A voz era gordurosa, cobrindo minha pele com uma camada de sujeira fantasma. Abri meus olhos pesados. Léo. O investigador particular que Dante mantinha na folha de pagamento para seus trabalhos mais sujos estava de pé sobre mim, uma câmera DSLR na mão.
Olhei para baixo. O pânico, frio e agudo, perfurou a névoa do sedativo.
Eu estava nua.
Recuei, agarrando o lençol até o queixo enquanto o quarto girava em uma inclinação nauseante. Era uma suíte de hotel. Arte genérica, paredes bege. Não a nossa.
"O que você está fazendo?", grasnei, minha garganta seca como lixa.
"Apenas um seguro", disse Léo, verificando o visor de sua câmera com um sorriso satisfeito. "Dante quer ter certeza de que você se lembre do seu lugar. Se você pensar em falar com a Federal, ou pedir o divórcio por adultério... bem, essas fotos suas - drogada, nua e em um quarto de hotel com um homem que não é seu marido - vão parar em todos os tabloides de São Paulo."
Meu estômago revirou. Dante não apenas me drogou para me manter quieta na festa; ele orquestrou isso. Ele encomendou a humilhação de sua própria esposa.
Léo sentou-se na beira da cama, o colchão afundando sob seu peso. Ele estendeu a mão, seus dedos roçando uma mecha do meu cabelo.
"Você é uma gracinha, Helena. É uma pena que Dante prefira a princesa de plástico."
"Não me toque." Bati na mão dele, o movimento súbito enviando uma pontada de dor pela minha cabeça.
Léo riu, um som baixo e feio. Ele se levantou e jogou uma pilha de roupas na cama. Minhas roupas.
"Vista-se. Você está livre para ir. Dante está ocupado comemorando."
Vesti-me com as mãos trêmulas, lutando contra a vontade de vomitar. Senti-me suja. Minha pele se arrepiou, como se a lente de Léo tivesse deixado uma gosma física em meu corpo.
Não coloquei minha calcinha de volta; não suportava a sensação de nada me tocando mais do que o absolutamente necessário.
Peguei minha bolsa e cambaleei em direção à porta.
Léo gritou atrás de mim, sua voz me seguindo pelo corredor. "Dê uma olhada nas notícias quando sair. Você está nos trending topics."
Não peguei o elevador principal. Encontrei o de serviço, espremendo-me entre um carrinho de lençóis sujos e uma camareira de olhos arregalados.
Eu precisava de ar. Precisava respirar algo - qualquer coisa - que não estivesse contaminado pela família Russo.
Cambaleei para o ar frio da noite no beco dos fundos. O barulho da cidade era um rugido abafado pressionando meus ouvidos.
Caminhei em direção à avenida principal, meus saltos raspando asperamente no concreto. Olhei para cima.
A Avenida Paulista brilhava à distância, mas meus olhos se fixaram em um grande outdoor digital na esquina do quarteirão do hotel. Estava transmitindo imagens ao vivo da festa pós-evento.
Lá estava ele.
Dante Russo. Meu marido. O homem que jurou me honrar e me amar.
Ele estava em uma varanda, o horizonte da cidade brilhando atrás dele. Sofia Moretti estava em seus braços. Ela usava o colar de safira - aquele pelo qual o Juiz Esteves havia dado um lance.
Dante o comprara, afinal.
Enquanto eu observava, congelada na calçada como uma estátua, Dante se inclinou. Ele a beijou.
Não foi um beijo educado na bochecha. Foi uma reivindicação.
Ele a beijou com uma possessividade que costumava reservar para mim. A câmera deu um zoom. Sofia riu, jogando a cabeça para trás, a mão dela repousando no peito dele, bem sobre o coração.
Uma multidão de pessoas na rua parou para assistir. Alguém assobiou.
"Casal poderoso", um cara ao meu lado murmurou.
Virei-me e vomitei em uma lata de lixo. O ácido queimou minha garganta, misturando-se com o sabor persistente e enjoativo do champanhe que Dante me forçou a beber.
Limpei a boca com as costas da mão. Endireitei-me.
As lágrimas não vieram. Eu as chorei todas na clínica. Eu as chorei todas no quarto do pânico.
Peguei meu celular da bolsa e encarei a tela. Dez chamadas perdidas de velhos amigos da minha mãe, provavelmente perguntando se eu estava bem depois do julgamento.
Abri o compartimento do chip. Peguei o pequeno chip e o quebrei ao meio. Joguei os pedaços na poça de vômito na lata de lixo.
Então abri as configurações e iniciei uma restauração completa de fábrica.
Observei a barra de progresso se encher. Quando a tela ficou preta, joguei o celular no lixo também.
Helena Vitti era um passivo. Ela era uma vítima. Ela era uma mulher que deixava homens como Dante Russo a quebrarem.
Virei as costas para o outdoor.
Caminhei para a escuridão e, pela primeira vez em anos, não olhei para trás.