortinas de seda, sentindo o peso da minha nova realidade como um soco no estômago. Eu não era mais a mestre do meu próprio destino. Eu era uma "promessa" de herdeiro, uma peça de carne guardada em um freezer de luxo.
Mas eu não ia ficar deitada esperando o meu carrasco.
Levantei-me, ignorando a dor nos pulsos e a sensação de ser vigiada por cada câmera escondida nos afrescos do teto. Vesti um dos vestidos que Leonardo havia deixado para mim, um modelo de lã fria verde-esmeralda, recatado, mas que abraçava minhas curvas de um jeito que eu sabia que ele aprovaria. Odiava o fato de estar me vestindo para o olhar dele, mas na guerra, a camuflagem é essencial.
Saí do quarto e, como esperado, o guarda, um homem chamado Marco com cara de quem já matou por tédio, me seguiu a uma distância respeitosa, mas implacável.
- Quero tomar o café da manhã no terraço - ordenei, sem olhar para trás.
- O senhor De Luca não está na mansão, senhorita - ele respondeu.
- Ótimo, é por isso mesmo que eu quero ir ao terraço.
Eu precisava de ar, precisava sentir que o mundo ainda existia além das paredes de mármore. Mas, ao chegar ao terraço que dava para os jardins internos, percebi que não estava sozinha.
Sentada à mesa de ferro forjado, com uma elegância que parecia ter sido esculpida em gelo, estava uma mulher que eu nunca tinha visto, mas que reconheci instantaneamente pela aura de veneno que emanava dela.
Era Bianca Vitale, a mulher que o Conselho queria ao lado de Leonardo.
Ela estava bebendo um café expresso, usando óculos escuros de grife e um conjunto Chanel branco que brilhava sob o sol pálido. Ao me ver, ela não se levantou, apenas abaixou os óculos milimetricamente, revelando olhos castanhos que me escanearam como se eu fosse um defeito na tapeçaria.
- Então, esta é a famosa "assistente" - Bianca disse, sua voz era um arrasto de seda sobre vidro. - Eu esperava algo mais... substancial. Você parece uma camponesa vestindo as sobras da temporada passada.
Eu não recuei, puxei a cadeira à frente dela e sentei-me, cruzando as pernas com uma calma que eu não sentia. Se ela queria um duelo de vadias, eu tinha sido treinada nas ruas de Palermo antes de chegar aos escritórios de Milão.
- E você deve ser a Bianca - respondi, abrindo o guardanapo com deliberada lentidão. - Leonardo mencionou que você costuma aparecer sem ser convidada. Ele disse que você é... persistente.
Vi o maxilar dela travar. O golpe atingiu o alvo.
- Cuidado com a língua, Giordano - ela sibilou, inclinando-se para a frente. O perfume dela era forte, algo floral e caro que escondia o cheiro de podridão moral. - Eu sei exatamente por que você está aqui. Leonardo acha que pode usar o seu útero para calar o Conselho, mas você é apenas um experimento. Um receptáculo temporário.
- Se eu sou tão irrelevante, por que você parece tão nervosa, Bianca? - Dei um sorriso de lado, pegando uma torrada. - Talvez porque o Don prefira o útero de uma "camponesa" ao toque de uma Vitale.
Bianca soltou uma risada seca, sem humor.
- Você acha que ele sente algo por você? Leonardo De Luca não ama nada que não tenha um preço ou um calibre. Você é uma moeda de troca. Ele vai te usar, vai tirar esse bastardo de dentro de você e, depois... - Ela fez um gesto de corte no pescoço com a unha perfeitamente pintada de vermelho. - Eu estarei aqui para limpar a sujeira que você deixar. Eu vou criar o filho dele, eu serei a Donna. E você será apenas um parágrafo trágico que ninguém vai se dar ao trabalho de ler.
O estômago me embrulhou. Não pelo que ela disse sobre o descarte, eu já suspeitava disso, mas pela convicção absoluta com que ela falava sobre o meu filho. O herdeiro que Leonardo queria arrancar de mim como se fosse um troféu.
- Você fala como se já tivesse vencido, mas está aqui, latindo para a prisioneira - retruquei, minha voz baixando para um tom perigoso. - Se você fosse tão segura do seu lugar, não estaria tentando me assustar.
Bianca tirou os óculos completamente, revelando um ódio puro e destilado.
- Ouça bem, Leonora. Esta mansão é um labirinto, e eu conheço cada canto escuro dele. Leonardo pode te manter protegida por enquanto porque ele quer a mercadoria que você vai carregar. Mas acidentes acontecem, mulheres grávidas caem de escadas. Elas se engasgam, elas perdem o brilho muito rápido quando percebem que estão sozinhas.
Ela se levantou, a sombra dela cobrindo a minha mesa.
- Aproveite o seu café. Pode ser um dos últimos que você toma com todos os seus dentes. Se eu fosse você, não me preocuparia com a vingança contra o Leonardo. Eu me preocuparia em como sobreviver a mim.
Ela se virou e saiu, o som dos seus saltos estalando como tiros no mármore. Fiquei ali, imóvel, sentindo o frio do vento que soprava do lago.
Eu estava em um ninho de cobras. Leonardo era o rei, implacável e sádico, mas Bianca era a serpente que rastejava pelas sombras, esperando o momento de injetar o veneno. Eu percebi que a minha luta não era apenas para manter a minha sanidade ou para conseguir provas contra a máfia, era uma luta pela vida. Pela minha e pela da criança que, em breve, habitaria o meu corpo.
Olhei para o jardim, onde os guardas patrulhavam. Eu estava cercada por homens que me matariam sob comando e mulheres que me matariam por prazer.
- Você quer um herdeiro, Leonardo? - Sussurrei para o vazio, sentindo uma determinação sombria se solidificar no meu peito. - Você vai ter o seu herdeiro, mas ele vai ser a arma que eu vou usar para destruir todos vocês.
Eu não era mais a garota que buscava justiça, agora eu era a mulher que estava aprendendo a jogar o jogo mais sujo do mundo. Bianca achava que eu era descartável, Leonardo achava que eu era uma ferramenta.
Eles iam descobrir que a "moeda de troca" tinha um preço que nenhum deles seria capaz de pagar.
Tirei o tablet que eu conseguira esconder na dobra do meu vestido, um pequeno dispositivo de comunicação que eu roubara da bolsa de uma das camareiras distraídas no dia anterior. Eu precisava de aliados, precisava de uma rota de fuga que nem mesmo os De Luca conseguissem prever.
Mas, antes disso, eu precisava sobreviver à próxima vez que Leonardo entrasse no meu quarto. Porque se o café com Bianca foi um aviso, o encontro com ele seria o teste final.
Recostei-me na cadeira, fechando os olhos por um segundo. O jogo mudou, agora, não era apenas sobre vingança, era sobre quem restaria de pé quando as cinzas parassem de cair. E eu pretendia ser a última.