O silêncio no carro era pesado. Clara era sempre quem preenchia o silêncio, tagarelando sobre seu dia no hospital, alguma coisa engraçada que um paciente disse, ou uma nova receita que ela queria experimentar. Ele geralmente apenas resmungava em resposta, ouvindo pela metade enquanto sua mente estava no trabalho ou em Bianca. Agora, a ausência de sua voz era uma presença física.
Ele finalmente saiu da marginal e deu a volta, um sentimento desconhecido de pavor se instalando em seu estômago enquanto entrava na garagem. Ele saiu do carro, meio esperando, meio torcendo para ver o carro dela de volta em sua vaga. Não estava.
Ele entrou em casa. O frango assado frio ainda estava no balcão, agora coberto com filme plástico. Um único prato estava posto na mesa. O prato dele.
Uma onda de irritação o invadiu. Isso era tão dramático. Ela estava tentando provar um ponto, fazê-lo se sentir mal. Estava funcionando, e isso o irritava ainda mais.
Ele viu a diarista, Maria, terminando na cozinha.
"Boa noite, Dr. Montenegro", disse ela, seus olhos cheios de uma simpatia que ele não queria.
"Maria. A... a Sra. Almeida voltou?" ele perguntou, tentando soar casual.
"Não, Doutor. Ela saiu ontem à noite. Levou uma mala pequena." O olhar de Maria era conhecedor. Ela estava com eles há anos. Ela tinha visto tudo.
"Certo", disse ele, virando-se. "Bem, você terminou por hoje. Eu tranco tudo."
Depois que ela saiu, o silêncio desceu novamente, mais denso desta vez. Ele andou pelos cômodos. Tudo estava arrumado, limpo, exatamente como Clara sempre mantinha. Mas parecia estéril, vazio. Como um quarto de hotel.
Ele não aguentou. Pegou as chaves e foi para o Bar Veloso.
Léo já estava no bar, uma cerveja esperando por ele. "Aí está ele! O recém-solteiro!" Léo deu um tapa em suas costas. "À liberdade!"
Rodrigo deu um longo gole em sua cerveja, o líquido frio fazendo pouco para anestesiar o nó em seu estômago.
"Então ela realmente se foi?" Léo perguntou, seu tom mais sério agora.
"Parece que sim", disse Rodrigo, encolhendo os ombros. "Ela finalmente entendeu o recado."
"Que recado? Que você a enganou por três anos?" Léo disse isso com uma risada cínica, mas as palavras pairaram no ar.
"Não foi assim", Rodrigo retrucou, mais defensivo do que pretendia.
"Claro que não foi", disse Léo, levantando as mãos em rendição. "Olha, estou feliz por você, cara. Você finalmente acabou com a farsa. Bianca está melhor, você pode ficar com ela. É o que você sempre quis, certo?"
"Certo", disse Rodrigo, forçando a palavra a sair.
"Quero dizer, a Clara era legal e tudo", Léo continuou, alheio ao humor de Rodrigo. "Um pouco legal demais, sabe? Tipo, esposa de comercial de margarina. Sempre cozinhando, sempre limpando, sempre perguntando sobre o seu dia. Deve ter sido exaustivo."
Rodrigo estremeceu. Ele nunca tinha pensado nisso dessa forma. Era apenas... o que Clara fazia.
"Ela me enviou os papéis do divórcio", disse Rodrigo, mudando de assunto. Ele recebera o e-mail do advogado dela naquela tarde. Parecia surreal.
"Divórcio? Vocês não eram casados", disse Léo, confuso.
"É simbólico, eu acho", Rodrigo murmurou. "O jeito dela de se posicionar."
"Bem, ótimo", disse Léo, sinalizando ao barman por outra rodada. "Assine, mande de volta, e acabou. Corte limpo. Você pode se concentrar na Bianca agora. Ela é quem você ama, certo?"
"Claro", disse Rodrigo, sua voz plana. Ele repetiu para si mesmo, um mantra que vinha cantando há anos. Eu amo a Bianca. Estou fazendo isso pela Bianca.
Mas, pela primeira vez, um pingo de dúvida se insinuou. Ele pensou no rosto de Clara na noite anterior, na forma como a luz se esvaiu de seus olhos quando ele lhe contou a verdade. Ele pensou em sua força silenciosa, sua lealdade inabalável, na maneira como ela segurou sua mão por horas depois que seu próprio pai morreu, sem dizer uma palavra, apenas estando lá.
"Você está bem, cara?" Léo perguntou, cutucando-o. "Você parece estar a um milhão de quilômetros de distância."
"Apenas cansado", disse Rodrigo, esvaziando sua segunda cerveja. "Dia longo."
Eles beberam por horas, Léo falando sobre trabalho, mulheres, esportes - toda a besteira de sempre. Rodrigo apenas assentia, sua mente repassando as últimas 24 horas. O rosto dela. A carta. A casa vazia.
Quando Léo finalmente deu um tapa em seu ombro para ir embora, já passava da meia-noite. "Sério, cara, parabéns. Você está livre. Não estrague tudo."
Rodrigo dirigiu para casa, o álcool fazendo sua cabeça girar. Ele tropeçou para dentro da casa escura, o silêncio gritando para ele. Ele pegou o celular, o polegar pairando sobre o contato de Clara. Ele queria ligar. Gritar com ela por ser tão dramática. Perguntar onde ela estava. Ouvir sua voz.
Ele se conteve. Não. Era isso que ele queria. Corte limpo.
Ele foi para o quarto e caiu na cama, totalmente vestido. Ele rolou para o lado, encarando o espaço vazio ao seu lado. Um cheiro fraco e doce pairava no ar. O xampu dela. Baunilha e algo floral.
Uma dor estranha e aguda perfurou a névoa alcoólica. Não era mais apenas irritação. Parecia perda. Ele apertou os olhos, tentando forçar o sentimento a ir embora.
Ela voltaria. Ela tinha que voltar.