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Capítulo 6

Ponto de Vista de Helena Vitti

A primeira coisa que registrei foi o flash.

Ele rasgou a escuridão - uma estrela branca ofuscante explodindo atrás das minhas pálpebras - seguida imediatamente pelo zumbido-clique mecânico de um obturador.

Tentei levantar a mão para proteger o rosto, mas meus membros pareciam de chumbo. O sedativo que Dante me forçou a engolir ainda pesava no meu sangue, uma âncora química me prendendo ao colchão.

"Bom te ver entre os vivos, Sra. Russo."

A voz era gordurosa, cobrindo minha pele com uma camada de sujeira fantasma. Abri meus olhos pesados. Léo. O investigador particular que Dante mantinha na folha de pagamento para seus trabalhos mais sujos estava de pé sobre mim, uma câmera DSLR na mão.

Olhei para baixo. O pânico, frio e agudo, perfurou a névoa do sedativo.

Eu estava nua.

Recuei, agarrando o lençol até o queixo enquanto o quarto girava em uma inclinação nauseante. Era uma suíte de hotel. Arte genérica, paredes bege. Não a nossa.

"O que você está fazendo?", grasnei, minha garganta seca como lixa.

"Apenas um seguro", disse Léo, verificando o visor de sua câmera com um sorriso satisfeito. "Dante quer ter certeza de que você se lembre do seu lugar. Se você pensar em falar com a Federal, ou pedir o divórcio por adultério... bem, essas fotos suas - drogada, nua e em um quarto de hotel com um homem que não é seu marido - vão parar em todos os tabloides de São Paulo."

Meu estômago revirou. Dante não apenas me drogou para me manter quieta na festa; ele orquestrou isso. Ele encomendou a humilhação de sua própria esposa.

Léo sentou-se na beira da cama, o colchão afundando sob seu peso. Ele estendeu a mão, seus dedos roçando uma mecha do meu cabelo.

"Você é uma gracinha, Helena. É uma pena que Dante prefira a princesa de plástico."

"Não me toque." Bati na mão dele, o movimento súbito enviando uma pontada de dor pela minha cabeça.

Léo riu, um som baixo e feio. Ele se levantou e jogou uma pilha de roupas na cama. Minhas roupas.

"Vista-se. Você está livre para ir. Dante está ocupado comemorando."

Vesti-me com as mãos trêmulas, lutando contra a vontade de vomitar. Senti-me suja. Minha pele se arrepiou, como se a lente de Léo tivesse deixado uma gosma física em meu corpo.

Não coloquei minha calcinha de volta; não suportava a sensação de nada me tocando mais do que o absolutamente necessário.

Peguei minha bolsa e cambaleei em direção à porta.

Léo gritou atrás de mim, sua voz me seguindo pelo corredor. "Dê uma olhada nas notícias quando sair. Você está nos trending topics."

Não peguei o elevador principal. Encontrei o de serviço, espremendo-me entre um carrinho de lençóis sujos e uma camareira de olhos arregalados.

Eu precisava de ar. Precisava respirar algo - qualquer coisa - que não estivesse contaminado pela família Russo.

Cambaleei para o ar frio da noite no beco dos fundos. O barulho da cidade era um rugido abafado pressionando meus ouvidos.

Caminhei em direção à avenida principal, meus saltos raspando asperamente no concreto. Olhei para cima.

A Avenida Paulista brilhava à distância, mas meus olhos se fixaram em um grande outdoor digital na esquina do quarteirão do hotel. Estava transmitindo imagens ao vivo da festa pós-evento.

Lá estava ele.

Dante Russo. Meu marido. O homem que jurou me honrar e me amar.

Ele estava em uma varanda, o horizonte da cidade brilhando atrás dele. Sofia Moretti estava em seus braços. Ela usava o colar de safira - aquele pelo qual o Juiz Esteves havia dado um lance.

Dante o comprara, afinal.

Enquanto eu observava, congelada na calçada como uma estátua, Dante se inclinou. Ele a beijou.

Não foi um beijo educado na bochecha. Foi uma reivindicação.

Ele a beijou com uma possessividade que costumava reservar para mim. A câmera deu um zoom. Sofia riu, jogando a cabeça para trás, a mão dela repousando no peito dele, bem sobre o coração.

Uma multidão de pessoas na rua parou para assistir. Alguém assobiou.

"Casal poderoso", um cara ao meu lado murmurou.

Virei-me e vomitei em uma lata de lixo. O ácido queimou minha garganta, misturando-se com o sabor persistente e enjoativo do champanhe que Dante me forçou a beber.

Limpei a boca com as costas da mão. Endireitei-me.

As lágrimas não vieram. Eu as chorei todas na clínica. Eu as chorei todas no quarto do pânico.

Peguei meu celular da bolsa e encarei a tela. Dez chamadas perdidas de velhos amigos da minha mãe, provavelmente perguntando se eu estava bem depois do julgamento.

Abri o compartimento do chip. Peguei o pequeno chip e o quebrei ao meio. Joguei os pedaços na poça de vômito na lata de lixo.

Então abri as configurações e iniciei uma restauração completa de fábrica.

Observei a barra de progresso se encher. Quando a tela ficou preta, joguei o celular no lixo também.

Helena Vitti era um passivo. Ela era uma vítima. Ela era uma mulher que deixava homens como Dante Russo a quebrarem.

Virei as costas para o outdoor.

Caminhei para a escuridão e, pela primeira vez em anos, não olhei para trás.

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