Nada parecia pior do que ver o homem que eu amava com outra mulher. Ainda doía saber que ele teria um filho com Isadora e se casaria com ela em breve. Meu coração estava disparado; minhas mãos suadas escorregaram pela madeira maciça assim que a empurrei. Dei um passo à frente para acabar com aquele casamento, quando duas mãos me agarraram e me arrastaram para fora do salão.
Lutei para me manter de pé e não tropeçar com a força com que Camille Benedite me arrastava. Sua mão quente parecia brasa sobre minha pele e ela só parou quando finalmente estávamos em outro cômodo, longe da atenção dos convidados.
- O que acha que está fazendo? - O ar ficou preso em meus pulmões assim que olhei nos olhos dela. - Onde está a Isadora? Meu marido deu uma ordem clara a você para trazê-la e, como sempre, você a descumpriu.
- Eu sinto muito, senhora...
Ela me empurrou com força contra a porta enquanto agarrava meus cabelos, pressionando o meu rosto contra a madeira gelada.
- Serviçal inútil. Eu já deveria ter me livrado de você há muito tempo. - Ela me soltou e segurou meus ombros, girando-me tão depressa que fiquei tonta. - Onde diabos está minha filha? Por que não trouxe a Isadora com você, como foi ordenado?
Não respondi imediatamente; fui incapaz de encará-la. Não sabia como dizer a verdade sem provocar sua fúria. Meu corpo inteiro tremeu de medo quando abri os lábios e disse:
- A Isadora avisou que não virá para o casamento - minha voz saiu trêmula, quase sem força. - Eu irei substituí-la. Vou ser a noiva no lugar dela.
Fechei os olhos com força, esperando o golpe, mas tudo o que encontrei foi o silêncio. Quando os abri e encarei Camille corajosamente, vi-a sorrindo, zombando de mim como se eu fosse louca.
- Substituí-la? - Seu riso se intensificou, ficando alto e ácido ao mesmo tempo. - Quem você está pensando que é, Penélope? Você não é nada. Você nunca será nada e homem nenhum vai te querer como esposa. Você é patética, contando mentiras e achando que vai se safar de um castigo pior por não encontrar minha filha.
- Eu não estou mentindo... - Eu estava assustada, ainda assim continuei falando, tão depressa que mal podia respirar. - Ela está tendo um caso com Lionel e está grávida dele...
Ela me deu um tapa forte na bochecha. Antes que eu reagisse, Camille me agarrou e bateu de novo e de novo. Suas unhas afiadas rasgaram a pele do meu braço, que usei para me defender, quando ela abriu a porta e me empurrou para fora. Eu caí, sentindo meus ossos baterem no chão, e gemi de dor antes de abrir os olhos e ver dois pares de sapatos diante de mim.
- O que está acontecendo aqui? - Ergui o olhar e vi o senhor Benedite parado, olhando para mim com desprezo. - Onde está a Isadora?
Fiquei atônita. Estava sangrando, caída no chão diante dele, mas tudo o que ele queria saber era o paradeiro de sua filha.
- A sua escrava está dizendo que a Isadora não vai se casar porque está grávida de outro homem - disparou Camille.
Deslizei pelo chão polido, cambaleando enquanto tentava me erguer. As mãos fortes do senhor Benedite me seguraram e me levantaram rapidamente. Ele jamais tocaria em mim se não estivesse com raiva. Pude ver em seu olhar o quanto ele estava furioso.
- Por que você inventou uma mentira dessas, Penélope?
- Eu não... - Não consegui continuar; a mão dele apertou o meu pescoço.
- A Penélope não está inventando nada, pai. - A voz de Isadora rompeu o momento de pânico. O senhor Benedite me soltou como um saco velho de lixo pronto para ser descartado. - Eu ordenei que a Penélope dissesse que eu não vou me casar.
Um silêncio se apoderou do corredor. O único som que ouvi foi o do meu esforço inútil para me colocar de pé. Olhei para Isadora achando que ela estava ali para me salvar, mas, após se envolver com o meu namorado e engravidar dele, duvidei que ela tivesse outro sentimento além de querer me destruir.
- O que está dizendo? - ele perguntou.
O senhor Benedite passou por mim e agarrou o braço de Isadora, carregando-a para um cômodo afastado. Quando a porta se fechou, entendi que fui descartada. O homem que me comprara com uma maleta cheia de dinheiro para ser sua escrava não me deixaria participar daquela conversa, mesmo sendo eu a maior prejudicada.
Fui vendida como escrava à família Benedite quando tinha cinco anos. Contavam-me que meus pais eram pobres e não tinham sequer um lugar para morar quando bateram na porta da mansão e pediram um prato de comida. O senhor Benedite me viu pela primeira vez e fez uma oferta aos meus pais, que aceitaram imediatamente. Fui trocada por uma maleta cheia de dinheiro; não tenho nenhuma recordação, fotos ou documentos que provem o paradeiro deles. Foi assim que vim parar neste lugar; foi assim que me roubaram a infância e a adolescência. Uma vida inteira servindo em troca de casa e comida. Pelo menos, era isso que eles me diziam até hoje.
Levantei-me e olhei para a porta fechada enquanto escutava os gritos do senhor Benedite. Ele era um homem rígido e cruel, mas, durante meus vinte e dois anos morando naquela casa, nunca o vi tão descontrolado. Aproximei-me lentamente e encostei o ouvido na madeira, conseguindo ouvir o que diziam.
- Nicolas Becker é o homem mais rico deste país e, mesmo sendo poderoso, decidiu casar com você! - Os gritos dele ficaram mais altos; senti a tensão atravessar a porta. - O que vou dizer àquele homem? Que minha filha não vai se casar porque não é mais virgem?
- Eu não sou mais virgem há muito tempo, pai. - A coragem de Isadora em enfrentar o próprio pai me assustou. - Arrume uma noiva substituta que seja virgem e que se passe por sua filha. Afinal, aquele homem nunca me viu. Não vai saber que estamos mentindo.
O grunhido do senhor Benedite foi tão alto e furioso que me afastei. Ouvi o choro de Camille acompanhado pelo andar nervoso dele pelo cômodo. Após um longo e angustiante silêncio, ele finalmente falou:
- Eu não tenho tempo para arrumar uma noiva substituta! Ele está no salão esperando que você entre. Sabe o que acontecerá comigo se esse casamento não acontecer?
- Eu nunca quis me casar com esse homem, pai... - desafiou Isadora aos gritos.
Outro silêncio. Eu não deveria estar ali ouvindo aquela conversa, mas continuei parada, minha garganta inquieta, esperando a decisão final.
- A Penélope pode ser a noiva substituta - disse Isadora como se a ideia fosse dela, sua voz misturada ao desespero de Camille. - Ela é virgem, não é tão bonita quanto eu, nem tão inteligente, mas o senhor pode dizer que ela é sua filha.
Meu pulso trovejou nos ouvidos. Não sei por quanto tempo fiquei paralisada. Cambaleei para trás quando a porta foi aberta de repente. Encarei o olhar de nojo do senhor Benedite. Ele bufou, aborrecido, e eu soube que ele jamais se conformaria com aquela decisão. Ele agarrou o meu braço como uma fera pronta para me devorar e me puxou para dentro. Com a porta ainda aberta, ele ordenou:
- Vou voltar ao salão e dizer que o casamento vai atrasar. Enquanto isso, vistam a Penélope de noiva e cubram o rosto dela com um véu. Eu não quero que o Nicolas descubra que estamos o enganando com uma noiva substituta.