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A Dívida que nos Uniu
img img A Dívida que nos Uniu img Capítulo 5 Partida
5 Capítulo
Capítulo 6 Limites img
Capítulo 7 Destino Incerto img
Capítulo 8 Todo o tempo do Mundo img
Capítulo 9 Solo Fértil img
Capítulo 10 Construído uma conexão img
Capítulo 11 Por um fio img
Capítulo 12 Um acordo silencioso img
Capítulo 13 Um bom negócio, uma noite inesquecível img
Capítulo 14 Amor Recíproco img
Capítulo 15 Vontade de Você img
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Capítulo 5 Partida

A noite foi longa e insonne para Ana. Ela ficou deitada na cama ampla do quarto que, aos poucos, havia começado a parecer seu, mas que agora voltava a ser apenas um cômodo estranho na casa de outra pessoa. As palavras de Sofia ecoavam na cabeça como um disco riscado: vigarista, oportunista, parasita. Cada acusação doía , não porque fossem verdadeiras, mas porque vinham de alguém que Pedro amava profundamente, alguém que ele protegeria com unhas e dentes.

Ana se levantou antes que o céu clareasse. Ainda era madrugada, o silêncio da fazenda absoluto, exceto pelo canto distante de um grilo e o ocasional mugido de um bezerro. Vestiu-se com roupas simples e confortáveis, calçou as botas gastas que usava para andar pela propriedade e pegou a mala pequena que nunca chegara a desfazer completamente. Não levou nada que não fosse dela, apenas suas roupas, alguns livros, o dinheiro que sua mãe havia lhe dado, uma foto antiga da mãe e da tia sorrindo no quintal da fazenda dos Oliveira.

Passou pela cozinha na ponta dos pés. Na mesa, ainda estava o copo d'água que Pedro sempre deixava para ela à noite, um gesto que, em outra época, a faria sorrir. Agora, apenas apertou o peito. Ela escreveu um bilhete curto, com letra firme, apesar das mãos tremendo:

Pedro,

Obrigada por tudo.

Pela paciência, pela amizade, pelo espaço que você me deu para respirar.

Você me mostrou que nem todo homem é como meu pai, e isso já valeu mais do que qualquer dívida quitada.

Mas eu não aguento mais ver você dividido entre mim e sua filha. Sofia tem razão em uma coisa: eu não pertenço aqui. Não do jeito que as coisas estão. Não me procure. Deixe Sofia ter o pai dela de volta, sem brigas, sem tensão. Cuide-se. E cuide dela.

Você merece paz.

Ana.

Dobrou o papel com cuidado, deixou-o sobre a mesa da cozinha, ao lado do copo d'água. Depois, saiu pela porta dos fundos, a que dava para o pomar e para a estrada de terra que levava à porteira principal. Não olhou para trás.

O luar prateado iluminava o caminho, e o orvalho molhava suas botas enquanto ela caminhava rápido, o coração batendo forte no peito.

Ninguém a viu sair. A casa grande permaneceu escura e silenciosa. Pedro dormia no quarto no fim do corredor, exausto depois de mais um dia tentando mediar a tensão entre as duas mulheres que, de formas diferentes, ocupavam sua vida. Sofia dormia no quarto de hóspedes, convencida de que havia vencido a batalha.

Ana chegou à estrada principal quando o primeiro fio de luz rosada começava a surgir no horizonte. Um caminhão de leite passava devagar, ela acenou, e o motorista parou. Subiu na boleia sem dizer muito, apenas agradeceu ao senhor pela carona até a cidade.

O homem assentiu, sem perguntas.

Enquanto o caminhão se afastava, Ana olhou pela janela empoeirada e viu, pela última vez, o contorno da casa grande contra o céu que clareava. Uma pontada de dor atravessou seu peito, não raiva, não arrependimento, mas uma saudade antecipada de algo que nunca chegara a ser completamente seu.

Ela apertou a alça da mala contra o colo e respirou fundo.

- Vai ficar tudo bem - sussurrou para si mesma, como se tentasse convencer a garota teimosa que ainda vivia dentro dela. Mas, no fundo, uma parte dela já sabia que deixar Pedro para trás não seria tão simples quanto deixar a fazenda.

Enquanto isso, na casa, o sol nascente entrava pela janela da cozinha e iluminava o bilhete sobre a mesa. Pedro desceria em poucos minutos. Sofia também. E quando lessem aquelas palavras, o silêncio que Ana deixara para trás seria muito mais pesado do que qualquer grito ou briga que já houvera entre aquelas paredes.

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