Ela estava rindo, segurando uma taça de champanhe, cercada por bajuladores que sabiam que não deviam mencionar a enfermeira que ela havia envenenado.
"Sorria", Dante murmurou, sua mão repousando na base das minhas costas.
Não era uma carícia; era um grampo, uma armadilha de aço envolta em seda.
"O Juiz Esteves está observando."
Juiz Esteves. O homem que havia assinado o mandado para a batida na família rival no mês passado. Um homem que Dante possuía, ou pelo menos, alugava por hora.
Nós nos movemos em direção à mesa VIP.
Esteves era um homem inchado com olhos lacrimejantes que me despiram no momento em que nos aproximamos.
"Dante", Esteves bradou, ignorando-me completamente a princípio. "E a adorável Sra. Russo. Você parece... subjugada esta noite."
"Ela está de luto", disse Dante suavemente. "Pela tragédia."
"Ah, sim. Negócio terrível." Esteves acenou com a mão, dispensando a morte da minha mãe como um boletim meteorológico ruim. "Mas estamos aqui para celebrar novos começos."
O leilão começou.
Era uma fachada de caridade, é claro, lavando dinheiro através de bugigangas superfaturadas. O item principal era um colar de safira, azul profundo, como o oceano em que eu queria me afogar.
"Começamos o lance em duzentos e cinquenta mil", anunciou o leiloeiro.
Dante levantou sua placa. "Trezentos mil."
Ele estava comprando um presente para Sofia. Eu sabia. Ele tinha que apaziguar o pai dela.
"Trezentos e cinquenta", contrapôs Esteves, sorrindo para Dante com dentes amarelados.
"Quatrocentos", disse Dante, com a voz entediada.
"Quinhentos mil reais", disse Esteves. Ele se inclinou para perto de Dante, o cheiro de uísque e decadência emanando dele.
"Mas talvez possamos fazer uma troca, Russo. Eu não preciso do colar. Minha esposa odeia azul. Mas eu preciso de uma companhia para o fim de semana em Angra dos Reis. Alguém... discreta. Alguém elegante."
Seus olhos deslizaram para mim, pesados e úmidos.
Senti a bile subir na minha garganta. Ele estava pedindo para me pegar emprestada. Como um carro. Como uma prostituta.
Olhei para Dante.
Esperei pela raiva. Esperei que o Consigliere quebrasse os dedos de Esteves por desrespeitar sua esposa.
Dante não se moveu.
Ele encarou Esteves. Ele estava calculando. Ele estava pesando o valor da influência do Juiz contra a minha dignidade.
O silêncio se estendeu. Um segundo. Dois. Três.
Nesse silêncio, meu marido morreu.
"Vou analisar a logística", disse Dante finalmente, seu tom desprovido de emoção.
O mundo girou. Eu não conseguia respirar. Ele não disse não. Ele disse que iria analisar.
Virei-me e corri.
"Helena!" A voz de Dante era afiada, mas eu não parei.
Abri caminho pela multidão, esbarrando em garçons, ofegando por ar. Cheguei ao corredor, meus saltos clicando um pânico staccato no mármore.
Dante me alcançou perto dos elevadores. Ele agarrou meu braço, me girando com força suficiente para fazer meus dentes rangerem.
"Me solta!", sibilei, tentando arranhar seu rosto. "Seu cafetão! Você ia me vender!"
"Abaixe a voz", ele retrucou, me prendendo contra a parede. "Esteves está bêbado. Eu estava o acalmando. São negócios, Helena. Política. Eu nunca deixaria ele te tocar de verdade."
"Você hesitou!", gritei. "Você pensou nisso!"
Juntei cada gota de saliva na minha boca e cuspi em seu rosto.
Dante congelou.
Ele limpou a bochecha lentamente. Seus olhos ficaram negros, as pupilas engolindo as íris.
"Isso", disse ele, sua voz terrivelmente, anormalmente calma, "foi um erro."
Ele não me bateu.
Ele fez um sinal para um garçom que passava com uma bandeja de bebidas. Dante pegou uma taça de champanhe.
"Beba", ele ordenou.
"Não."
Ele apertou minha mandíbula, forçando minha boca a se abrir. Ele virou a taça.
O líquido queimou minha garganta, amargo e errado. Eu engasguei, tossindo, engolindo metade antes que pudesse parar.
"Acalme-se", disse ele.
Eu deslizei contra a parede. Meus membros ficaram pesados quase instantaneamente, como se chumbo tivesse substituído meu sangue. O quarto inclinou. As luzes se borraram em faixas de neon.
"O que...", eu arrastei as palavras, minha língua parecendo grossa demais para minha boca. "O que você..."
"Apenas algo para te ajudar a relaxar", disse Dante. Sua voz soava distante, debaixo d'água.
"Você está fazendo uma cena, Helena. Você precisa dormir."
Ele me guiou em direção ao elevador de serviço. Tentei empurrá-lo, mas minhas mãos pareciam pertencer a outra pessoa.
As portas se abriram. Ele me empurrou para dentro.
"Léo está lá em cima na suíte da cobertura", Dante disse ao guarda no elevador. "Certifique-se de que ela chegue lá. Diga a ele para tirar as fotos que precisamos. Se ela quer agir como uma prostituta, vamos garantir que tenhamos a arma para mantê-la quieta."
As portas se fecharam.
Deslizei para o chão, a escuridão me engolindo por inteiro.
Meu último pensamento foi no oceano. Eu precisava chegar à água. Eu precisava lavar ele da minha pele.