"Certifique-se de pegar o ângulo em que pareço redimida", Sofia dirigiu ao cinegrafista, inclinando o queixo na medida certa. Ela apontou um dedo bem cuidado para mim. "Vejam? Nós até damos uma segunda chance à empregada. A reabilitação é muito importante para os valores da nossa família."
Ela estava me chamando de "a empregada". Na câmera. Para o mundo todo assistir.
Dante estava perto das portas de vidro, observando. Ele não a estava impedindo. Ele estava checando seu celular, provavelmente gerenciando as consequências, garantindo que a narrativa fosse controlada. Ele sancionou este teatro. Esta era minha penitência. Este era o meu quebrantamento.
Enfiei uma pá na terra. Imaginei que fosse o pescoço de Sofia.
"Sorria, Helena!", Sofia gritou, sua voz doce como açúcar. "Você parece tão sombria. É uma má imagem para as plantas."
Não levantei o olhar. Concentrei-me no ritmo. Cavar. Plantar. Cobrir. Cavar. Plantar. Cobrir.
Eu estava construindo um ritmo para a sobrevivência.
Uma hora depois, a equipe de filmagem guardou suas ilusões. Sofia entrou para se trocar para o memorial. Dante permaneceu. Ele caminhou até onde eu estava ajoelhada, sua sombra caindo sobre mim.
"Você se saiu bem", disse ele, sua voz desprovida de calor. "O jardim parece melhor."
"É apenas terra, Dante", eu disse, limpando a testa com as costas da mão, espalhando sujeira pela minha pele. "Ela cobre tudo. A podridão. Os pecados. Até os corpos."
Ele enrijeceu, sua postura rígida. "Vá se limpar. Use o vestido preto. Sem joias."
"Sem joias?", perguntei.
"Você não conquistou o privilégio dos diamantes hoje", disse ele, virando-se.
Fui para o banheiro principal - aquele do qual eu estava tecnicamente banida. Tranquei a porta com um clique decisivo. Olhei para mim no espelho. Queimada de sol. Suja. Oca.
Olhei para minha mão esquerda. O anel de diamante estava lá, pesado e zombeteiro. Um símbolo de sua propriedade. Uma algema feita de carbono e luz.
Eu o tirei.
Segurei-o sobre o vaso sanitário. Ele brilhava na luz forte do banheiro. Valia dois milhões e meio de reais. Não valia absolutamente nada.
Eu o deixei cair. Plim.
Dei a descarga. Observei a água girar, um vórtice levando a última peça de Dante Russo para os esgotos onde pertencia.
Tomei banho, esfregando minha pele até ficar em carne viva, esfolando a humilhação do dia do meu corpo. Vesti o vestido preto simples. Eu parecia uma viúva. Era apropriado.
Antes de descer, fiz um desvio. Fui para a estufa na ala leste. Este era o santuário de Dante. Suas orquídeas premiadas. Ele as amava mais do que amava pessoas. Eram delicadas, exigentes e absolutamente perfeitas.
Andei pelas fileiras. Elas floresciam em roxos e brancos vibrantes, arrogantes em sua beleza.
Peguei uma garrafa de água sanitária do carrinho de limpeza. O galão parecia pesado em minha mão.
Fui até o sistema de controle climático. Despejei a água sanitária no reservatório de água, o produto químico perturbando o silêncio.
"Tudo está morrendo, Dante", sussurrei.
Liguei o sistema de nebulização.
Observei por um momento enquanto a névoa envenenada se depositava sobre as pétalas delicadas, cobrindo-as com um orvalho tóxico. Amanhã, seriam podridão negra.
Saí da estufa e desci as escadas. Dante estava esperando no hall de entrada. Ele olhou para minha mão nua, para a faixa pálida de pele onde o anel estivera. Sua mandíbula se contraiu, um músculo se movendo em sua bochecha, mas ele não disse uma palavra. Estávamos atrasados.
Ele abriu a porta para mim.
"Vamos", disse ele.
Saí para a noite. Eu não estava mais com medo. Eu estava apenas esperando o fósforo ser aceso.