Eu estava tirando o pó da estante no corredor - uma tarefa servil que Sofia sugeriu que eu fizesse para "merecer meu sustento" - quando ouvi vozes vindo do lounge.
"Ele vai se divorciar dela de qualquer maneira", uma voz feminina zombou. Era Bruna, a sombra de Sofia, uma garota que estava ocupada subindo na vida de joelhos.
"Claro que vai", a voz de Sofia flutuou, preguiçosa e saturada de satisfação. "Assim que a poeira do julgamento baixar. Papai disse que Dante precisa de uma união com uma família de honra para garantir sua posição como Subchefe. Helena é apenas a filha de uma enfermeira. Ela é um tapa-buraco."
Eu congelei. Um tapa-buraco.
Era tudo o que eu era. Todos os "eu te amo", todas as noites em que ele me abraçou enquanto eu chorava - era apenas manutenção. Ele estava meramente mantendo o motor funcionando até poder trocá-lo por um modelo mais novo e poderoso.
A dormência substituiu o choque. Entrei no lounge. Sofia estava pintando as unhas na mesa de centro, enquanto Bruna rolava ociosamente em seu telefone.
"Você esqueceu um lugar", disse Sofia, apontando uma unha molhada para o chão sem levantar a cabeça.
Continuei andando. Eu precisava chegar à cozinha. Eu precisava de ar.
De repente, uma perna bem cuidada se esticou.
Foi mesquinho. Foi infantil. E foi eficaz.
Eu tropecei, minhas mãos voando cegamente para me segurar. Colidi com uma mesa lateral, e uma pesada estátua de bronze tombou, caindo no chão com um baque metálico ensurdecedor.
"Meu Deus!", Sofia gritou, pulando. "Ela me atacou! Ela tentou jogar isso em mim!"
As portas duplas se abriram com um estrondo.
Dante entrou furioso, sua equipe de segurança o flanqueando como sombras. Seus olhos varreram a cena: eu no chão, a estátua perto dos pés de Sofia, e Sofia apertando o peito, convocando lágrimas falsas com uma velocidade impressionante.
"Ela é louca, Dante!", Sofia gritou. "Ela veio para cima de mim!"
Dante olhou para mim. Ele não pediu meu lado da história. Ele não procurou a verdade. Ele viu um passivo e um ativo, e fez sua escolha instantaneamente.
Ele me agarrou pelo braço, me levantando. Seu aperto era de ferro.
"Eu te avisei", ele rosnou, sua voz baixa e perigosa. "Eu te disse para se comportar."
"Ela me derrubou", eu ofeguei, a injustiça queimando minha garganta. "Dante, olhe para o rosto dela. Ela está mentindo."
"Chega!"
Ele me empurrou para trás. Eu tropecei, meu ombro batendo contra a parede. O impacto soltou um porta-retrato - uma foto da minha mãe. Ele caiu no chão, o vidro se partindo em teias de aranha sobre o rosto dela.
Dante olhou para a foto, depois para mim. Uma determinação fria e cruel endureceu suas feições. Ele pegou o porta-retrato.
"Sua mãe está morta, Helena! Pare de usar o fantasma dela para desculpar sua incompetência!"
Com um movimento violento, ele esmagou o porta-retrato contra o canto da mesa de mármore.
O som do vidro se quebrando foi o som do meu coração finalmente se transformando em pedra.
"Tirem-na da minha frente", Dante ordenou a seus guardas, sua voz desprovida de emoção. "Levem-na para o Quarto do Pânico."
"Não", sussurrei, a luta se esvaindo de mim. "Dante, por favor. É escuro lá dentro."
"Talvez o escuro te ajude a ver com clareza", disse ele, virando as costas para mim para consolar Sofia.
Os guardas me arrastaram escada abaixo. O Quarto do Pânico era um cofre de aço no porão. À prova de som. Sem janelas. Congelante.
Eles me jogaram lá dentro e bateram a pesada porta de aço. A fechadura engatou com um baque mecânico que vibrou pelo chão de concreto.
Escuridão total e sufocante.
Sentei-me no canto, abraçando os joelhos. O silêncio era físico; pressionava meus tímpanos como água. O tempo se dissolveu. Foi uma hora? Um dia? Eu repassava o momento em que ele esmagou a foto da minha mãe em um loop agonizante.
Ele não apenas escolheu a Máfia em vez de mim. Ele escolheu a crueldade. Ele se deleitou com o poder.
Eventualmente, a porta sibilou ao se abrir.
A luz inundou, me cegando. Dante estava lá, silhueta contra o brilho do corredor. Ele parecia impecável, intocado pela miséria que havia infligido.
"Levante-se", disse ele.
Tentei me levantar, mas minhas pernas estavam rígidas do frio. Eu balancei. Ele não fez nenhum movimento para me firmar.
"A família da Sofia está organizando um memorial para o 'incidente trágico' na festa de gala", ele declarou secamente. "Um golpe de relações públicas para limpar completamente o nome dela."
"Você quer que eu vá?", grasnei. Minha garganta parecia uma lixa.
"Eu quero que você se desculpe", disse ele. "Sofia se sente insegura nesta casa. Para provar seu arrependimento, você vai replantar os canteiros do pátio. Aqueles em que ela... acidentalmente pisou."
Acidentalmente. Ela havia pisoteado as hortênsias da minha mãe de propósito.
"E então", Dante continuou, verificando seu relógio, "você virá ao memorial e sorrirá. Você mostrará ao mundo que somos uma frente unida."
"E se eu não for?"
"Então eu fecho esta porta", disse ele suavemente, sua mão repousando na alavanca de aço. "E perco a chave."
Olhei para ele. Procurei pelo homem com quem me casei, mas tudo o que vi foi um estranho de terno.
"Eu farei isso", eu disse.
Porque eu precisava sair daquele quarto.
Eu precisava estar naquele memorial.
Era lá que eu iria fugir.