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Três Anos, Uma Grande Mentira
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Capítulo 2

Rodrigo acordou com o cheiro de café velho e silêncio. O silêncio foi a primeira coisa que pareceu errada. Normalmente, o aroma de uma cafeteira fresca, preparada exatamente como ele gostava, estaria vindo da cozinha. Clara era uma criatura de hábitos. Os hábitos dele.

Ele se virou. O lado dela da cama estava vazio, os lençóis frios e intocados. Ela não tinha voltado para a cama.

Ele se sentou, uma leve irritação o cutucando. Ela realmente tinha ido embora. Ele esperava lágrimas, talvez alguns gritos, seguidos por uma noite dramática no sofá. Mas ir embora? Era um pouco demais.

"Se fazendo de difícil", ele murmurou para si mesmo, balançando as pernas para fora da cama. "Ela vai voltar. Elas sempre voltam."

Ele tinha uma cirurgia marcada para as dez, uma complexa ponte de safena que exigia sua total atenção. Tomou um banho rápido, a água lavando o cheiro persistente do frango frio e da decepção da noite anterior. Ele disse a si mesmo que era decepção com o teatro dela, não com o espaço vazio que ela deixou para trás.

Ele pegou o celular para ligar para Bianca, um ritual que sempre o acalmava antes de uma grande cirurgia.

"Oi, você", disse ele, sua voz suavizando instantaneamente.

"Rodrigo!" A voz de Bianca era brilhante, cheia da energia juvenil que ele achava tão viciante. "Eu estava pensando em você. Você vem me ver hoje?"

"Depois da minha cirurgia. Prometo. Como você está se sentindo?"

"Muito melhor! O médico disse que meus exames estão perfeitos. Acho que talvez eu possa ir para casa em breve. Para casa de verdade."

As palavras enviaram um choque de algo complicado através dele. Alívio, sim. Mas algo mais também. Um lampejo de ansiedade que ele não conseguia nomear.

"Isso é ótimo, B. Apenas vá com calma. Não se esforce."

"Não vou. Vou ficar aqui, esperando meu lindo marido vir me resgatar."

Ele sorriu. Isso era fácil. Este era o roteiro que ele conhecia. Ele era o salvador, o provedor, o herói. Com Clara, as linhas sempre foram borradas. Ela era enfermeira; ela também resgatava pessoas. Ela não precisava dele da mesma maneira.

Ele desligou e dirigiu para o hospital, o desconforto da casa vazia desaparecendo enquanto ele mergulhava no mundo familiar e estéril da medicina. Ele era o Dr. Montenegro aqui. Confiante, no controle.

Após uma cirurgia bem-sucedida, ele foi direto para o quarto de Bianca na ala de transplantes. Ela estava sentada na cama, o rosto radiante. Ela praticamente se lançou em seus braços quando ele entrou.

"Você está aqui!" ela gritou, abraçando-o com força.

"Eu disse que viria", disse ele, acariciando seu cabelo. Ele a segurou à distância, seus olhos fazendo uma varredura rápida e profissional. "Você parece melhor. A cor está boa."

"Eu me sinto incrível. É como se... como se o rim dela finalmente tivesse decidido ser meu amigo", disse ela com uma risadinha.

Ele sentiu um estranho aperto no peito com a menção de Clara. "É uma parte de você agora, B. Você só precisa cuidar dele."

"Eu vou", disse ela, sua expressão ficando séria. "Eu prometo. Podemos finalmente começar nossas vidas, Rodrigo. Chega de se esconder. Chega dela."

Ela se inclinou, seus lábios encontrando os dele. Ele a beijou de volta, o movimento automático. Ele disse a si mesmo que era isso que ele queria. Este era o objetivo final, o culminar de anos de obrigação e planejamento secreto.

"O médico disse que eu posso ter alta já na próxima semana", ela sussurrou contra sua boca. "Podemos fazer aquela viagem para a Itália que conversamos."

"O que você quiser, B", disse ele, sua voz um pouco rouca.

Ela se afastou um pouco, seus olhos perscrutando os dele. "Você contou para ela?"

"Ela sabe", disse ele, seu tom plano. "Ela viu uma correspondência."

"E? Ela foi horrível? Ela chorou?" Havia uma curiosidade aguda e ansiosa em sua voz que era ligeiramente desagradável.

"Ela foi embora", disse ele simplesmente. "Fez uma mala e foi embora."

"Bom", disse Bianca, um sorriso satisfeito se espalhando por seu rosto. "Já era hora. Ela estava sempre por perto, empesteando o ar como um encosto." Ela se recostou nos travesseiros, parecendo satisfeita consigo mesma. "Ela provavelmente estava apenas tentando fazer você se sentir culpado. Ela vai te ligar, implorando para voltar, você vai ver."

Rodrigo não respondeu. Ele olhou pela janela, um estranho vazio ecoando em seu peito. Ele esperava se sentir aliviado, livre. Em vez disso, ele apenas se sentia... quieto.

"O que há de errado?" Bianca perguntou, sentindo sua mudança de humor. "Você está preocupado com sua cirurgia?"

"Não, a cirurgia correu bem", disse ele, forçando um sorriso. "Apenas cansado. Dia longo."

"Bem, você precisa descansar", disse ela, dando um tapinha em sua mão. "Vá para casa. Durma um pouco. Eu vou ficar bem."

Ele assentiu, grato pela desculpa para sair. Deu-lhe outro beijo superficial e saiu do quarto.

Enquanto caminhava pelo corredor, sentiu a vibração no bolso. Era uma mensagem de Léo. 'Bebida hoje à noite? Ouvi dizer que você é um homem livre.'

Ele não deveria. Estava de plantão. Mas o pensamento de voltar para aquela casa silenciosa e vazia era insuportável.

'Sim. Bar Veloso. 8 horas.'

De volta ao seu quarto, Bianca o observou ir, seu sorriso desaparecendo assim que a porta se fechou. Ela pegou um celular descartável escondido sob o colchão. Um lampejo de dúvida cruzou sua mente. A reação dele não foi o que ela esperava. Ele não estava comemorando. Ele estava... distante.

Ela precisava ter certeza de que Clara estava fora de cena para sempre. Ela percorreu seus contatos, encontrando o número que usara antes. Seus dedos voaram pela tela, digitando outra mensagem, esta projetada não apenas para informar, mas para quebrar.

'Ele me escolheu. Ele sempre me escolheu. Nós vamos ter um bebê.'

Ela anexou a foto do teste de gravidez positivo. Era uma foto antiga, de um susto que tiveram há um ano e que não deu em nada. Mas Clara não precisava saber disso.

Ela apertou enviar, um sorriso cruel e triunfante retornando ao seu rosto. Isso deve resolver. Esse deve ser o empurrão final que Clara precisava para desaparecer para sempre.

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