Agora eu sabia que essa esperança era uma mentira.
Eu podia ouvir a água correndo no banheiro dele. Cravei as unhas na palma da minha mão, a dor aguda uma distração bem-vinda.
Tentei dizer a mim mesma que tudo isso era um pesadelo. Que o calor da nossa infância era a realidade, e este presente frio e cruel era apenas um sonho ruim.
Mas não era.
Não sei por que, mas meus pés me levaram para fora do meu quarto e até a porta dele. Fiquei ali, ouvindo, meu coração batendo forte.
A porta se abriu de repente, e quase colidimos. Heitor estava ao telefone, a testa franzida. Ele mal olhou para mim ao passar.
Uma onda de alívio patético me invadiu. Ele estava saindo. Ele não tinha passado a noite com ela.
Abri a porta dele.
O alívio morreu instantaneamente.
Gigi estava lá, parada no meio do quarto. Ela não usava nada além de uma calcinha de seda e uma das camisas brancas de botão de Heitor. A camisa estava desabotoada, revelando a curva de seus seios. Era uma declaração inconfundível.
Ela passou a mão pelo cabelo, um gesto lento e sedutor. "Heitor, querido", ela chamou com uma voz sensual, sabendo que eu estava assistindo. "Você vai voltar para a cama?"
Algo dentro de mim se partiu.
Eu avancei, agarrando um punhado de seu cabelo e puxando sua cabeça para trás. Eu a esbofeteei, uma, duas vezes, a ardência na minha palma imensamente satisfatória.
"Nunca mais o chame assim", rosnei, minha voz crua de fúria. "Ele não é seu 'querido'."
Gigi apenas sorriu, seus olhos cheios de veneno. "Ele é meu tio por afinidade, Laura. Isso o torna meu mais velho. Você, por outro lado, é apenas a filha adotiva que descaradamente subiu na cama dele."
As palavras me atingiram como um golpe físico.
Três anos atrás, na noite do meu aniversário de dezoito anos, alguém me drogou. Acordei na cama de Heitor. Ele acordou enojado, convencido de que eu tinha orquestrado tudo. A verdade nunca veio à tona. Uma empregada foi paga para assumir a culpa e depois desapareceu convenientemente. Heitor nunca acreditou na confissão dela por um segundo.
Nossas famílias ficaram escandalizadas. Minha mãe, Heloísa, e os avós de Heitor decretaram que eu não poderia me casar com ele como uma Navarro. Era vergonhoso demais. Então eles me tornaram a filha adotiva, e Gigi, sua verdadeira filha adotiva, foi elevada ao status de jovem dama da casa.
Olhei para o rosto de Gigi, aquela cópia perfeita do de Isabela. Meu corpo inteiro tremia com uma raiva tão profunda que me assustou.
"Por quê?" engasguei. "Por que você se fez parecer com ela?"
O sorriso de Gigi era uma curva lenta e cruel. "Para tirá-lo de você, é claro."
Ela se inclinou para mais perto, sua voz um sussurro venenoso. "Eu deveria te agradecer, na verdade. Se você não tivesse me empurrado para aquele fogo e arruinado meu rosto, eu nunca teria tido a chance de conseguir este. E ele ama este rosto."
"Eu não te empurrei!" gritei, a velha acusação abrindo uma nova ferida.
"Não importa", ela ronronou, recuando. "Ninguém acredita em você. Sua mãe te odeia. Seu irmão te odeia. Todos eles gostariam que você fosse a que morreu naquele incêndio, não a Isabela."
Suas palavras eram punhais. "Você deveria simplesmente morrer, Laura. Vá em frente. Faça isso."
Ela saiu do quarto, seus quadris balançando, vestindo nada além daquela camisa e calcinha. As empregadas no corredor baixaram os olhos, não ousando olhar para ela, a nova rainha do castelo.
Voltei para o meu quarto, minha mente um borrão de dor. Peguei o punhado de cabelo dela que eu tinha arrancado e joguei na lixeira. Nojento.
Caí no chão no canto, meu corpo se encolhendo em uma bola apertada. Meus olhos pousaram no frasco de pílulas na minha mesinha de cabeceira. Antidepressivos.
Minha mão os alcançou. Seria tão fácil.
Nesse momento, Heitor invadiu o quarto. Ele viu o frasco na minha mão, e seus olhos escureceram.
Ele se aproximou, seu rosto uma máscara de fúria fria. "Você não ousaria", ele rosnou, arrancando o frasco da minha mão. "Você não quer ter este bebê, quer?"
Ele olhou para o rótulo. Era um frasco de pílulas anticoncepcionais. Eu tinha colocado os antidepressivos dentro dele.
"Eu prometo", disse ele, sua voz escorrendo sarcasmo, "não vou te tocar de novo. Então você pode parar de tomar isso."