- Certo - disse outra, chamada Maia, com a voz carregada de falsa doçura. - Você vai ser entregue ao homem mais cruel que a família Benedite já conheceu. Está livrando a Isadora de um problema e conseguindo um maior para você.
Assenti, apertando o vestido de noiva contra o meu corpo com mais força para que as mãos não tremessem.
- Sim, claro.
Por anos, sonhei com este momento: o dia em que me casaria com alguém que amava e seria feliz ao seu lado; com a única pessoa destinada a me ver como eu era, que me amaria e me valorizaria. Mas agora, esse sonho se tornava apenas um meio de escapar daquela escravidão. Lágrimas brotaram em meus olhos.
Conhecia a fama de Nicolas Becker desde o dia em que o casamento dele com Isadora fora anunciado. Nos corredores da mansão, não se falava em outra coisa além de seu temperamento arrogante e cruel. Não sentia receio dele; duvidava que Nicolas fosse pior do que o senhor Benedite.
Quando finalmente fiquei pronta e me virei para sair, a voz de Isadora me parou no meio do caminho. Eu estava tão distraída que nem percebera que ela estivera ali o tempo todo.
- Você ficou bem nesse vestido de noiva. - Ela me olhou da cabeça aos pés. - Aliás, agradeço por você me substituir neste casamento. Você está sendo uma boa criada.
Suas palavras estavam carregadas de veneno e as criadas ao redor riram. Minhas bochechas queimaram de raiva. No final das contas, Isadora saía com o maior prêmio: ela se casaria com Lionel, o homem que amava, e formaria uma família ao seu lado. Ela roubara os meus sonhos como se eu não fosse nada.
- Não estou fazendo isso por você - disparei de repente, como se ser a noiva substituta de um homem poderoso me desse coragem para enfrentá-la. - Faço por mim, porque finalmente serei livre.
Isadora lançou um olhar fulminante em minha direção, ousando se aproximar. Desta vez, o medo não despencou no meu estômago.
- Não me chame tão formalmente como se fôssemos iguais. Para você, eu sou a senhora Isadora - ela ignorou minhas palavras, tentando exercer poder sobre mim. - Você só está ressentida porque roubei seu namorado e vou me casar com Lionel em breve.
O sorriso que escapou dos lábios dela era diabólico. Meu estômago revirou. Segurei a barra do vestido, erguendo-o, e caminhei equilibrando-me nos saltos altos. Mal me mantinha em pé, mas saí cambaleante e encontrei o senhor Benedite e a senhora Camille à minha espera.
O senhor Benedite me olhou de forma aterrorizante, enquanto a senhora Camille virou o rosto, como se não pudesse suportar a ideia de me ver com o vestido encomendado exclusivamente para Isadora - ou pior, ver-me substituindo sua filha.
- Escute bem o que vou te dizer, Penélope - ele apontou os dedos longos e grossos em minha direção, com uma carranca formada. - Você vai se casar com aquele homem e vai se passar por minha filha, mas isso não significa que estará livre de mim. E que o Nicolas jamais descubra que mentimos para ele.
- O senhor quer que eu assuma a identidade da senhora Isadora?
- Você jamais será a Isadora - rebateu a senhora Camille, carregada de ressentimento.
- Você fará exatamente o que estou mandando, pelo seu próprio bem - ele me ameaçou outra vez. - Este casamento vai selar o acordo que tenho com ele. Se algo sair errado, o senhor Nicolas Becker ficará viúvo antes do tempo.
Enguli em seco, tentando segurar uma nova onda de lágrimas. Não respondi, mantendo a cabeça baixa. Meu corpo inteiro tremia; mesmo querendo me libertar daquela prisão, sentia que não conseguia.
No segundo seguinte, as mãos do senhor Benedite me empurraram. Eu tropecei, mas fui amparada por duas mãos firmes. Quando ergui os olhos, vi Lionel. Ele aproximou o rosto do meu. O senhor Benedite passou por mim acompanhado da senhora Camille, avisando que já era hora de entrar no salão e oficializar a união.
- Por favor, senhor, me dê um minuto a sós com a Penélope - Lionel insistiu. O senhor Benedite encarou o pedido como uma afronta.
- Você é muito corajoso em me fazer um pedido assim após desonrar minha filha - o rosto dele tornou-se vermelho, mas, estranhamente, concordou. - Não demore na despedida.
Isadora se colocou entre nós dois, tentando nos impedir, mas o senhor Benedite ordenou que ela fosse trancada em seu quarto e só saísse de lá quando a cerimônia terminasse. As criadas a seguraram e a arrastaram enquanto ela resistia, como se temesse que eu pudesse ter Lionel de volta.
Eu jamais perdoaria Lionel pela sua traição. Quando finalmente estávamos a sós, os olhos dele brilharam em minha direção; vi lágrimas brotando.
- Como pode se casar com outro homem? - A pergunta dele me assustou. - Pelo jeito, você se vendeu fácil demais.
- Não fui eu que me deitei com a filha do meu patrão e a engravidei - cuspi as palavras, fechando os punhos. - Você perdeu o direito de me cobrar dignidade quando teve um caso com a Isadora.
- Eu já disse que foi um erro...
Senti-me fraca e impotente. Encostei-me na parede enquanto novas lágrimas insistiam em cair. Amava Lionel, e um amor assim não se apaga em uma hora. As mãos dele voltaram a me tocar, mas eu o empurrei para longe.
- Não volte a tocar em mim - ele estreitou o olhar e franziu o rosto, como se não me reconhecesse. - Não é culpa minha se você preferiu ficar com a Isadora. Por favor, saia da minha frente; meu noivo está me esperando.
- Acha que será feliz ao lado desse homem? - Ele me olhou com raiva. - Ele é um monstro e está se casando com você apenas por um acordo. Ele jamais te amará.
- Você pode estar certo - retruquei, sentindo-me horrível sob seu olhar. - Mas estar ao lado de um monstro me parece mais vantajoso do que estar ao lado de um traidor.
Passo por ele com uma dor aguda atravessando meu estômago. Eu o ouvi grunhir ao meu lado, inconformado e com raiva. Quando cheguei à porta do salão, olhei para ele pela última vez e declarei:
- Seja feliz com sua nova vida, se conseguir. Porque eu serei feliz longe de você.
Empurrei a porta e olhei para a frente enquanto a madeira pesada se abria lentamente. Desta vez, não havia ninguém para me impedir. Caminhei trêmula, meus pés mal se sustentando nos saltos. O véu cobria meu rosto enquanto a música tocava ao fundo.
Quando olhei para a frente, minhas pernas travaram. Diante do altar improvisado, estava o homem mais assustadoramente belo que já vi.