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Três Anos, Uma Grande Mentira
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Capítulo 6

A mão de Bianca parou em seu peito quando ele se afastou. "O que foi?" ela perguntou, um toque de impaciência em sua voz.

Ele se sentou, passando a mão pelo cabelo. "É que... você acabou de sair do hospital, B. Deveríamos ir com calma."

Era uma desculpa fraca, e ambos sabiam disso. Ele viu um lampejo de irritação em seus olhos antes que ela o mascarasse com um olhar de preocupação.

"Você está certo", disse ela, a voz suave e compreensiva. "Você é sempre tão bom para mim." Ela encostou a cabeça em seu ombro. "Vou tomar um banho. Relaxar um pouco."

Ele assentiu, grato pelo espaço. Enquanto ela desaparecia no banheiro, seus olhos percorreram a sala de estar. Era o espaço dela agora. Suas malas estavam perto da porta, seu cobertor favorito já estava jogado sobre a poltrona em que Clara costumava sentar. Mas seu olhar se fixou na lareira.

Escondido atrás de uma foto emoldurada dele e de Bianca em um jogo de futebol da faculdade, havia um pequeno pinguim de argila, toscamente feito. Clara o fizera em um daqueles lugares de pintar cerâmica no primeiro aniversário deles. Ela estava tão orgulhosa dele. Ele achara infantil. Ele o colocou atrás da foto, meio que escondendo-o. Agora, ver seu sorriso estúpido e torto parecia um soco no estômago.

Ele se aproximou e o pegou. A argila estava fria e lisa em sua mão. Ele se lembrou dela rindo, com manchas de tinta azul no nariz, enquanto tentava acertar o bico. 'Ele parece mal-humorado, igual a você antes do café da manhã', ela havia provocado.

Ele ouviu o chuveiro ligar. Rapidamente, colocou o pinguim de volta em seu esconderijo, o coração batendo forte sem motivo. O que havia de errado com ele? Era isso que ele queria. Ele estava livre.

Ele passou a hora seguinte tentando se distrair, pedindo comida, desfazendo as malas de Bianca, guardando suas coisas em gavetas que ainda tinham o cheiro fraco do perfume de Clara. Cada objeto mundano era uma mina terrestre de memória. A marca específica de chá que Clara bebia. O livro de receitas desgastado que ela usava toda semana. Os bilhetinhos que ela deixava na geladeira.

Ele estava assistindo TV, a mente a um milhão de quilômetros de distância, quando uma reportagem apareceu. Uma notícia de última hora sobre um engavetamento na Marginal Pinheiros duas noites atrás. Sua atenção se aguçou quando mostraram uma imagem dos destroços. Um sedan prata, a frente completamente esmagada.

Parecia o carro de Clara.

Ele se inclinou para frente, o coração começando a martelar contra as costelas. Não podia ser. Havia milhares de sedans pratas na cidade. Mas então a câmera deu um zoom na janela traseira estilhaçada. Um pequeno adesivo desbotado ainda era visível no canto. O símbolo da escola de enfermagem da USP. Um presente de Júlia quando Clara se formou.

Não. Não podia ser.

Ele sentiu uma necessidade súbita e desesperada de sair do apartamento.

"Bianca", ele chamou, a voz tensa. "Preciso dar um pulo no hospital. Esqueci de assinar alguns prontuários."

Ela saiu do quarto, enrolada em uma toalha, o cabelo úmido. "Agora? Mas o jantar está quase chegando."

"É uma emergência", ele mentiu, pegando as chaves. "Volto assim que puder."

Ele fugiu do apartamento, a imagem do carro destruído gravada em suas retinas. Ele dirigiu de volta para sua própria casa, a que ele compartilhara com Clara. Ele não sabia por que estava indo para lá. Ele só precisava ver, confirmar que ela não estava lá, que estava segura em outro lugar.

Ao virar em sua rua, ele viu uma luz acesa na janela da sala. Uma onda de alívio tão poderosa que o deixou tonto o invadiu. Ela estava em casa. Ela tinha voltado.

Ele estacionou e praticamente correu para a porta da frente, atrapalhando-se com a chave. Ele empurrou a porta, um nome em seus lábios. "Clara?"

A diarista, Maria, estava na sala, empacotando uma caixa. Ela ergueu os olhos, assustada.

"Dr. Montenegro? Pensei que o senhor não voltaria aqui."

"A luz estava acesa", disse ele, a voz oca enquanto o alívio se esvaía, substituído por um pavor frio. "Eu pensei..."

"A Sra. Almeida me pagou pelo resto do mês", disse Maria suavemente. "Ela me pediu para empacotar as coisas dela. Disse que mandaria alguém para buscar."

Seu telefone tocou, o som estridente o fazendo pular. Era um número desconhecido. Ele quase ignorou, mas algo o fez atender.

"Estou falando com Rodrigo Montenegro?" uma voz masculina e formal perguntou.

"Sim. Quem é?"

"Aqui é o Investigador Miller, da Polícia Civil de São Paulo. Estamos ligando a respeito de um veículo registrado em nome da Sra. Clara Almeida."

O sangue de Rodrigo virou gelo. "O que tem ele?"

"Senhor, o veículo esteve envolvido em uma colisão de trânsito fatal há duas noites. Estamos tentando contatar o parente mais próximo dela. Seu número estava listado como contato de emergência."

As palavras não faziam sentido. Fatal. Colisão. Clara.

"Não", disse Rodrigo, a voz mal um sussurro. "Não, isso não é possível. Ela está bem. Ela só foi embora." Ele soava como um louco, até para seus próprios ouvidos.

"Senhor", disse o policial, a voz paciente, mas firme. "Precisamos que o senhor venha ao IML para fazer uma identificação positiva."

O telefone escorregou de seus dedos dormentes e caiu no chão de madeira.

Fatal.

Ele caiu de joelhos, o mundo girando ao seu redor. Era um engano. Um engano horrível, terrível. Tinha que ser.

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