"Sim, estou aqui. Tenho pacientes esta manhã. Posso estar aí por volta do meio-dia."
"Perfeito! Estarei toda arrumada e pronta. Nossa nova vida começa hoje!"
Ele desligou, uma onda de náusea o percorrendo. Sua cabeça latejava. Ele saiu cambaleando do chuveiro e foi para o banheiro principal, procurando no armário de remédios os comprimidos para o estômago que Clara sempre mantinha estocados para sua gastrite induzida por estresse. O frasco estava vazio.
Ele praguejou baixinho. Claro. Ele estava prestes a bater a porta do armário quando viu. Um frasco novo, fechado, guardado no fundo. E ao lado, um pequeno post-it amarelo.
'O seu está quase acabando. Comprei um novo. Lembre-se de tomar com comida! - C'
Seus dedos tremeram ao pegar o frasco. O bilhete era da semana passada. Ela estava sempre um passo à frente, sempre cuidando dele, mesmo quando ele mal notava. Ele engoliu dois comprimidos a seco, o simples ato de sua previdência uma pontada súbita e aguda em seu peito.
Ele se vestiu, o silêncio do apartamento pressionando-o. Decidiu ligar para ela. Apenas para ver onde ela estava. Para dizer a ela para vir buscar o resto de suas coisas. Era uma ligação prática, ele disse a si mesmo.
O telefone tocou uma, duas vezes, e foi direto para a caixa postal. "Oi, você ligou para a Clara. Por favor, deixe uma mensagem." A voz dela era calorosa e alegre, um contraste gritante com a fria realidade da situação. Ele desligou sem deixar recado.
Ele chegou ao hospital ao meio-dia, estampando um sorriso no rosto ao entrar no quarto de Bianca. Ela estava praticamente vibrando de energia, vestida com jeans e um suéter rosa choque, uma diferença gritante da garota pálida e frágil que fora por tanto tempo.
"Você está aqui!" Ela jogou os braços ao redor de seu pescoço.
"Vamos para casa", disse ele, gentilmente a afastando e pegando suas malas. Ele foi cuidadoso com ela, guiando-a pelos corredores do hospital, a mão na base de suas costas, protegendo-a das multidões agitadas.
"Não acredito que estou saindo daqui", disse ela, respirando fundo o ar de fora. "Tem cheiro de liberdade."
Ele a acomodou no carro, certificando-se de que o cinto de segurança estava firme. Ela tagarelou o caminho todo para casa, falando sobre redecorar o apartamento, os lugares para onde viajariam, a vida que finalmente teriam. Ele apenas assentia, seu próprio apartamento parecendo menos um lar e mais um palco para uma peça da qual ele não tinha mais certeza se queria participar.
Eles decidiram sair para um almoço comemorativo. Um lugar chique no Jardins que Clara sempre quis experimentar, mas que ele sempre dizia ser muito caro.
Eles se sentaram em uma mesa de canto tranquila. Ele pediu por ela, garantindo que tudo estivesse de acordo com sua dieta pós-transplante. Ela beliscou a comida, o garfo raspando no prato.
"Este peixe está um pouco seco", ela reclamou com um beicinho.
"É bom para você", disse ele, sua paciência se esgotando.
"Eu sei, eu sei", disse ela, estendendo a mão sobre a mesa para pegar a dele. "Me desculpe. É que estou tão feliz."
Ele estava prestes a responder quando uma voz áspera cortou o murmúrio silencioso do restaurante.
"Seu desgraçado."