As rodas da Mercedes blindada trituravam o cascalho da estrada particular com um som que, para mim, lembrava ossos sendo esmagados. Olhei pela janela, vendo a névoa matinal subir sobre o Lago de Como, mas não havia beleza na paisagem.
Cada árvore alta, cada muro de pedra centenária e cada guarita de segurança que passávamos eram apenas novos níveis de uma prisão que se fechava ao meu redor.
Eu não era uma dondoca, eu não fui criada em berço de ouro, esperando por um príncipe ou por um milagre. Meu pai me ensinou a lutar, a observar e a nunca mostrar a garganta para o predador. Minhas unhas estavam cravadas na palma da mão, e meus olhos não estavam marejados, estavam injetados de uma fúria fria. Leonardo De Luca achava que tinha comprado uma incubadora silenciosa, mas ele estava prestes a descobrir que havia colocado uma víbora dentro de casa.
- Pode parar de olhar para a fechadura da porta, senhorita - o motorista disse, sem tirar os olhos da estrada. - Ela só abre com o comando do console central e eu não tenho amor suficiente pela vida para te deixar sair.
Eu não respondi, apenas o encarei pelo retrovisor com o máximo de desprezo que consegui reunir. No momento em que o carro parou diante da imensa mansão de pedra branca, dois homens armados com fuzis de assalto flanquearam a porta. Segurança máxima. Leonardo não estava me protegendo de inimigos externos, ele estava protegendo o mundo da minha vingança.
Fui escoltada para dentro como uma criminosa sendo levada ao patíbulo. A casa era um monumento ao ego dos De Luca, mármore, arte renascentista e um silêncio sepulcral que só era quebrado pelo som dos meus saltos.
- O senhor De Luca a vai esperar no escritório do segundo andar - disse uma governanta de rosto impenetrável. - Por aqui.
- Eu conheço o caminho - respondi, cortante.
Ela não se abalou. Guio-me até uma suíte que, embora luxuosa, parecia uma cela de isolamento. Mal a porta se fechou, eu comecei a agir. Eu não ia esperar ele vir até mim com aquele sorriso de dono do mundo.
Abri o closet, tinha roupas de grife que eu nunca usaria, todas no meu tamanho. Ele tinha planejado cada detalhe. Vasculhei as gavetas à procura de qualquer coisa. Nada. Fui até a janela, mas era alta demais para pular sem quebrar as pernas, mas havia uma cornija de pedra que levava até a varanda do quarto ao lado.
O meu coração martelava, mas a minha mente estava focada. Se eu conseguisse chegar ao jardim dos fundos, perto da garagem de serviço, talvez pudesse roubar uma das motos dos seguranças. Eu sabia pilotar, eu tinha uma chance em um milhão, e eu ia agarrá-la.
Saí pela janela, o vento frio cortando minha camisa de seda. Meus dedos agarraram a pedra gelada, e eu me arrastei, centímetro a centímetro, ignorando o abismo sob meus pés. O medo existia, mas o ódio contra Leonardo era um combustível muito mais potente. Consegui pular para a varanda vizinha e descer por uma trepadeira de ferro forjado.
Meus pés tocaram a grama. Eu estava no escuro, nas sombras da ala leste. Corri agachada, usando os arbustos como cobertura. Eu conseguia ver o portão de serviço, estava quase lá. O meu sangue fervia de antecipação. Eu ia sumir, levaria as provas que já tinha e entregaria Leonardo para os russos ou para o inferno, o que viesse primeiro.
Estava a dez metros da moto quando uma luz cegante de um holofote me atingiu em cheio.
- Já vai embora, Leonora? A festa nem começou.
A voz dele veio de cima, olhei para a varanda do escritório e lá estava ele. Leonardo segurava um copo de uísque, observando-me com uma calma que me deu náuseas. Ele não gritou, ele não chamou os cães, apenas me olhou como se eu fosse um inseto interessante tentando escalar uma parede de vidro.
Em segundos, quatro seguranças me cercaram, as armas em punho.
- Me soltem! - Gritei, chutando o primeiro que tentou me agarrar. Meu salto atingiu a canela dele com força, e o homem rosnou, mas me segurou pelos braços com uma força bruta, tirando meus pés do chão.
- Tragam-na para cima - ordenou Leonardo, sua voz descendo um tom, tornando-se perigosa.
Fui arrastada escada acima. Meus cabelos estavam desgrenhados, minhas mãos sujas de terra e o meu orgulho estava em frangalhos, mas eu não baixei a cabeça. Quando me jogaram no chão do escritório dele, eu me levantei imediatamente, limpando a sujeira da saia e encarando-o de frente.
Leonardo caminhou até mim. Ele estava impecável, mesmo àquela hora. Ele parou a poucos centímetros, a aura de poder que emanava dele era quase sufocante.
- Uma tentativa de fuga em menos de duas horas - ele disse, esticando a mão para tirar uma folha seca que estava presa no meu cabelo. Eu tentei morder a mão dele, mas ele foi mais rápido, agarrando meu queixo com uma pressão que fez meus dentes estalarem. - Você é realmente uma criaturinha fascinante. Acha que essa sua coragem de rua tem algum valor aqui?
- Eu vou tentar de novo, Leonardo - sibilei, meus olhos fixos nos dele. - E de novo e na próxima vez, eu não vou tentar fugir. Eu vou tentar cortar a sua garganta enquanto você dorme.
Ele soltou uma risada sombria, um som gutural que vibrou no meu peito.
- É por isso que eu te escolhi. Esse fogo... esse veneno. Vai ser um prazer absoluto ver isso se transformar em gemidos de súplica. - Ele me empurrou levemente para trás, fazendo-me bater contra a mesa de carvalho. - Você acha que é uma guerreira, Leonora? Olhe para você. Você está suja, desamparada e à minha mercê. Você não tem nada, nem nome, nem passado, nem futuro, a menos que eu decida te dar um.
Ele pegou um controle remoto e ligou uma tela na parede. Nela, vi uma câmera ao vivo. Minha tia Sofia estava dormindo no seu sofá em Palermo, assistindo TV. Perto da janela da casa dela, um homem com um terno escuro estava parado, fumando um cigarro.
- Um comando meu, Leonora. Apenas um - ele sussurrou no meu ouvido, seu hálito quente de uísque fazendo meu estômago revirar. - Se você tentar pular outra janela, se você tentar me tocar com essa sua agressividade fútil, o homem naquela tela entra e garante que a sua tia nunca mais acorde. Você entende o peso da sua rebeldia agora?
Senti um golpe no estômago, minha respiração ficou curta. Ele estava usando a única pessoa que eu amava para me amordaçar.
- Você é um covarde - eu disse, a voz embargada pela raiva. - Use homens para lutar as suas guerras, Leonardo, não velhinhas indefesas.
- Eu uso as armas que funcionam e com você, a única coisa que funciona é o terror. - Ele se inclinou, as mãos apoiadas na mesa, prendendo-me entre seus braços. - Você quer me enfrentar? Ótimo, tente. Mas cada falha sua terá um preço em sangue. Sangue que você ama.
Ele deslizou a mão pela minha cintura, subindo até apertar a minha costela com uma força possessiva. Eu podia sentir a ereção dele pressionando minha coxa através do tecido fino da calça social dele. A tensão entre nós era um fio elétrico prestes a arrombar. Eu o odiava com cada fibra do meu ser, mas a proximidade dele, o perigo que ele exalava, fazia o meu corpo responder de uma forma que eu desprezava. Meus batimentos aceleraram, e não era apenas de medo.
Leonardo percebeu.
- O seu coração está acelerado, Leonora, e não é por causa da corrida no jardim. Você me odeia, mas você está vibrando sob o meu toque. - Ele aproximou o rosto do meu pescoço, aspirando o meu cheiro com uma fome predatória. - Você quer lutar contra mim? Vá em frente. A sua resistência só torna a minha vitória mais doce.
Ele se afastou abruptamente, deixando-me cambaleando contra a mesa.
- Agora, vá para o seu quarto. De agora em diante, haverá um guarda na sua porta e outro na sua varanda. Você só sai quando eu permitir, você só come o que eu permitir. E você só terá paz se aprender a ser a cadela obediente que eu preciso para carregar o meu filho.
- Eu nunca vou ser sua, Leonardo - respondi, tentando recuperar o fôlego e a dignidade. - Você pode ter o meu corpo, pode ter esse herdeiro maldito, mas eu vou te odiar até o último segundo da minha vida.
Ele sorriu, aquele sorriso gélido de Don que eu via em Milão, mas com um brilho sádico que ele só mostrava para mim.
- O ódio é um excelente lubrificante, piccola. Nos vemos no jantar e não se atrase. Eu odeio esperar por aquilo que me pertence.
Saí do escritório escoltada, sentindo o peso da derrota, mas com as chamas da vingança ainda acesas. Ele me humilhou, me cercou e usou as pessoas que eu amo contra mim. Ele achava que tinha vencido o primeiro round, mas ele esqueceu de uma coisa, uma víbora acuada é quando ela se torna mais letal.
Eu ia dar a ele o herdeiro se não tivesse escolha, mas eu ia garantir que, quando esse bebê nascesse, a única coisa que restaria do império de Leonardo De Luca seriam cinzas e o rastro do meu desespero.